O time de Julio Magro e Rubão *

Equipe Maapilim Da direita, em pé: Uziel Mutchnick (falecido),  Rubão (Rubem Pincovsky) Recife, Jaiminho (Mario Jayme Zimilis, falecido), Paulo Lisker (Israel), Itiel Bubman (falecido), Moishe Kertzman “fumaça”, falecido. Agachados: Bernardo Katz, Nadinho, Recife, Zildo Faierstein (falecido), David Bogater Jacubovitz, Vivi  (falecido), Julio Charifker (Julio magro, falecido), Walter Ghelfond (Vauty, falecido). Crédito da foto:  Paulo Lisker

Equipe Maapilim
Da direita, em pé: Uziel Mutchnick (falecido), Rubão (Rubem Pincovsky) Recife, Jaiminho (Mario Jayme Zimilis, falecido), Paulo Lisker (Israel), Itiel Bubman (falecido), Moishe Kertzman “fumaça”, falecido.
Agachados: Bernardo Katz, Nadinho, Recife, Zildo Faierstein (falecido), David Bogater Jacubovitz, Vivi (falecido), Julio Charifker (Julio magro, falecido), Walter Ghelfond (Vauty, falecido).
Crédito da foto:
Paulo Lisker

Parece que já disse em alguma crônica que a comunidade de imigrantes judeus chegados ao Recife nos fins do século 19 e no princípio do século 20 não gerou nem cronistas nem futebolistas, afora raríssimas exceções.  Futebolistas: dois. Assim como as andorinhas que aparecem cedo demais e não trazem o verão. Cronistas: nenhum mesmo. Tenho plena certeza.

Do que vou contar, pouco ou nada ficou registrado. Pois não ficaram do conhecimento público os intentos da juventude judaica, dos filhos de imigrantes, de se assimilar (assemelhar) ao povo local: para isso era necessário saber jogar futibó.  Vocês já viram menino brasileiro nato que não corre atrás de uma bola mesmo que seja de pano e cheia de papel? Não existe!

A primeira tentativa para tal “façanha” data dos anos 1920. Alunos do Colégio “ídish” Israelita formaram um time que até participou no campeonato pernambucano de futebol. Da pouca informação existente, grande time nunca foi. Nos poucos anos de participação, apanhou tantas surras até que desapareceu por completo. O fim destes garotos, todos sabemos qual foi.

Ao deixar de lado o sonho do futebol, essa gente foi estudar e se formar nas universidades do Recife, já que desde novinhos viviam agarrados ao livro pra conhecer as letras, saber ler e escrever, deixar o analfabetismo para longe e virar gente (zain a mentsh, em ídish).

O Israelita Futebol Clube, fundado em 1922, deixou de existir um par de anos mais tarde, para a felicidade geral das mães desses garotos, que desejavam que eles terminassem de estudar medicina, engenharia, arquitetura ou mesmo odontologia: o importante é que fossem a dócter. Só assim teriam um futuro melhor que os seus pais, que chegaram ao Recife com uma mão na frente e outra atrás, sem um vintém, com a roupa do corpo, sem saber o idioma local e pensando que conviveriam com índios nativos e selvagens.

Coisa de moleque

A verdade era que essa geração de imigrantes tinha muita vontade de vencer a todos e quaisquer obstáculos no novo continente. Criar um novo lar, livre das perseguições comuns na Europa. Quando se deram conta de que a meninada estava assimilando os costumes locais, entre outros, a prática do futibó, coisa de moleques da rua, quase enlouqueceram.

Foi mais um “imposto” cobrado a esses imigrantes e um preço bem pago pela segunda geração na corrida pela assimilação ao sistema da vida local. Não só feijão com arroz, relegando a comida judaica tradicional, mas, também, tamancos, dormir em redes, namorar com shikses (não judias), adorar comida local não casher, não rezar ou guardar o sábado. Era se despir de tudo que fosse a cultura e as tradições dos antepassados.

Tudo se volatilizava com o correr do tempo.

Quando o time de futebol e a doidice de viver chutando bola nas campinas da cidade se acabaram, os veteranos, nossos pais e avós, respiraram descansados. Finalmente, não mais o futibó dos goim. Agora, arregaçar as mangas e estudar e trabalhar.

Houve mais uma tentativa no fim dos anos 1930, quando o sargento Barreto, o instrutor de educação física do Colégio Israelita, pensou em formar uma equipe de futebol juvenil para competir com outras escolas primárias da cidade. Mas esse time acabou ficando só na promessa.

A foto acima foi tirada muitos anos depois, já no fim dos anos 1940: uma terceira tentativa de formar um time juvenil de jovens judeus.

