Herança macabra

Claudia Ehrlich Sobral

Claudia Ehrlich Sobral

“Só os culpados são culpados. Os seus filhos, não.”

Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto, Prêmio Nobel de Literatura

Sempre me interessaram as histórias de família como uma ferramenta  não apenas para entender o meu próprio passado, mas também para compreender o outro. Quando tomamos conhecimento de histórias de família é que encontramos pontos em comum e conseguimos nos conectar num nível emocional com o outro. Sou também uma idealista que acredita no poder que temos como indivíduos e como coletivo de provocar mudanças. Confesso, porém, que minha primeira viagem a Berlim, em 2006, me obrigou a lidar com minhas próprias ideias pré-concebidas (que são partilhadas por milhares de judeus), o que não é de surpreender, pois minha família sofreu horrores e muitos foram massacrados pela Alemanha nazista.

Sou a terceira geração de uma família de sobreviventes do Holocausto. Fui com o meu marido para assistir ao jogo de futebol entre o Brasil e a Croácia. Era minha primeira viagem à Alemanha e a primeira vez que eu assistia a um jogo em campo. Para minha grande surpresa, me senti perturbada. Enquanto caminhava pelas ruas dessa cidade vibrante, eu me perguntava se as pessoas mais idosas que eu via na rua estiveram de alguma forma envolvidas no Holocausto.  Decidi que a única maneira de lidar com essas incertezas era falar diretamente com os descendentes do 3° Reich.

Assim, usei as seguintes perguntas como pontos de partida para o meu trabalho: Era justo olhar para as novas gerações de alemães através da ótica dos crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial? Há uma ligação entre os descendentes do Terceiro Reich e as monstruosidades cometidas pelos seus avós, tios, ou pais? De que forma o passado tenebroso de suas famílias condicionou suas escolhas na vida? Ter sentimentos de culpa e vergonha, e sentirem-se responsáveis, foi um fator condicionante de suas vidas? Como era crescer numa família que tem episódios tão escuros na sua história?

 

Bernd Wollschlaeger

Bernd Wollschlaeger

O documentário

Eu sabia que muito trabalho fora dedicado a encontrar, manter e preservar as histórias das vítimas do Holocausto e seus filhos, mas pouco  para conhecer as histórias dos descendentes do outro lado. Decidi me aprofundar na pesquisa e iniciar um processo para a realização de um documentário sobre as histórias desses indivíduos. Importante notar que a minha intenção não era fazer uma generalização sobre todos os alemães. Não estou de forma alguma equipada para fazê-lo, além do que a minha filosofia é evitar generalizações. Durante o processo pensei muitas vezes nos meus avós, que já não estão mais conosco, e o que diriam do meu trabalho, da minha viagem a Auschwitz para filmar uma entrevista com o filho do comandante de uma divisão de tanques da SS, que se converteu ao judaísmo, o que, de uma forma perplexa, o traz mais perto das vítimas. Como se sente o meu marido ao ver a pilha de livros na minha mesa de cabeceira, sobre os “filhos de Hitler”, o livro que Kathrin Himmler escreveu sobre sua família, e a história da família de Wagner escrita por seu neto?

A história que eu tinha para contar era maior do que as minhas próprias emoções, e foi o meu desejo de saber mais e de entender o impacto do regime de Hitler setenta anos depois que me serviu de combustível para embarcar nessa jornada.

Os fantasmas do Terceiro Reich documenta a pungente e angustiada história dos descendentes de nazistas que confrontam o passado de suas famílias e comunicam seus mais profundos sentimentos de uma herança de culpa. Esses indivíduos vêm de famílias que apoiaram o regime nazista e fizeram parte de sua elite, e têm por denominador comum o desejo de se distanciarem da ideologia nazista e das ações de seus antepassados. Anseiam por libertar-se da culpa, vergonha e dor que continuam a cobrar seu preço setenta anos depois. O confronto com a herança nazista é poderosamente evocado na inclusão de momentos filmados durante o Encontro Austríaco, um ponto focal para o diálogo entre os descendentes de criminosos nazistas e de sobreviventes do Holocausto.

Através de uma série de entrevistas com descendentes do Terceiro Reich, entremeadas de imagens de arquivo da Segunda Guerra Mundial, Os fantasmas do Terceiro Reich justapõe imagens históricas e contemporâneas, capturando momentos fortes e delicados do seu “diálogo” com o passado violento de suas famílias. Fantasmas é uma imersão numa jornada que percorre as vidas pessoais dos nossos personagens, sua coragem de enfrentar o passado, a carga que levam dentro de si por atrocidades cometidas por seus predecessores e as escolhas que fizeram em suas vidas para conviver com essa herança.

