Um Congresso em Jerusalém, no topo de uma montanha

Num dos intervalos do Congresso, a partir da esq.: professoras Regina Igel, Nancy Rozenchan, Eva Blay e Anita Novinsky

Num dos intervalos do Congresso, a partir da esq.: professoras Regina Igel, Nancy Rozenchan, Eva Blay e Anita Novinsky

Sempre que adentro os portões da Universidade Hebraica de Jerusalém, no Monte Scopus, lembro-me do arquiteto brasileiro-israelense David Reznick (1924-2012), que a desenhou, complementando a primeira planta, de 1918.  Sua construção é genial, de uma racionalidade irrefutável. Porque foi construído numa montanha, nas suas novas proporções a Universidade estaria à mercê de fortes correntes de vento. Daí a construção ser feita, segundo o desenho de Reznick, como uma sequência de prédios de baixa estatura, resultante numa composição em formato de ziguezague. Na minha primeira visita à Faculdade de Humanidades, há uns 20 anos, depois de me ver completamente perdida pelas entradas, saídas e desvios, entrei num dos escritórios e perguntei a uma das secretárias: “Por favor, como a senhora faz para sair daqui e ir para casa?” Riram muito da minha bobeira, uma delas disse que anda com bússola, outra respondeu que amarra um barbante no ponto do ônibus e vai desenrolando até chegar na sua mesa, e assim por diante. Percorrer suas sinuosidades, localizar as salas de aula ao longo de seus corredores e esquinas parecia um desafio cansativo, antes que se tornasse relativamente fácil navegar no seu bojo. Os jardins internos, em espaços ladeados por prédios, transformam o que seriam os ventos fortes e cortantes em brisas amenas. Finalmente, entrar e sair na Escola de Humanidades da Universidade Hebraica deixou de ser um problema, depois de lá ter ido, entre visitas e estudos, umas cinco vezes no decorrer dos últimos anos.

Há pouco estive lá, por ocasião do 16° Congresso Mundial de Estudos Judaicos (The Sixteenth World Congress of Jewish Studies), que ocorreu entre 28 de julho e 1° de agosto (2013).  Já familiarizada com aquele extraordinário complexo arquitetônico, calmamente entrei pelos corredores amplos e arejados da Universidade, até encontrar meu núcleo de brasileiros (mais adiante descreverei o programa sul-americano, no qual se inseriram os compatriotas). Muitas universidades patrocinaram o encontro global (Bar Ilan, Ben Gurion, Open University, Haifa e Tel Aviv), embora todas as sessões tivessem lugar no campus do Monte Scopus da Universidade Hebraica (menos o ato de encerramento, que foi no campus Guivat Ram). O encontro reuniu estudiosos nas áreas as mais diversas, e o Congresso se dividiu por temas como: a Bíblia e seu mundo; História do povo judeu; Literatura rabínica; Talmud, Leis e Pensamentos judaicos; Literaturas, línguas e artes; Sociedade judaica contemporânea; Pesquisa e projetos tecnológicos e Miniconferências (Judaísmo latino-americano, Estudos masoréticos, entre outras).  As palestras foram proferidas em oito idiomas: hebraico, inglês, alemão, ladino, espanhol, português, russo e ídish.

Foram cinco dias e quatro noites de contínuas atividades intelectuais e recreativas. Os corredores da Faculdade fervilhavam com os participantes, seus crachás pendurados por uma fita no pescoço, todos com a pasta de vibrante cor laranja dependurada do ombro (presente do Congresso, ante o pagamento do registro e anuidade). Sentar-se no olho do furacão ou pátio central, nos intervalos das palestras, e observar aquela movimentação foi um dos prazeres a que me dei e vi: homens barbudos de quipá e mulheres de saias longas proseando com homens sem quipá, barbeados e de sandálias, mulheres de calças compridas, minissaia, calçando alpargatas, sapatos de salto, sandálias, estudantes com mochilas nas costas, iniciantes e veteranos, jovens e menos jovens… Uma balbúrdia, uma algaraviada das mais agradáveis, pois todas as línguas do mundo aí eram faladas, com informações, ideias, relatos. Foram 840 painéis, cada um deles contando com mais ou menos quatro pessoas, o que dá um total de 3360 participantes. Havia público para todos os painéis, sem exceção, cada um no seu horário programado e numa sala de aula designada (a Faculdade estava em férias de verão, daí ser possível fazer um congresso de tal envergadura nas suas instalações).