Agora não era mais o intuito de assimilar os costumes locais, mas o de reunir e incorporar a juventude judaica no movimento sionista de esquerda, o Hashomer Hatzair, preparando-a ideológica e fisicamente para uma vida nos assentamentos agrícolas em Israel – trabalhar aquela área no Médio Oriente, abandonada e descuidada pelos que por ali perambulavam, e assim poder absorver milhares de refugiados judeus, sobreviventes da carnificina nazista, nos infames campos de concentração e os fornos de crematórios. Era a redenção das terras desérticas da Palestina, a volta do “povo preferido” após mais de dois mil anos de Diáspora.

O time de futebol era um mero pretexto.  A garotada, porém, via na formação do time algo maior que a realização sionista em Israel. Os “craques” constituíram a equipe denominada Maapilim (em hebraico, escaladores) e jogavam contra outras equipes dos diversos bairros e ruas do Recife. O nosso orientador e técnico era o haver (camarada) Ary Ruchansky, que nos imbuía também das teorias revolucionárias e sionistas daquela época.

Bror Hail

Lembro-me dos campos e campinas em que disputávamos as partidas amistosas. Estas eram acordadas dois a três dias antes da contenda e, se chovia muito, a partida era cancelada de comum acordo por ambos os times. Campina da Ilha do Leite (de terra), campo da Escola Técnica do Derby, com gramado e redes, campo do Quartel da Escola da Polícia Militar do Derby (gramado de primeira e redes), campo da Escola de Agronomia USAP, em Dois Irmãos (arquibancada, banheiros, gramado, redes e até linhas demarcatórias).

Às vezes ganhávamos e às vezes perdíamos, às vezes tristes com a derrota e às vezes alegres com as vitórias. Se dava empate, nos confraternizávamos com o adversário, mas nem sempre estes gostavam de abraçar a “judeusada” que não os deixara ganhar a partida e xingavam à beça. Dava até medo.

Possuíamos nossas próprias pelotas compradas na Casa Sport ou do Atleta, aquelas de número cinco de cor alaranjada. Era a moda na época.

Quase ia esquecendo, tínhamos uniforme com emblema do time, Maapilim, mas jogávamos descalços.

Meu Deus do Céu! Quantos artelhos deslocados, calcanhares inchados, água nos joelhos, empurrões, pontos na cabeça, palavrões destinados às mães dos jogadores e dos juízes! Estes em grande parte eram nossos amigos, que nos acompanhavam para ver as partidas e eram nomeados in loco juízes da contenda.

Senha (Alexandre Ribemboim) era um juiz muito bem conceituado por todas as equipes pelo seu grande conhecimento das regras do Football Association. Quando não estava presente por alguma razão e os dois times não concordavam com a escolha do juiz, então atuavam no campo até dois juízes, um de cada time, cada qual responsável por metade do campo, e não era nada mal, até que dava certo. A imparcialidade é que era meio duvidosa.

Éramos garotos cheios de vida, até inventávamos umas regrinhas próprias. Às vezes atuavam dois juízes, sem bandeirinhas, sem impedimento (dava para ficar esperando passes na “banheira”), sem cartão amarelo, etc. Jogávamos pela camisa e o emblema nela estampado e pra que mais?

Tínhamos um par de jogadores reservas. Meira (Mauricio Bucuar) era reserva só pra inglês ver, pois estava registrado oficialmente no time juvenil do Sport F.C., que proibia terminantemente sua participação em torneios alheios, pois caso se contundisse, seria expulso do clube. No entanto, às vezes nos acompanhava nos jogos, ficava no banco dos reservas só para meter medo aos adversários como se fosse a nossa arma secreta ou para substituir o Itiel Bubman, que, de tanto dar empurrão, poderia ser expulso. Contar com Meira tinha esta grande vantagem; ademais, se houvesse pancadaria, ele nos ajudaria a sair sãos e salvos.

Tudo isso acabou, alguns do nosso time e o instrutor Ary foram pôr em pratica o tal socialismo agrícola nos kibutzim em Israel.

Para outros, o documentário filmado no kibutz Bror Hail, de brasileiros, a que assistiram no salão da Sociedade Israelita – uma cena mostrava um rapaz do Rio, no verão calorento, cortando pasto com uma alfanje e, num close up, o cameraman o pega com um trapo enxugando o suor que corria no rosto – , foi suficiente para a decisão de abandonar a ideia louca de ir se meter a agricultor em Israel.  “Tá louco, melhor mesmo é ficar tomando uma brisa, sentado numa espreguiçadeira, comendo casquinha de siri, tomando uma água de coco bem fria na praia da Boa Viagem, não é mesmo, minha gente? Nós somos a ‘banda fraca’, criados para o amor; sionismo, que façam os fortes.

Fim do sonho.

Paulo Lisker vive em Rehovot.

* Publicado originalmente em geleiageneral.blogspot.com.br . 

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

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