Tempestade ou marola ?

Slide1As manifestações populares que se espalham pelo Brasil surpreenderam a todos. A reivindicação de redução das tarifas dos transportes públicos em São Paulo foi apenas a faísca que incendiou um mar de frustrações e críticas, numa catarse que pôs a nu o divórcio entre os discursos oficiais e o cotidiano da população.

As massas que estão indo para as ruas, sem lideranças formais e com uma pauta extensa de demandas, são uma boa notícia no país do futebol. Sem cair no triunfalismo da propaganda governamental, questionam a Copa do Mundo, o superfaturamento na construção de estádios e os duvidosos benefícios que ela traria para a população. Exigem prioridade para as áreas da educação, da saúde e da mobilidade urbana, todas de péssima qualidade.

Serão os últimos acontecimentos um sinal de que as novas gerações despertaram para a política ? Não se sabe. Se, por um lado, a retomada das ruas aponta para a quebra do imobilismo, por outro, a falta de articulação com segmentos organizados da sociedade, a inexistência de uma estratégia clara de ação e a hostilidade aos militantes dos partidos políticos e dos movimentos sociais mostram uma perigosa imaturidade, que pode esvaziar as manifestações e acumular apenas mais raiva e decepção.

Queimar bandeiras de partidos políticos e agredir seus militantes é próprio do fascismo. Isso e os atos de vandalismo cometidos por bandidos infiltrados e provocadores de extrema-direita devem ser condenados sem vacilação. No entanto, é preciso admitir que o desencanto, especialmente dos jovens, com os partidos políticos, resulta de práticas partidárias condenáveis, como alianças oportunistas entre rivais ideológicos, corrupção, nepotismo, privilégios de todos os tipos. No imaginário popular, a atividade político-partidária virou, tristemente, sinônimo de criminalidade.

Há, e não só no Brasil, uma crise na chamada democracia representativa. Os espaços políticos tradicionais deixaram de mediar satisfatoriamente os conflitos sociais. Ainda não surgiram alternativas, o que gera insegurança e instabilidade. Para que a voz das ruas seja respeitada, não bastarão promessas nem intermináveis grupos de trabalho. É urgente que se construa uma articulação dos setores progressistas organizados, que jamais deixaram de protestar e denunciar, com os que clamam agora por mudanças. Se isso acontecer, haverá um importante salto de qualidade e uma revitalização da política. Caso contrário, a tendência é de um esvaziamento gradual desta muito bem-vinda explosão popular.

Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

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