O dia em que Ben Hecht esbarrou na História

Ben Hecht

Ben Hecht

Aí por volta de 1941, Ben Hecht, jornalista, dramaturgo e roteirista de Hollywood, era, como ele descreveu mais tarde, “um escritor honesto que estava andando pela rua um dia quando esbarrou na História”. A partir daí, abraçou a causa judia com paixão, manifestando suas posições nas páginas do The New York Times e nos salões do poder em Washington e Londres.
Filho de imigrantes russos, Hecht foi criado em Chicago e, depois, em Racine, uma pequena cidade do Wisconsin, numa típica família judaica daqueles anos, pais, irmãos, cunhados, tios e agregados, todos pessoas muito intensas.

Hecht gostava de lembrar como, aos seis anos, acompanhou sua tia Chasha ao teatro e um policial, acusando injustamente um dos atores de roubo, arrancou gritos de protesto do menino. Quando o gerente do teatro exigiu um pedido de desculpas para o comportamento da criança, Chasha não teve dúvidas, golpeou-o com seu guarda-chuva. “Lembre-se do que eu lhe digo. Esse é o jeito de pedir desculpas.”

Hecht nunca esqueceu o conselho de Chasha.

The Front Page,Jack Lemmon e Walter Mathau, 1974

The Front Page,Jack Lemmon e Walter Mathau, 1974

Jornalismo

Ao regressar a Chicago, com 16 anos, ele conseguiu um emprego como repórter-juvenil do jornal Chicago Daily. Em 1920, ganhou sua própria coluna diária, “Mil e Uma Tardes”. E a partir dessa coluna, Ben Hecht enveredou pelo mundo da ficção literária.

Até hoje tem gente discutindo as relações entre jornalismo e literatura. No caso de Hecht, essa discussão mostra que ele se saiu muito bem da questão. Em 1922, escreveu e publicou o romance Fantazius Malzare, censurado como obsceno, mas teve o apoio do advogado Clarence Darrow e do escritor H. L. Mencken como testemunha de defesa. A publicidade foi uma bênção para sua carreira.

O primeiro sucesso de Hecht no teatro foi The Front Page (A primeira página), de 1928, sobre a corrupção política e jornalística, que lhe valeu o Prêmio Pulitzer. A peça virou filme, na verdade, quatro versões diferentes, em 1931, 1940, 1974 e 1988. A melhor, na minha opinião, dirigida por Billy Wilder.

Frequentemente, as duas últimas versões aparecem nos canais de TV a cabo.

Salvando roteiros

Na década de 1930, Ben Hecht foi para Hollywood, onde  escreveu roteiros para uma série de filmes de sucesso, incluindo Underworld (1927), pelo qual foi premiado na primeira cerimônia do Oscar. Hecht ficou instantaneamente reconhecido como o melhor roteirista de Hollywood, capaz de “salvar” os piores textos da telinha. Por exemplo, ele reescreveu grandes partes do roteiro de E o vento levou sem jamais ter lido o romance original. Seus créditos no cinema incluem também os clássicos O Morro dos Ventos Uivantes (1939), Spellbound (1945), e Interlúdio (1946), de Alfred Hitchcock.

Hecht escreveu pelo menos 25 livros, 20 peças, 65 roteiros de cinema e centenas de contos e artigos de revista. Para a crítica de cinema Judith Crist, ele foi o mais produtivo autor multimídia do século 20.

Mas nenhuma das criações de Hecht causou mais sensação do que as que ele escreveu sobre temas judaicos. Quando jovem, ele não  mostrara muito interesse pela vida comunitária judaica ou pelas nossas tradições, e seu primeiro casamento  (1915) foi com uma não judia. A primeira incursão em assuntos judaicos veio na forma do best-seller de 1931, Um judeu no amor, fortemente criticado pela comunidade. Rose, a segunda esposa de Hecht, comentou que, como resultado do livro, alguns rabinos de Cleveland ameaçaram  proibir o enterro do escritor e de sua família no cemitério ídish de Cleveland…

Nazismo

Vieram a  ascensão do nazismo e a perseguição aos judeus alemães. “Eu me transformei em um judeu em 1939”, escreveu na autobiografia, Um filho do século. “Passei a olhar o mundo com olhos judaicos. O assassinato em massa dos judeus da Alemanha trouxe meu judaísmo à tona.”