Testemunhamos também a transformação que vem do partilhamento coletivo dessa herança no “encontro austríaco”, um dos importantes exercícios de healing coletivo iniciado por um dos descendentes. O que era a dor de cada um se transforma aos poucos em cura compartilhada através do diálogo aberto.

Alguns personagens:

Bettina Goering, sobrinha-neta de Herman Goering, foi criada numa família na qual, do lado paterno, havia um membro da elite nazista e criminosos de guerra, e do lado da mãe, o avô era um antifascista ferrenho. Abordamos detalhes de sua formação e a decisão que tomou de distanciar-se do ramo paterno e da ideologia nazista. Seu passado turbulento e os sentimentos perturbadores para com a  avó paterna, simpatizante ardorosa do nazismo, levaram-na a sair de casa aos 12 anos. Bettina fala de maneira comovente de sua decisão de interromper a linhagem através da esterilização voluntária.

Bernd Wollschlaeger, autor do livro Uma vida alemã , é o filho de um nazista herói de guerra que se orgulhava de ter recebido a Cruz de Ferro das mãos do próprio Adolf Hitler. Profundamente perturbado pelo papel que seu pai desempenhou durante a guerra, Wollschlaeger se converte ao judaísmo, muda-se para Israel e serve no Exército de Israel. Quando seu próprio filho quis saber sobre o avô, ele entendeu que não podia mais ocultar a verdade.

A balança Boger, instrumento de tortura

A balança Boger, instrumento de tortura

Ursula Boger, neta de Wilhelm Boger, um dos mais brutais torturadores em Auschwitz – Boger inventou um instrumento de tortura que leva seu nome, “A balança Boger” – , se sentia muito solitária na  jornada para revelar sua história e partilhar suas experiências em público. Sua família não entendia nem apoiava sua necessidade de “se expor”. Ela soube a respeito do avô quando estava no colegial, e a professora mencionou em classe a terrível experiência que o seu avô vivera durante o Holocausto. Ao contar para a  mãe o que ouvira da professora, a mãe lhe revelou que o seu avô também estivera num campo de concentração, mas como criminoso.

Samson Munn é filho de sobreviventes do Holocausto e fundador do Encontro Austríaco, programa iniciado em 1992 como um foco de diálogo entre descendentes de criminosos nazistas e de sobreviventes do Holocausto. O Encontro acontece em Altaussee, Áustria. A cidade conhecida como o Ninho da Águia durante a Segunda Guerra mundial transforma-se num local de diálogo para enfrentar o passado com a esperança de reparar o futuro. Que emoções esses encontros despertam nos participantes? O que os une e por que retornam? Como lidam com seu passado doloroso e trazem a experiência que tinham trancada em si para sua vida pública?

No início do projeto, quando eu apresentava a minha ideia, várias vezes ouvi comentários do gênero “mais um documentário sobre o Holocausto…” ou então “será que essa historia não deveria ser contada pelos alemães? Por que uma judia está interessada nessas histórias?”

Essas perguntas são a afirmação da importância e da relevância contemporânea do meu trabalho. Penso que imagens, documentários, filmes, romances, poemas, depoimentos sobre a Segunda Guerra Mundial e suas consequências nunca serão demais. Cada nova abordagem é como uma contribuição a uma obra de arte coletiva. Cada testemunha nos oferece uma nuance de compreensão, cada ângulo captado por uma câmera ilumina um canto escuro, cada narrativa acrescenta um capítulo, cada palavra preserva uma lembrança. Em resumo, a cada adição o aprendizado se enriquece e alimenta a esperança de “Nunca mais” da sociedade.

Os fantasmas do Terceiro Reich http://www.sdcinematografica.com/index.php?code=prodotti_pagina_5_540, produzido pela SDCinematografica quando vivíamos em Roma, meu marido, eu e nossas três filhas, foi filmado na Alemanha, Áustria, Israel e Itália.

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

(claudia.sobral@sdcinematografica.it ) formou-se em Antropologia no Bard College, Nova York. É produtora de documentários. Produziu e codirigiu Os fantasmas do Terceiro Reich, seu primeiro documentário. Nascida em São Paulo, vive com a família em Los Angeles.

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