As semelhanças que confluem

Emiliano Zapata e Pancho Villa  no  Palácio Nacional, Cidade do México, 1914

Emiliano Zapata e Pancho Villa no Palácio Nacional, Cidade do México, 1914

Como herdeiro da grande revolução no México ocorrida cem anos atrás, formou-se o Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que governou o país de 1929 até 2000.  Arnaldo Pedroso Horta, arguto jornalista brasileiro, escreveu a respeito, em um pequeno livro editado em 1965:

“Apesar da incongruência etimológica da denominação – revolucionário institucional – esse título corresponde bem à natureza e à função do partido. A revolução foi institucionalizada, no sentido de que está simultaneamente vitoriosa, irrealizada e burocratizada.  O espírito revolucionário desceu sobre as instituições e nelas integrou-se: de vez em quando é promovido algum ato em continuação ao processo revolucionário, mas habitualmente as instituições mantêm-se na calma digestão dos atos já praticados.”

E mais adiante: “No México, a ausência de um sindicalismo unido é uma das grandes dificuldades para a implantação e o exercício efetivo da democracia. Apesar do grande número de empresas nacionalizadas, não há participação colegiada de trabalhadores na direção das mesmas. Apesar de todo o palavreado obreirista, nas fábricas inexistem comissões operárias que pudessem dar os passos iniciais no caminho da cogestão. Em todas as partes os órgãos de controle democrático são substituídos por agentes de um caciquismo corrupto e nefasto.”

Soa próximo, familiar? No Brasil, as conquistas de um Partido dos Trabalhadores, que promoveu melhor distribuição da renda, aumentos salariais e maior inclusão social, se cristalizaram e suas lideranças se fixaram no imaginário e na representação de que teriam institucionalizado uma “revolução nunca antes conhecida em nossa história”, mas se surpreenderam, inteiramente perplexas diante dos protestos, alguns muito violentos, nas ruas de centenas de cidades brasileiras durante o mês de junho.  Justificativas mal ajambradas não deram conta das razões para uma mobilização tão intensa e tão ampla.

No México, a cúpula do PRI entrou em um processo de completa decomposição:  métodos mafiosos de controle do poder, corrupção, práticas eleitorais suspeitas, privatizações de dezenas de empresas, desvios de dinheiro público, assassinatos de candidatos – inclusive de candidatos à Presidência – , com um ex-presidente, Carlos Salinas de Gortari, fugindo do país em 1994 para escapar à Justiça.  O Partido retornou ao poder apenas em 2012, com um candidato tido como galã, beneficiando-se da fraqueza dos partidos de oposição de esquerda e da incapacidade dos de direita de darem novos rumos ao eleitorado.  Com um país cada vez mais submisso aos interesses dos Estados Unidos, Pancho Villa e Emiliano Zapata viram curtos parágrafos nos livros de História.  Ordem e violência, domínio das instituições e do Estado, máquinas de preservação do poder tornam-se a antítese da revolução.  Mas – atenção! – não se pode deixar de mencioná-la.

Pensar pode doer

As falsificações da realidade incomodam, e profundamente, os espíritos bem pensantes. O exercício do pensar pode ser muito doloroso.  Difícil e trabalhoso, ao menos. Dizem até que pensar dói.  Colocar em dúvida verdades estabelecidas, desnudar fantasias, por mais justificáveis, brilhantes e ricas que pareçam, praticar o questionamento, contrariar amigos de antigas militâncias que nos apontam dedos acusadores. Pensar é, porém, a chave da libertação.

O que remete à permanente saga do judaísmo, à cultura da controvérsia. O Talmud, copilado, pelo esforço de várias gerações, em 63 tratados no século 5° da Era Cristã, nunca foi, em verdade, completado, e traz, sobre cada uma de suas passagens, comentários de eruditos e rabinos que se debruçaram sobre suas questões, registrando ali mesmo pontos de vista muitas vezes adversos. Houve até os caraítas, que, durante séculos, o repudiaram, considerando-o uma obra cheia de falsidades, heresias e coisas ilógicas. O judaísmo, tido como rígido e difícil de ser levado como estilo de vida, admitiu sempre a possibilidade de que o outro estivesse mais próximo da razão.

Então, vamos nós, agora, neste sofrido continente latino-americano, achar que tudo caminha bem porque assim nos tentam fazer acreditar a propaganda e os números constantemente apregoados? Porque são essas as palavras dos que se institucionalizaram como os que falam em nome do povo do trabalho. O México realizou duas Copas do Mundo e nós estamos a ponto de fazer o mesmo. Copiaremos os seus exemplos?

Ou, melhor, façamos como os tossafistas, os comentaristas do Talmud, que examinavam alternativas.  Será que encontraremos alguma?

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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