Arthur Miller, suas peças dispensam claque

Arthur Miller

Arthur Miller

Foi assistindo ao Manhattan Connection que tive o estalo: Arthur Miller bem que merece uma matéria no nosso Boletim, ele que é, foi, um dos mais importantes intelectuais judeus americanos do século passado. E sua obra sempre esteve presente no teatro e no cinema. Como agora, na Broadway, na peça de grande sucesso, estrelada pelo Phillip Hoffman, A morte de um caixeiro-viajante.

Nascido em 1915, ele foi um dos principais autores do teatro norte-americano contemporâneo. Em sua obra, fez uma crítica contundente à sociedade de seu país. Destacou-se também por protestar contra a falta de liberdade de expressão e a perseguição a comunistas no período do macarthismo, nos idos de 1950. 

Eu era um garoto atrevido, tanto que assisti a A morte de um caixeiro-viajante, em 1951, no Teatro Glória, na Cinelândia carioca. Foi iniciativa do meu irmão Moysés z’l e de seus amigos, os atores Jaime Barcelos z’l e Maurício Sherman, todos envolvidos, naquela época, com as atividades do partidão. O curioso é lembrar que Willy Loman era representado por Jaime Costa, e eu achava, então, que Jaime Costa era um canastrão! Ledo engano.

Talvez seja o momento de recordar para o leitorado deste Boletim o que era a peça: ela enfoca o personagem Willy Loman, esmagado por um drama de ordem social e outro de origem familiar, que o levam a uma trajetória descendente até o suicídio. O velho caixeiro-viajante, criado num mundo em que a amizade se sobrepunha às regras econômicas, vê seus valores perderem lugar justamente no momento em que, desempregado, procura ajuda. No âmbito pessoal, a trama fica pesada quando o filho o flagra com uma amante, gerando o bloqueio das relações entre ambos.

Arthur Miller propõe uma crítica social ao mesmo tempo em que constrói sua história sobre um conflito psicológico e moral. Trata-se, no fundo, de um conflito de Willy consigo mesmo, entre o que ele é e o que imagina ser. O texto propõe dois planos de ação: aquele que mostra a vida presente de Willy Loman e aquele que dá conta de sua imaginação.

Era engraçado: o programa da peça esclarecia que, por esse motivo, o autor sintetiza sua obra como “conversações íntimas em três atos”. Como diria dona Mariazinha, nunca esqueci, o programa trazia a advertência de que “Este Teatro Não Tem Claque”, assinado Jaime Costa…

 

Teatro Glória, na Cinelândia

Teatro Glória, na Cinelândia

Carreira

Miller começou sua carreira, como tantos outros escritores e roteiristas, escrevendo comédias para o rádio. Seu primeiro sucesso foi o romance Focus, de 1945, que trata do antissemitismo. Uma de suas primeiras peças, Eram todos meus filhos (1947), que foi representada aqui no Brasil pela turma do TBC, reflete a influência de Ibsen em sua obra.

Em 1949, Arthur escreveu sua peça mais importante ou, pelo menos, a mais conhecida, A morte de um caixeiro-viajante, que recebe o Prêmio Pulitzer – a história de um caixeiro-viajante como tantos que tivemos aqui mesmo, em nossa comunidade. Quem não conheceu alguém, até da família, dedicado a essa vida pesada de viajar para pequenas localidades, carregando, às vezes, suas malas com mercadorias?

Na década de 1950, com as investigações sobre atividades subversivas promovidas pelo governo dos Estados Unidos, depôs no Comitê de Atividades Antiamericanas e recusou-se a delatar intelectuais que participavam de reuniões e encontros comunistas.  Declarado culpado por omissão, recorreu da decisão e, surpresa!, ganhou a causa.

Em 1960, escreve o roteiro do filme Os desajustados para sua segunda esposa, Marilyn Monroe. Pois é, ele se apaixonou por MM, mas o casamento não durou muito. Dizem que ele tentou dar um upgrade na cultura da loura escultural, mas sem grande sucesso.

Arthur Asher Miller era filho de um casal de imigrantes judeus poloneses, Isadore, um comerciante do ramo têxtil, e Augusta, dona de casa. O casal teve ainda dois filhos, Kermit e Joan. A família vivia numa penthouse, em Manhattan, com vista sobre o Central Park , até o momento em que Isadore perdeu tudo na crise de 1929.

Em 1936, a sua peça Honors at Dawn, com a qual ganhou o Prêmio Hopwood, foi encenada na Universidade de Michigan. Dois anos mais tarde, graduou-se nesta mesma universidade em jornalismo. Em 1940, Miller casou-se com a sua namorada dos tempos do colégio, Mary Slattery. Tiveram dois filhos, Jane e Robert. A sua peça de 1949, A morte de um caixeiro-viajante venceu o Prêmio Pulitzer e três Prêmios Tony, bem como o prêmio do Círculo de Críticos de Teatro de Nova Iorque. Foi a primeira peça a conseguir os três simultaneamente. A sua peça seguinte, The Crucible (As bruxas de Salem), estreou na Broadway em 22 de janeiro de 1953. Virou filme, é claro, a primeira versão com Simone Signoret e Yves Montand, a mais recente com Winona Ryder.

Casou novamente, em 1962, com Inge Morath. Conheceram-se enquanto os fotógrafos da agência Magnum documentavam a realização do filme The Misfits (Os desajustados). Tiveram duas crianças, Rebecca e Daniel. Inge Morath morreu a 30 de janeiro de 2002.

Em maio do mesmo ano, Miller venceu o prêmio espanhol Príncipe Astúrias de Letras por ser, segundo os atribuidores do prêmio, “o mestre indiscutível do drama moderno”.

Finalmente, em dezembro de 2004, com 89 anos, anunciou que pretendia casar com uma artista de 34 anos, Agnes Barley, com quem vivia desde 2002 .  Miller morreu em fevereiro de 2005, em casa, de insuficiência cardíaca crônica.

Seymour Hoffman-A morte do caixeiro-viajante

Seymour Hoffman-A morte do caixeiro-viajante

O Caixeiro, hoje

Antes de entrar em cena para encarnar Willy Loman na nova montagem da Broadway de A morte do caixeiro-viajante, enquanto outros atores do elenco praticam alongamento em seus camarins, Philip Seymour Hoffman adota uma rotina: sobe ao palco do Barrymore Theater e se senta na cadeira da cozinha da família Loman. E lá permanece por cerca de meia hora no pequeno e claustrofóbico cenário, preparando-se para transformar-se em Willy Loman, o vendedor, pai e marido orgulhoso, e que também é o maior herói trágico que o teatro americano já produziu. Claro, um herói judeu, primo próximo de todos os clientéltchiks do século 20.

Às vezes, Hoffman conversa com Linda Emond, a atriz que interpreta a mulher de Willy e que também gosta de visitar a casa dos Loman antes de as cortinas serem abertas.

Outro Hoffman também interpretou Willy, Dustin Hoffman, em 1985, primeiro na televisão, depois no cinema.

Boletim nº 145 – novembro/dezembro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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