Contos e novelas, produção permanente

Bernardo Kucinski Álbum de família

Bernardo Kucinski
Álbum de família

Bernardo Kucinski é jornalista, escritor e ex-professor da USP. Trabalhou como assessor da Presidência da República durante o primeiro mandato do presidente Lula.  Em 1959, com 21 anos, estabeleceu-se num kibutz próximo à  Faixa de Gaza, onde ficou por dois anos. Sua vasta obra literária, em grande parte voltada para temas políticos e sociais, agregou, em 2011, o livro K., da editora Expressão Popular, já traduzido para o inglês, o espanhol e o catalão. Nele, Kucinski usa a ficção para lembrar o desaparecimento de sua irmã, a professora de Química da USP Ana Rosa Kucinski, e de seu marido, o físico Wilson Silva.

Seu livro mais recente, K. , é uma obra de ficção, baseada no desaparecimento de sua irmã, Ana Rosa, e o marido, Wilson Silva, durante a ditadura militar. Pretende continuar nesta linha ficcional, diferente de sua produção literária anterior?

Estou escrevendo vários textos de ficção ao mesmo tempo, à medida que surgem as inspirações. Escrevo na forma de contos, ou fragmentos autos-suficientes, exatamente como em K. Alguns eu arquivo como contos isolados, outros, como capítulos de uma futura novela. Todos, em alguma medida, contêm referências à repressão da ditadura militar. Uma coletânea de 25 contos em torno do tema da repressão já está contratada para ser publicada pela Cosac Naify, juntamente com a nova edição de K.,no início do ano que vem, quando se marcam os 50 anos do golpe militar. Há ainda duas novelas sem contrato de publicação, uma terminada e outra em andamento. Já que estou dando um relato completo: em agosto ou setembro, deve ser publicado pela Editora da Fundação Perseu Abramo, como documento histórico, Pau de Arara, a violência militar no Brasil – livro de denúncia que escrevi em 1970 com Ítalo Tronca, publicado na época em francês pela Masperó e em espanhol pela Siglo XXI, nunca publicado no Brasil. No início do ano deve ser publicada minha primeira ficção, escrita ainda em 2010, uma novela de suspense, que se passa na universidade.

Os casos de Ana Rosa e seu marido estão sendo investigados pela Comissão da Verdade? Quais são suas expectativas gerais em relação ao trabalho da Comissão? Que consequências jurídicas e políticas poderão surgir depois de concluídos os trabalhos da Comissão?

Não sei se os casos da Ana e do Wilson estão sendo investigados pela Comissão da Verdade, que, como sabemos, trabalha devagar e de modo opaco. Sei que estão sendo investigados pela Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e pela força-tarefa constituída pelos procuradores da Justiça Federal que investigam alguns casos de sequestro e desaparecimento, com base na tese do crime continuado, não coberto pela Lei da Anistia. Minhas expectativas em relação à Comissão da Verdade foram baixas desde o início devido à limitação estatutária que a impede de fazer justiça, às circunstâncias nas quais foi criada e à sua escassez de recursos humanos e materiais. Com o tempo, meu pessimismo se acentuou devido à opção da Comissão pelo trabalho em sigilo e ao surgimento de divergências internas.  Penso que, mantida essa situação, as consequências serão funestas, piores do  que se não tivesse havido Comissão Nacional da Verdade. O único aspecto positivo que vejo em todo o processo foi o surgimento de comissões da verdade em outros âmbitos – municipais, estaduais e dentro de autarquias.

Aos 21 anos de idade, você foi morar num kibutz, em Israel. Ficou lá dois anos. Quais são suas recordações daquela época? Como era o país naquele final da década de 1950?

Nosso grupo chegou a Israel num dos momentos de baixo moral interno, início da década de 1960. Salvo engano, havia mais gente saindo (ieridá) do que entrando. Havia ainda alguma escassez de alimentos. O kibutz não entrara ainda na sua etapa de crise econômica e de valores, como ocorreria vinte anos depois, mas já não exercia o papel de vanguarda. A formação que havíamos recebido no movimento sionista-socialista, de nos proletarizarmos, de nos voltarmos ao trabalho da terra, estava totalmente superada, e fomos ridicularizados pelos jovens sabras aos quais nos juntamos no kibutz, por termos rejeitado os estudos universitários, eles que tanto queriam estudar em universidades e não tinham recursos. A crise no nosso grupo foi inevitável. A maioria abandonaria a utopia  kibutziana nos anos seguintes,  mas quase todos ficaram em Israel e lá estão até hoje, com filhos e netos. Contudo, do meu grupo de cerca de 25 jovens, três ainda vivem em regime quase-comunista de kibutz, e outros três em Bror Chail, que nominalmente ainda é kibutz, mas na prática está mais para condomínio residencial. Nos últimos anos, depois de uma crise braba, o movimento kibutziano parece estar se recuperando. Tenho também uma prima nascida no Brasil que vive no Kibutz Kineret, um dos que já completaram um século de existência, e uma cunhada e sobrinha que vivem no Kibutz Gaash, este substancialmente privatizado, ou seja, permitindo salários diferenciados e algum grau de propriedade privada.

Como avalia as perspectivas de paz no Oriente Médio, em particular entre israelenses e palestinos ?

Creio que algum dia haverá paz, porque nem Israel nem palestinos vão desaparecer do mapa. Em muitos sentidos, já avançou bastante, no cotidiano, um certo processo de reconhecimento mútuo e de retirada do conflito de um plano mítico para um plano mais realista de microconflitos, cada qual mais fácil de negociação. Contudo, o panorama atual é extremamente complexo. Só há clareza, creio, no cenário israelense, e não é uma clareza edificante. Ao contrário, é um cenário de consolidação de um bloco de direita no poder, que mantém seu projeto expansionista, valendo-se, aliás, da intransigência palestina. A esquerda israelense está mais fragilizada do que em qualquer outra época, e a nova juventude, mais escandalizada pelos desmandos do neoliberalismo do que pelas políticas discriminatórias ou restritivas aos palestinos ou cidadãos árabes de Israel, que constituem quase 20% da população.   A maioria silenciosa cansou-se da questão palestina e deu ao establishment político e militar uma espécie de carta branca para agir como bem entender ( inclusive fazendo muita besteira), desde que defenda o país da agressão.  Do lado árabe, a confusão é total, nunca foi tão grande. Já há uma guerra aberta entre duas grandes formações na região, a fundamentalista liderada pelo Irã e Hezbolá, e a kemalista, representada pelos militares egípcios e  Assad. Mas a confusão é tanta que a Turquia, pátria do kemalismo, luta pela derrubada de Assad e defende Morsi, o presidente egípcio deposto, que era sustentado pela Irmandade Muçulmana, fundamentalista. O panorama se torna ainda mais confuso porque em toda parte eclodem conflitos étnicos cruéis. Tudo isso pode levar a uma repentina necessidade de uma acordo de paz entre Israel e palestinos (o que os americanos tentam desesperadamente) ou, ao contrário, relegar a solução a um futuro menos incerto do lado árabe e ainda muito distante.

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

 

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