O fim misterioso de Cukurs

Vândalos ou militantes políticos? Perturbadores da ordem pública ou manifestantes? Durante as pesquisas que fiz para um romance histórico (a ser lançado pela Editora Rocco) em torno do caso Herberts Cukurs (lê-se Tsúkurs) – o piloto que instalou o primeiro negócio náutico da Lagoa Rodrigo de Freitas, no final da década de 1940 –, um dos aspectos que me chamaram a atenção foi o viés de intolerância da maior parte da imprensa da época diante dos judeus que reivindicavam a expulsão do país do “homem dos pedalinhos”, a quem acusavam de ser o Carniceiro de Riga. A primeira página de O Globo de 14 de agosto de 1950 relata o caso em linguagem adjetivada, igualando acusado e acusadores, e estampando em 3 x 4 (formato usado na época para publicar fotos de criminosos) as figuras de três “elementos israelitas” detidos durante os protestos.

Cukurs, que negava ter participado do genocídio dos judeus da Letônia na Segunda Guerra, nunca foi ameaçado de expulsão. Os protestos de 1950 obrigaram-no a sair da Lagoa, mas ele viveu e trabalhou no Brasil por mais 15 anos, até ser morto, em 1965, em Montevidéu, aparentemente por uma equipe do Mossad.

Cukurs chega a Gâmbia

Cukurs chega a Gâmbia

De herói dos ares a empresário no Rio

Primeiro, os antecedentes. Cukurs era aviador condecorado, engenheiro de voo e construtor de monomotores antes da Segunda Guerra. Aclamado como o Lindbergh letão, fizera um voo solitário de Riga a Gâmbia e outro de Riga a Tóquio, recebido com honras de herói ao longo do trajeto. A Letônia se tornara independente em 1918, depois de séculos de domínio de vizinhos poderosos (Polônia, Suécia e Rússia), mas a liberdade durou pouco: em 17 de junho de 1940, os soviéticos a invadiram, e um ano depois houve a invasão nazista. Entre 1941 e 1944, a comunidade de 80 mil judeus letões foi quase extinta. Milhares de judeus alemães e austríacos transportados para o país em trens também foram executados – em geral por fuzilamentos em massa, os corpos jogados em fossas coletivas. A organização e a execução do extermínio eram tarefas dos alemães, com apoio de forças locais, entre elas a milícia direitista chamada Comando Arajs, liderada por um tenente especialmente violento.

Cukurs, que tinha realizado missões aéreas para os soviéticos, aderiu aos novos ocupantes. Voou para eles no final da guerra, levando nazistas em fuga para a vizinha Suécia. Antes disso, destacou-se como homem de confiança de Viktor Arajs, dirigindo um carro especial do Comando e atuando como mecânico; mais de uma testemunha no pós-guerra contou tê-lo visto de arma na mão, com seu casaco de couro negro de piloto, gritando ordens e atirando em civis no gueto de Riga.

Salvo-conduto obtido no Consulado do Brasil em Marselha

Salvo-conduto obtido no Consulado do Brasil em Marselha

Arajs escapou no final da guerra e viveu na Alemanha com outro nome até ser descoberto e condenado à prisão perpétua em 1979. Cukurs nunca usou documentos falsos. Foi com seu próprio nome que partiu, às vésperas da capitulação alemã, para Szczecin, na Pomerânia, onde já estavam sua mulher, os três filhos e a sogra. Chegou à cidade em companhia de uma jovem judia que alegava ter salvado (e que acompanhou a família até o Rio), e em seguida o grupo prosseguiu viagem até Marselha. Obtiveram vistos do consulado brasileiro e, com salvo-conduto, embarcaram em Lisboa no Cabo de Buena Esperanza, descendo no Rio no carnaval de 1946, o “Carnaval da Vitória”, o primeiro depois da guerra.

A fama e a perícia de aviador garantiram a Cukurs trabalho na Companhia Nacional de Navegação Aérea, CNNA, em Niterói, e, doisMídia anos mais tarde, apoio do prefeito do Rio, marechal Mendes de Moraes, e de altas patentes da Marinha para transformar-se em empresário, levando para a bucólica Lagoa, cartão-postal cercado de morros e algumas mansões, seu negócio – pedalinhos, esquis aquáticos, um hidroavião para vôos turísticos. Ele tinha planos de construir um restaurante flutuante, igual aos que singravam os rios europeus.

Pedalinhos entre as ruas Aníbal de Mendonça e Henrique Dumont; ao fundo o Clube Caiçaras

Pedalinhos entre as ruas Aníbal de Mendonça e Henrique Dumont; ao fundo o Clube Caiçaras

Inexistem provas irrefutáveis – à exceção de testemunhos – da extensão da colaboração de Cukurs com as forças de ocupação nazistas. A forma de sua morte é até hoje lamentada por gente como o historiador Efraim Zuroff, diretor do Centro Simon Wiesenthal, segundo o qual julgamentos em tribunais são muito mais úteis (à História e à justiça) do que execuções sumárias. Se o piloto tivesse sido julgado, e se evidências tivessem sido produzidas, diz ele, isso teria dificultado as alegações de inocência que seus defensores insistem em fazer (ainda em 2011, nacionalistas letões reivindicaram a sua inclusão no Panteão dos Heróis Nacionais).

