O rei e o rock rumam ao infinito (2)

Blind Lemon Jefferson

Blind Lemon Jefferson

Nas últimas duas décadas do século 19,  a política e a sociologia estavam forjando nos Estados Unidos alguma coisa distante de ambos: a música que iria sacudir o mundo.  Essencialmente, o que ocorreu foi –   após o fim da guerra de secessão  –   o fim do regime da escravidão negra, lá chamado de emancipação.  Assim se criaram duas legiões de negros: uma delas empregada nas fazendas de algodão e tabaco com salários miseráveis e outra de desempregados despejados nas estradas do sul, ora com empregos esporádicos, ora fugindo de linchamentos ou da polícia.  Entre estas duas ocupações acabaram surgindo talentos variados visando a sobrevivência:  vendedores ambulantes de remédios falsos, funâmbulos circenses, vaqueiros sem experiência, faxineiros nas barcas do Mississipi,  assaltantes e… artistas.

Os primeiros anos do século 20 viram surgir – nos estados do sul, especialmente do delta do Mississipi – grupos mambembes de teatro de variedades (batizados de minstrels). Nessas superproduções a música ficava por conta de dois instrumentos: a guitarra e o trompete (então chamado cornet), os quais viriam a se tornar parte vital do futuro jazz. A corneta não foi escolhida pelos negros músicos intuitivos por causa do som, tamanho nem facilidade de tocar de ouvido: simplesmente era o instrumento abandonado pelas bandas militares da recente guerra e achado nas beiras de estrada. A guitarra, como o piano, fazia parte da educação de mocinhas nas famílias dos fazendeiros.  Por razões óbvias, os negros fujões com jeito para música preferiam surripiar as guitarras, não os pianos – e caíam na estrada.

Rolling Stones, anos 1960

Rolling Stones, anos 1960

Rolling Stones

A grande vantagem da guitarra sobre a corneta é ser ela um instrumento harmônico – toca várias notas ao mesmo tempo formando os chamados acordes –, o que  dá suficiente sustentação à voz humana que canta.  Mesmo sem lerem uma nota de música sequer, esses recém-adolescentes guardavam no ouvido as polcas tocadas nas fazendas pelos brancos. As polcas, valsas e outras danças europeias variavam alguma coisa nas melodias, mas o acompanhamento , invariavelmente,  usava três acordes (justamente o tripé do sistema tonal).  O primeiro negro que se pilhou com uma guitarra na mão experimentou dois dedos aqui, outros três  ali, escorregou um pouco a mão esquerda acima e abaixo… não demorou e estava reproduzindo os tais três    acordes  que  acompanhavam canções  e polcas em francês, canzonetas em italiano e até  schotish em inglês.  Nos salões da casa-grande também se declamava poesia, quase sempre sonetos, mais especialmente um estilo trazido pelos escoceses: cada estrofe formada por três versos, sendo o segundo igual ao primeiro.  Até isso os escravos lá na senzala aprenderam.  Pois foram essas estrofes – obviamente não cantadas em francês, mas sim numa espécie de dialeto  dos negros sulistas – ,  acompanhadas pelos tais três acordes,  que terminaram por  se consagrar num gênero repetido por todos os cantores de estrada (cujas letras não mais falavam de amor, mas de fome, doença, desabrigo e tiroteios).  Perambulando pelas estradas, os cantores, guitarra ao ombro, popularizaram essa música a ponto de  torná-la o material forjador do futuro jazz.  Este gênero ficou conhecido como the blues.

Quem eram os cantores (e compositores) de blues? Obviamente negros tão ou mais pobres que seu público. Passavam o chapéu após o show, onde  pingavam moedas ou até garrafas.  Os apelidos que nos são acessíveis eram a marca da marginalidade, da violência do racismo branco, das frequentes passagens por cadeias (Blind Lemmon Jefferson, No Legs  Sam, T-Bone Hooker); quase todos tiveram vida curta, prodigalizada pelo álcool e  pelos corpos congelados nas sarjetas, quando não pela polícia  quando os surpreendia viajando clandestinos nos trens de carga. Alguns chegaram a interessar gravadoras, que, mesmo pagando-lhes moedas, garrafas e mulheres,  registraram  parte da história  da música popular americana dos primeiros anos do século 20.  Um deles – Robert Johnson –, cujas letras eram algo mais sofisticadas, teve  obras  sobrevivendo  a ponto de alcançarem  gravações feitas até 40 anos depois de morto, e por gente como os Rolling Stones e Bob Dylan – e aqui, finalmente, chegamos  a uma modesta constatação. O que teriam a ver os Rolling Stones dos anos 1960 com o Robert Johnson dos anos 1920? Tudo.

Longevidade

O rock and roll nada mais é do que os velhos três acordes do blues, apenas tocados em velocidade duas ou três vezes maior, pois o rock é uma dança e, como tal, dá verdadeira importância ao ritmo, relegando  música e letra a meros acessórios. Além disso, justamente por causa da limitação harmônica aos três acordes, a melodia possível de ser criada é consequentemente pobre de variedade. Um dos primeiros – se não o primeiro – grandes sucessos do roquenrou, Rock around the clock, já permite, a um ouvido atento, ser superposto a qualquer blues gravado por algum daqueles negros em 1923; as escassas variações da melodia não esconderão a realidade: é a mesma música. Porém, há uma perplexidade que acompanha, inevitavelmente, esta evidência: a longevidade. Já lá se vão uns 80 anos e os grupos (bandas) de idosos ressurgem; os novos grupos brotam em qualquer garagem (explica-se pela facilidade  de aprender a técnica dos instrumentos e a pouca exigência de variedade nas guitarras, baixos elétricos e baterias).  Os supostos novos “ritmos” apenas acrescentaram apelidos sem conteúdo definido: o que é , afinal, pop ? As infinitas invenções da nomenclatura continuam se renovando (o que será  anarco-funk ?), amparadas por espaços crescentes  que a mídia lhes concede, disputando, esporadicamente, com o brega universitário (?).

A analogia das duas longevidades – a do rei da “jovem guarda” e todos esses roques – é, por sua vez, incontornável. No entanto é preciso manter distância de opiniões muito severas, de manifestos descontentamentos com os ícones dessa música (cuja popularidade desconhece fronteiras etárias, sociais ou geográficas). Não se trata aqui de gostar-não gostar, mas de explicar e, ao explicar, granjear a antipatia de familiares, amigos, vizinhos… Melhor dizer ao eventual leitor que  são só especulações, tudo bem, felizmente é a democracia e tal: amanhã de manhã vou pedir um café pra nós dois.

Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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