Tudo se aproveita

O Programa oferece quase mil temas e é impossível presenciar a todos. O que acontece é um pula-pula geral, vai-se de uma palestra a outra, de uma sala para outra para ouvir partes de um e outro painel. Alguns dos temas, aqui indicados aleatoriamente, ilustram tal variedade (os interessados em ver o programa inteiro podem acessá-lo pela internet: www.jewish-studies.org): Studies in the Dead Sea Desert Scrolls; Who protected the Jews in the Middle Ages, and Why? Relations between Jews and Bishops in Comparative Perspective (este tema foi  desenvolvido em três painéis); The context and practice of Jewish medical ethics; Medieval literature; Modern Hebrew literature (este tema também ganhou três painéis); Yiddish culture after the Holocaust through the prisms of its literature; Folkloristic elements in the study of Judeo-Spanish culture; Ladino culture: Education and tradition; Jewish and Christian Iconography; Jewish and Israeli cinema: contacts and conflicts; The Encyclopedia of Jews in the Islamic World and its impact.

Dentro do Congresso, como tem acontecido há alguns anos, tem lugar o Encontro da AMILAT (Asociación Israelí de Investigadores del Judaísmo Latinoamericano; a sigla responde por América Latina). É uma organização que, fundada por acadêmicos sul-americanos em Israel, congrega professores e estudiosos do judaísmo latino-americano. O programa da AMILAT teve a participação de professores universitários e scholars independentes do Brasil, da Argentina, do Uruguai, do México e de países norte-americanos e europeus, além de israelenses. Os temas que abrangeram estudos judaicos hispano-americanos foram igualmente bastante variados, tais como: Democracia, comunidades y refugiados; Identidades sefaradíes: entre lo colectivo y lo individual; Demografía, alyah y transiciones, Nuevos enfoques en el cine judío iberoamericano contemporáneo, entre mais outros, de igual importância.

Temas relacionados ao judaísmo brasileiro foram igualmente relevantes, com a  participação dos brasilianistas Naomi Lindstrom (Universidade do Texas, Austin) e Alejandro Meter (Michigan); a USP se representou pelos professores Moacyr Amâncio, Berta Waldman, Saul Kirschbaum, Nancy Rozenchan, Dina L. Kinoshita, Tullo Vigevani, Guilherme Casarões, Luis Krausz, Eva Blay e Anita Novinsky, e o mestrando Marcelo Maghidman; a UFMG, por Lyslei Nascimento; a UERJ, por Helena Lewin; Esther Kuperman, pesquisadora do Rio de Janeiro; e eu, da University of Maryland. Todos os temas, expostos em português, tiveram excelente acolhida do público, composto por colegas professores, mestrandos e doutorandos, hispano-americanos, brasileiros, norte-americanos, europeus e israelenses.

Tudo se aproveita, nada se desperdiça – até os momentos de descanso, entre uma palestra e outra, eram preenchidos com conversas interessante, trocas de novidades, colocações para outros encontros. Daí o fascínio dos congressos… dão trabalho, nem sempre são baratos, mas o encontro e reencontro com colegas, o reconhecimento de suas pesquisas, o contato com as novas tendências nos estudos globais sobre o judaísmo… tudo isto e mais fazem com que valha o esforço. E estar em Jerusalém, passear por suas ruas, sorver sua brisa noturna, respirar o ar aromatizado pelos lilazes que se agarram pelas cercas e pelas paredes, ah, sim, é tudo o que se precisa nesses cinco dias estimulantes do Congresso e da AMILAT.

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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