A ameaça epicurista

Epicuro

Epicuro

Pois então, foi o professor Henrique Iusim z’l quem, um dia, começou a explicar para a garotada do Hebreu Brasileiro a ameaça dos apicoires ao judaísmo. Confesso que, na ocasião, não entendi muito bem do que se tratava, nem fiquei impressionado.

Alguns anos depois, estudando filosofia, tropecei de novo em Epicuro. E dessa vez, gostei das ideias do grego e não entendi bem por que os nossos judeus bíblicos consideraram essa filosofia como uma ameaça para o judaísmo.

Conferi com o próprio Iusim, na década de 1960, quando fizemos um acordo comercial, a Biblos dele e a minha pequena editora, para difusão e venda da Biblioteca de Cultura Judaica.

Naqueles dias, além do papo comercial, sobrava tempo para longas conversas sobre a História Judaica. Mas ainda assim, eu continuava, até bem pouco tempo atrás, sem entender os receios dos sacerdotes do Templo.

Os pequenos prazeres

Para Epicuro – até onde eu compreendi suas ideias – , não há nenhum grande sentido para a vida: não há nada do outro lado. A fama e a fortuna só existem em algumas sociedades, sendo desconhecidas em outras. O que dá sentido à vida são os pequenos prazeres. Matar a fome, até mesmo com um pãozinho francês. Dar uma caminhada, como recomenda o meu cardiologista, doutor Victor Schubsky. Curtir um pôr-do-sol, como gosta minha amiga Cláudia Ortiz. Brincar com uma criança, com um cachorro ou um gato, como sugere meu filho Igor, bebericar com os amigos, sugestão do Jaime Sender, ler um bom livro, como quer Silvia, minha mulher.

Epicuro dizia que devemos valorizar os pequenos prazeres que nos são acessíveis. O sexo, por exemplo, se ele nos é acessível, ótimo, vamos aproveitá-lo. O filósofo dava uma importância particularmente forte à convivência com os amigos. O mais importante, para o epicurismo, é descartarmos a ditadura do deveria: eu deveria ter mais dinheiro, eu deveria ter um carro novo… Quanto à morte, não pode atingir-nos, dizia Epicuro. Se nós existimos, ela não existe, e o que não existe não nos pode atingir. Se a morte passa a existir, agora somos nós que não existimos mais. Se não existimos, nada pode nos atingir. Curtamos os pequenos prazeres, proclamava Epicuro, sem temer a morte nem os deuses, que são apenas nossas criações mentais, sendo, portanto, inofensivos. 

Epicuro não faz uma defesa do carpe diem ou da libertinagem irresponsável. O prazer não é nunca trivial ou vulgar. Numa carta a seu amigo e também filósofo Meneceu, Epicuro afirma que nem todo  prazer é digno de ser desejado, da mesma forma que nem toda dor deve ser evitada incondicionalmente.

É isso aí. Se imaginarmos que o Iusim deu essa aula aos meninos do Hebreu Brasileiro, em 1950, eu poderia informar que, finalmente, entendi o que ele, professor Iusim, queria dizer a respeito de Epicuro. E dos temores sacerdotais  aos apicoires…

Boletim nº 144 – setembro/outubro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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