Teatro Ídish: da Europa, com amor

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O teatro ídiche em São Paulo, Memória

Berta Waldman

Prefácio de Jacó Guinsburg

São Paulo: Casa Guilherme de Almeida e Annablume, 2010

86 págs., mais CD contendo entrevistas com atores e atrizes

Esta coletânea de entrevistas com ex-atores e atrizes do teatro amador judaico de São Paulo e de outras cidades pode ser lida e ouvida. Trata-se de um relatório escrito, no qual se expõe a história das atividades teatrais de judeus imigrantes, complementado por um CD contendo entrevistas com muitos atores/atrizes e seus parentes, e também com alguns atores nascidos no Brasil, descendentes dos expatriados. Tanto a parte expositiva escrita quanto a audível trazem um raro panorama do que foi o começo, o prosseguimento e a extinção de um período rico em atividades cênicas por imigrantes judeus radicados no Brasil. Tais atividades eram imbuídas de um desejo de coparticipação no cenário cultural brasileiro, ao mesmo tempo em que seus participantes lutavam pela preservação do teatro falado em ídish, o meio primordial de comunicação entre os judeus na Europa que cessara de existir para eles.

De todo o mundo judaico europeu massacrado pelos nazistas, pode-se dizer que o teatro foi um dos seus últimos sobreviventes. Transportado da Europa para as Américas, foi replantado nas grandes cidades, de Nova York a Buenos Aires. No Brasil, cidades como o Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo e localidades vizinhas da capital paulistana também tiveram períodos de grandes atividades teatrais inauguradas por imigrantes judeus. Não tiveram, como se pode entender, a efervescência ou o ímpeto que marcaram os palcos judaicos na Europa de antes da Segunda Guerra, mas se ergueram pela vontade invencível de poder se recriar do lado de cá do Oceano Atlântico, ainda que por curto espaço de tempo. Este livro, O teatro ídiche em São Paulo, Memória, alcança uma parcela dos que refizeram a dramaturgia ídish no Brasil e pode ser visto como um marco histórico no contexto da historiografia do teatro encenado por imigrantes e também por seus descendentes neste país.

O prefácio de J. Guinsburg, idishista, professor de teatro (entre outras qualificações acadêmicas de suma importância), esclarece o teor da coletânea, ao observar que as entrevistas colhidas “são retalhos de vivências, as dos imigrantes judeus progressistas, de sua problemática na terra de origem e na chegada ao Brasil, de seu ativismo social, político, cultural e artístico, bem como de sua fidelidade ao ethos que os definia coletivamente e às aspirações de redenção pessoal e grupal” (p. 12). Os anseios dos atores, atrizes e diretores judeus esquerdistas (também conhecidos como “progressistas”) se transferiram para solo brasileiro (muitos foram aprisionados por causa de sua linha política), como demonstraram pelo repertório selecionado e também por darem apoio à continuidade de clubes formados ainda antes de sua chegada, que vieram a desabrochar na Casa do Povo (um complexo arquitetônico em São Paulo, localizado no bairro do Bom Retiro, que abriga salas de aula, auditório, salas de exibição – que foi, há pouco, tema de reportagem em distintos órgãos da mídia brasileira).

Altas horas

Na Apresentação, Berta Waldman indica que o livro em pauta resulta de entrevistas com os remanescentes do teatro ídish criado na cidade de São Paulo. Eles, já no declínio de suas vidas (década de 1980), lembraram e descreveram passagens de suas atividades cênicas, contribuindo com episódios inéditos para o público leitor. Entre as dezesseis pessoas entrevistadas, incluíram-se parentes de atores e atrizes já falecidos, que refizeram, com suas recordações, partes da trajetória dos atores desaparecidos. Também então jovens atores brasileiros, descendentes dos primeiros imigrantes, deram seu testemunho como atores de palco e de televisão brasileiros (José Serber, Rafael Golombek, Sylvio Band).

A maior parte daquele grupo de imigrantes-atores-amadores se dedicava aos ensaios e encenações em horas tardias da noite, depois de suas jornadas como alfaiates, costureiras, vendedores ambulantes, balconistas, ou quaisquer outros trabalhos que lhes garantissem sobrevivência pessoal e de suas famílias. Algumas das entrevistas, que podem ser ouvidas no CD, são parcialmente transcritas na narrativa impressa, como que acentuando informações expostas por Waldman a respeito da história do teatro ídish em São Paulo.

No CD (inserido na capa interna), são preservados os primeiros momentos da formação do teatro judaico em São Paulo, Santos e Campinas, por descrições, observações e relatos pessoais inéditos na voz dos que o fizeram reviver das cinzas do Holocausto. Ainda que levemente orientados pelos entrevistadores Berta Waldman e Maurício (Mauro) Sztejnhaus, os informantes se sentiram à vontade, o que resultou numa atmosfera agradável e hêimish (acolhedora),  onde se pode ouvir o toque de um telefone, um pedido de desculpas por quem vai atendê-lo, ou uma pequena instrução para testar o microfone… Nas entrevistas, os participantes europeus lembram, com objetividade, espírito crítico, alegria e saudades, como transportaram suas experiências cênicas da Europa para o Brasil, explicam quando e por quê se formaram os grupos teatrais e como foram recebidos pela comunidade judaica, entre outras informações sobre diretores, clubes culturais, inclinações políticas, adversidades e sucessos de encenação. As entrevistas foram conduzidas na década de 1980, em português. Mostra-se aí interessante contraste linguístico entre entrevistados e entrevistadores, estes da primeira geração de descendentes de imigrantes e com formação universitária, falando um português cultivado, enquanto aqueles, com seus sotaques diferentes e seu português específico, trouxeram uma “coloratura” original aos colóquios. Atrizes como Pola Rajnstajn e atores como Bóris Cipes estão entre os 16 pioneiros que trouxeram e mantiveram o teatro amador judaico em São Paulo, muitas vezes itinerante, tendo percorrido várias cidades brasileiras, segundo seus depoimentos e dos demais.

O livro e o CD com as entrevistas devem fazer parte das bibliotecas de todos os interessados na história do teatro ídish no Brasil, com foco em São Paulo. Ambos incluem um acervo rico, inédito e generoso nas regressões repletas de informações de caráter pessoal e coletivo, sobre um dos períodos mais vivos, embora precário, como a vida do próprio idioma ídish, depois da Segunda Guerra Mundial.

Leia ainda, nesta edição, de Regina Igel, o artigo ESTUDOS JUDAICOS – Um congresso em Jerusalém, no topo de uma montanha.

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

 

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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