Eu tô tentando manter a calma

 

Igor Stravinski

Igor Stravinski

Mais uma data redonda dá margem a boas experiências que nos obrigam a pensar: há cem anos ocorreu a estreia do balé A sagração da primavera, de Stravinski. Sobraram tomates para todos – autor, coreógrafo, orquestra e bailarinos. Não ficou claro qual o alvo do furor da plateia parisiense, se a música ou a coreografia. Ambos parecem ter desafiado o entendimento de crítica e público, os mais refinados da Europa. Naquela mesma década começavam a brotar, em Viena, os dodecafônicos, mais chocantes ainda: dispensadas as discussões sobre estética, não duraram muito. Já Stravinski cresceu ao longo do século 20, ganhando público e crítica. Que público? Quem? Em que lugares do mundo?  Aqui em Campos do Jordão, pelo menos, foi-nos dado ouvir a agora famosa e respeitada Sagração, repertório obrigatório de toda grande orquestra sinfônica. A plateia do Festival de Inverno – provavelmente músicos na maioria – aplaude convenientemente.  À saída, no entanto, ouvimos de uma voz feminina e discreta: “eles estão querendo acabar com a harmonia”, seguindo-se comentário simpático para com o concerto para violino de Tchaicovski tocado anteriormente.  Quem serão “eles”? O que será “harmonia”? Antes de mais nada é preciso respeitar nosso público, ou melhor, qualquer tipo de público. No caso ficou evidente: Tchaicovski é a harmonia, Stravinski quer acabar com ela. Em matéria de gosto, portanto, estamos estacionados em meados do século 19.  Em matéria de informação é inegável que pagamos o preço da elitização ou coisa semelhante: Schoenberg – e logo os demais demolidores da tonalidade – já tinha “acabado com a harmonia” anos antes de Stravinski.  Seja-nos permitido, aqui, retroceder algum tempo e saltar para dentro de um táxi.  Meu taxista é corpulento, suado e peludo; mal cabe no seu fusca. Do fundo dos meus preconceitos faço previsões: deve ser do tipo truculento. É. Arrancadas bruscas, freadas súbitas, tudo temperado com berros alusivos à integridade moral da mãe dos outros motoristas, pedestres, guardas, quem for.  O braço esquerdo bate na lataria à guisa de sai da frente, enquanto a mão direita manipula o botão do rádio, tentando sintonizar algo (sem dispensar o próprio rádio de sonoros xingamentos).

 

Baysa Dashyan (Turandot) e Antonio Nagore (Calaf)-The Israeli Opera Tel Aviv-Yafo, 2008

Baysa Dashyan (Turandot) e Antonio Nagore (Calaf)-The Israeli Opera Tel Aviv-Yafo, 2008

É presunto? Não, é Turandot

Novas previsões: ele deve estar procurando o programa “Patrulha da cidade”, que lhe faz o gênero (“o presunto está lá esticadão com cinco azeitonas na testa!”). Errei – ele finalmente acha o que procurava: Rádio MEC. Voz de soprano com orquestra. Ele aproveita para abrir o vidro oposto e tecer breve comentário sobre a orientação sexual do taxista ao lado. Acomoda-se de novo, aponta o queixo para o rádio e me pergunta: “sabe o que é isto, doutor?”  Não quero humilhar o povo – vou me nivelar por baixo: “Olha, acho que é negócio de ópera… não sei…”  Ele deixa cantar a soprano mais um pouco… e arrasa-me o pretenso socialismo: “É Turandot, doutor! Pucini!  Olha aqui o meu braço; fico todo arrepiado cada vez que ouço isto aí”. Ora veja, quantos taxistas estarão se arrepiando com ópera neste instante?

Esta questão, bem como a outra (a desinformação do público de concerto) nos provoca a tal ponto a calma que apelamos, logo de uma vez, para a insanidade: ligamos a TV. É um estádio superlotado; o público não se permite identificar: se não são apenas adolescentes, devem ser a maioria.  Estão todos entusiasmadíssimos com não sei o quê, pois gritam algo como “iuhuuuuu!”.  No palco, uma lourinha e três guitarristas: acho que é um grupo desses de grande longevidade. Roquenrou, claro. A moça canta – bem – uma coisa dividida em nove estrofes, todos os versos de cada estrofe começando por “eu tô tentando”, o que lhe permite tentar muita coisa. Ocorre apenas que as tentativas são absolutamente aleatórias, visivelmente sem conteúdo, feitas para rimar simulando, ainda assim, profundos pensamentos (salvo engano a última estrofe diz: eu tô tentando criar meu filho, eu tô tentando fazer meu filme, eu tô tentando marcar um gol, eu tô vivendo de rock’n roll). Com excusas aos aficionados, a música se resume aos tradicionais três acordes.  Tudo isto nos leva a suspeitar de que a superlotação dos estádios e o entusiasmo vocal das multidões (que parecem ignorar o conteúdo “literário” das obras) não são fenômenos da categoria musical; restam-nos, nesta última, os taxistas arrepiados e os ouvintes de concerto, mesmo revoltados com a harmonia de Stravinski.

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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