Bilhete colocado sobre o corpo

Bilhete colocado sobre o corpo

Fim da trégua

No Brasil de 1950, Estado de direito carregado de traços da ditadura recente, negava-se a existência de racismo em geral e de antissemitismo em particular. O termo Holocausto não era de uso comum quando uma dezena de organizações da esquerda judaica da capital da República, agrupadas no Comitê Unido, e com o apoio de alguns parlamentares e jornalistas, iniciaram uma campanha para exigir a expulsão de Cukurs. Com a campanha, a clientela dos pedalinhos diminuiu. Ele desmentia as acusações, dava entrevistas afirmando que jamais se escondera. Nunca ordenara que judeus fossem trancados numa sinagoga em Riga, nunca a incendiara. Não forçara prisioneiras a manterem relações sexuais com ele! E muito menos poderia ter sido o responsável pelo assassinato de 10 mil e 600 pessoas na floresta de Rumbula.

O auge da campanha foi um júri simulado, realizado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) na noite de 12 de agosto, um sábado. Depois da sessão, um grupo de rapazes, portando cartazes toscos, tinta e pincéis, partiu para o cais dos pedalinhos na Lagoa. Na madrugada fria, pintaram suásticas na porta do barracão onde ele guardava ferramentas e quebraram meia-dúzia de pedalinhos, até que a polícia chegou e dispersou-os a bordoadas. Três deles não tiveram tempo de fugir e, autuados por “dano material doloso”, foram liberados no dia seguinte, após pagamento de fiança. Os jornais da época não circulavam aos domingos, e na segunda-feira O GLOBO bradava na capa, com caixa alta, ponto de exclamação e negrito:

CRIMINOSA TENTATIVA DE AGITAR NO BRASIL O PROBLEMA SEMÍTICO!

A questão não era, pois, a presença aqui de um possível criminoso nazista, mas a confusão provocada pelos “estrangeiros” que pediam sua expulsão. Inexistia no Brasil clima para antissemitismo, afirmava o editorial, mas, igualmente, para “manifestações semitas, organizadas como tais acima ou fora das leis do país”. O editorialista, depois de reclamar do ataque a uma propriedade privada, recomendava que os judeus evitassem tomar atitudes que “servem unicamente para despertar suspeitas e gerar antipatias contra uma comunidade que, para se abrigar no nosso país, deve, antes de tudo, respeitar as suas leis”.

As ambivalências que cercaram o caso são comuns na burocracia brasileira. Cukurs passou a ser investigado pelo Ministério da Justiça, que nunca aprovou seus pedidos de naturalização, mas nunca o confrontou. O prefeito cassou a licença dos pedalinhos, mas sua secretaria de segurança deu a Cukurs a proteção policial que ele pediu. Voltou a Niterói e trabalhou na montagem de aviões até mudar-se com a família, em 1956, para Santos, onde instalou pedalinhos e hidroavião que logo se tornaram atração turística. Depois do sequestro de Adolf Eichmann na Argentina, foi confrontado por judeus que o reconheceram e transferiu residência e negócio para a então afastada represa de Guarapiranga, na capital paulista. Quando sobreviventes judeus mais uma vez o denunciaram como criminoso nazista, não foi investigado. Ao contrário, passou a ter a proteção do Deops-SP. Vivia numa casa simples, tinha um carro velho e não parecia próspero, porém adquirira terras no interior do Estado.

O final do piloto parece um thriller. O Deops-SP recomendou que ele não viajasse quando, em fevereiro de 1965, Cukurs avisou que iria ao Uruguai para participar da montagem de um negócio turístico. Tinha sido convencido, ao que tudo indica, por um agente do Mossad disfarçado de executivo alemão. Com o agente, entrou numa casa alugada na praia de Carrasco, onde outros três o esperavam. Os quatro o mataram a golpes e com um tiro. Enfiaram o cadáver num baú e sobre ele colocaram um bilhete assinado por “Aqueles que não podem esquecer”.

A polícia uruguaia afirmou que o baú seria despachado de navio para Israel, com Cukurs vivo no seu interior, o que só não teria acontecido devido à sua resistência. O piloto, que andava armado, lutou tanto que quase arrancou com uma mordida o dedo de um israelense. Na ocasião, o chefe de polícia de Montevidéu anunciou que tomaria medidas para evitar “atentados contra a embaixada de Israel, as sinagogas e as entidades israelitas por parte de grupos antissemitas”…  Depois o assunto caiu em silêncio e assim ficou por quatro décadas, até que o agente que comandou a ação escreveu um livro com a versão “oficial” do caso, embora deixando sem resposta várias indagações.

Se Cukurs foi um criminoso “menor”, por que foi executado naquele momento? A Federação das Sociedades Israelitas negou, na época, a participação de judeus e levantou a hipótese de um acerto de contas entre nazistas refugiados na América do Sul. Outra hipótese: em troca de proteção ou recompensa, Cukurs revelaria aos israelenses o esconderijo de nazistas que transportara em seu hidroavião para o interior do Estado de São Paulo, mas algo desandou no meio da negociação e a solução foi matá-lo.

O episódio tem furos que fazem com que pareça ficção – talvez uma boa prova, por outro lado, de que é tudo verdade…

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Heliete Vaitsman

Jornalista, é colaboradora do Boletim ASA.

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