Altos ideais, ações mesquinhas

Richard Wagner

Richard Wagner

A mitologia, a psicologia e o senso comum frequentemente associam o gênio – alguém cujo talento ou habilidade excedem de muito os dotes normais – a alguma distorção de personalidade, até à loucura.  Wagner não é exceção. Era um gênio. Seu domínio da orquestração, sua inspiração para compor temas e construir harmonias musicais, a capacidade de escrever texto e música de suas óperas, a inquietação constante de sua vida intelectual classificam-no nessa categoria. E sua história de vida contrapõe à genialidade uma personalidade discrepante dos padrões considerados corretos ou normais.

Muitos autores de obras amplas dedicam trechos a comentar sua personalidade. Cesare Lombroso sustentava que o gênio era uma espécie de “psicose degenerativa e epilética” e considerava Wagner um “psicopata sexual”. Max Nordau diagnosticou, dos escritos de Wagner, que ele padecia de “mania de perseguição, megalomania e misticismo”. São juízos radicais e antigos; procura-se neste artigo algo menos ambicioso e mais moderno. O objetivo deste texto é traçar um perfil coerente de uma personalidade, tão intensa quanto controversa, tentando, ao final, entender as origens, extensão e consequências de sua proclamada “repulsa” ao povo judeu.

Wagner é filho de um funcionário público de nível subalterno que morre poucos meses depois de seu nascimento. Logo, sua mãe se casa novamente. Textos extraídos da correspondência de Wagner revelam que ele supunha que o padrasto fosse seu verdadeiro pai e que fosse judeu.  Na adolescência, Wagner começa a estudar música e aos 20 anos já compõe sua primeira ópera – As fadas (Die Feen). No enredo desta obra já estão presentes os elementos básicos de todas as demais composições e de sua própria vida pessoal.  Por amor do príncipe Arindal, Ada está disposta a renunciar à imortalidade que sua condição de fada lhe confere. A rainha das fadas impõe uma condição para permitir que Ada se torne humana e despose Arindal: que Arindal demonstre que seu amor é forte e fiel o bastante para sobreviver, após ser submetido a duras provas. Arindal não corresponde à expectativa: depois de ver Ada jogar ao fogo os dois filhos do casal e receber a notícia de que seu exército foi derrotado, amaldiçoa furioso a amante. Ada lhe explica então que as desgraças eram ilusões; os filhos estão vivos e a batalha está ganha. Tarde demais. A punição aplicada pela rainha das fadas a Ada é cruel: ela é transformada em uma estátua de pedra. Arindal, desesperado, enlouquece. Em suas visões, o herói ouve a amada, que lhe pede socorro. Um mago o incentiva a tentar salvar Ada e lhe dá de presente um escudo, uma espada e uma lira. As preces de Arindal são atendidas e seu canto derrete a pedra que aprisiona Ada. Os apaixonados caem nos braços um do outro. Vencidas as provas, Arindal e Ada unem-se felizes, não apenas por toda a vida, mas pela eternidade.

Rei Luiz 2° da Baviera

Rei Luiz 2° da Baviera

Deslealdade

Em Arindal, Wagner projeta sua percepção da própria personalidade: um príncipe, enlouquecido pela decepção, cheio de grandes e puras aspirações. Como o príncipe, Wagner busca a imortalidade e um ideal de amor perfeito; como o príncipe, armado de escudo, espada e lira, protege-se de homens e espíritos que o perseguem.

Em Ada, por sua vez, pode-se perceber o dúbio papel que Wagner atribui às mulheres.  Não basta à fada, irreal e imortal, ser amante do príncipe, humano e finito, e gerar-lhe filhos. Ela quer igualar-se a ele, com sacrifício de sua própria condição essencial. Ao mesmo tempo, põe à prova seu amor, enganando-o com notícias falsas. Na biografia do compositor vê-se que, sempre, o elemento feminino sacrificou-se por ele. Sua primeira esposa, Wilhelminna, ou Minna, era atriz de um certo destaque no teatro onde Wagner conseguiu o primeiro emprego. Ajudou-o a progredir, acompanhou-o em todos os momentos difíceis. Quando, finalmente Wagner consegue um bom emprego, em Dresden, e Minna está contente, ele participa de uma revolução e é forçado a deixar a Alemanha, asilando-se na Suíça. Na Suíça, torna-se amante de Mathilda Wesendok, esposa do amigo e protetor que abrigou Wagner em sua casa e ajudou a sustentá-lo.  Depois de Mathilda, Wagner encontra proteção, mas em um amor de nítida conotação homossexual. O rei da Baviera, Luiz 2°, muito jovem, apaixona-se por Wagner, a quem sustenta e homenageia. Amparado por Luiz 2°, Wagner se liberta de suas preocupações financeiras. Graças a ele, é construído o teatro sonhado pelo compositor, onde até hoje só são apresentadas óperas de Wagner. A última relação amorosa é com Cosima, filha de Franz Lizt, casada com o maestro e compositor Hans von Bülow, amigo de Wagner. Ainda casada, Cosima torna-se amante de Wagner, com quem gera três filhos.

Uma outra faceta do enredo de Die Feen merece destaque: Arindal, quando tem seu amor questionado, não tem força suficiente para vencer a prova que Ada lhe  propõe. Não resiste à dor das falsas más notícias, e a paixão se torna ódio. Neste episódio, entrevê-se outro traço extremamente relevante da personalidade de Wagner: a irresponsabilidade pelos próprios erros. Arindal ama Ada intensamente, mas um fator externo faz desaparecer esse amor.  Fenômeno análogo acontece com Tristão, que, ao beber uma poção mágica, vê irromper instantaneamente uma paixão adúltera por Isolda que acaba levando ambos à morte. É também por força de uma poção que Siegfried, o herói de O Anel dos Nibelungos, esquece seu amor por Brunhilda e vai buscá-la em seu refúgio para dá-la em casamento a Gunther e, em troca, poder ele mesmo casar-se com Gutrune, irmã deste. Arindal, Tristão, Siegfried e o próprio Wagner podem atribuir a fatores mágicos e forças irresistíveis sua falta de dedicação e lealdade às mulheres que a eles se entregam. Analogias do mesmo tipo poderiam ser construídas em todas as outras óperas de Wagner e podem ser encontradas em textos de artigos e comentários por ele mesmo escritos.

Os judeus

Resta examinar como e por que essa personalidade tumultuada desenvolveu a “aversão pela natureza e personalidade dos judeus” confessada em um artigo, publicado anonimamente em 1850. Vale notar que é o próprio Wagner quem diz que esse sentimento é “involuntário” e, em um artigo posterior, assinado, diz que não deve ser confundido com “a noção medieval do sentimento antijudeu, um sentimento que envergonha nossos tempos mais esclarecidos”. Na verdade, Wagner não tinha ódio ao povo judaico. Ao longo da vida, teve muitos amigos judeus. Aparentemente, parece ter absorvido o preconceito antigo que associa os judeus à usura. Um judeu, Meyerbeer, que Wagner considerava um músico inferior, fazia sucesso e fortuna em Paris, onde ele, Wagner, fracassou. Lembre-se ainda que Wagner supunha que sua mãe o tivesse gerado em uma relação adúltera com um judeu.  Combinando esses elementos com a aspiração por um estado ideal e puro, como o amor a que o compositor aspirava, pode-se perfeitamente entender um parágrafo crítico do artigo:

“… quando o dinheiro, de forma cada vez menos disfarçada, foi elevado à posição de título de nobreza, os judeus – para quem fazer dinheiro sem trabalhar, isto é, a usura, permanece como sua única atividade – não apenas não podem ter mais negado o diploma de uma nova sociedade que não quer nada além de ouro, como trouxeram-no consigo em seus bolsos.”

Lamentável que essa posição, irrelevante no conjunto da vida e obra de Wagner, fosse depois expandida e explorada em associação às hediondas posições da Alemanha nazista.

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

É sócio aposentado de Trench, Rossi & Watanabe, advogados, professor da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas e sócio da Pro-Acordo, Mediação de Conflitos Empresariais.

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