Ben Hecht passou a integrar a Comissão que defendia uma ação militar preventiva dos EUA para derrubar Hitler, criou o movimento Fun to Be Free e passou a escrever sobre Hitler e os judeus na sua coluna do The New York Daily.

Hillel Kook

Hillel Kook

A Brigada Judaica

Nessa sua coluna, em 1941, Hecht se fixou nos judeus americanos assimilados “que tentaram esconder a sua identidade judaica”. O artigo chamou a atenção de Hillel Kook, um sheliach ligado aos revisionistas que  chegara aos Estados Unidos no ano anterior para angariar fundos e apoio político para refugiados europeus e para a causa da criação de um Estado judeu. Hillel Kook,  nome de guerra de Peter Bergson,  pediu um encontro com Ben Hecht. Foi assim que Hecht “esbarrou na História”. Bergson e seus colegas revisionistas impressionaram vivamente o americano com sua descrição do Comitê de um Exército Judeu da Palestina e dos Judeus Apátridas.

Por trás desse nome longo e desajeitado havia uma ideia que capturou a imaginação de Hecht: os Aliados deveriam organizar uma força armada, composta por residentes judeus da Palestina e  refugiados judeus da Europa, que tomaria parte na guerra contra a Alemanha. Para Hecht, a ideia relembrava a imagem do judeu-guerreiro da época do rei Davi e quebrava o estereótipo da então moderna fraqueza judaica.

Hecht pôs todo o seu talento como dramaturgo na campanha do exército judeu. Ele produziu  anúncios de página inteira com manchetes como “Judeus na luta pelo direito à luta”, que Bergson colocou no The New York Times e outros jornais importantes. Era uma estratégia incomum para os anos 1940, época em que as organizações judaicas, temendo a reação do público, raramente alardeavam suas reivindicações políticas nos  diários do país.

Hecht também usou suas conexões em Hollywood e na Broadway para ganhar o aval de artistas renomados para a causa do exército judeu. Os defensores do comitê incluíam o produtor David O. Selznick, o diretor Ernst Lubitsch, atores como Burgess Meredith e Melvyn Douglas, o artista plástico Arthur Szyk, o cantor Eddie Cantor e o compositor Kurt Weill, entre outros. A combinação de anúncios de jornal de alta visibilidade e o apoio de celebridades catapultou a questão do exército judeu à proeminência pública em 1941-1942. Persuadido pelo  grupo de pressão da opinião pública de Bergson e pelos esforços de bastidores, o governo britânico acabou por estabelecer a Brigada Judaica, que lutou com distinção contra os alemães.

Após a guerra, seus veteranos ajudaram a contrabandear sobreviventes do Holocausto para a Palestina e desempenharam um papel importante na defesa do recém-criado Estado de Israel contra os exércitos árabes em 1948.

Quando a notícia do genocídio nazista foi confirmada nos Estados Unidos, no final de 1942, o grupo de Bergson mudou seu foco visando sensibilizar governo e público para o socorro aos refugiados. O Comitê de um Exército Judeu se transformou no Comitê de Emergência para salvar os sobreviventes da Europa. A agenda mudou, as táticas permaneceram as mesmas. Hecht comandou a produção de anúncios de página inteira revelando a situação dos judeus da Europa, numa época em que os jornalistas preferiam ignorar essa notícia. Algumas das manchetes e chamadas criadas por Ben Hecht: “Como você pode dormir se existe algo que poderia ter feito para salvar milhões de pessoas inocentes  – homens, mulheres e crianças – da tortura e da morte?” e “Tempo de corridas da morte: o que estamos esperando?”.

Esses anúncios e as demandas do grupo de Bergson logo foram sendo discutidos nas páginas de opinião e nos corredores do Congresso.

“Nossa missão nos Estados Unidos não teria   alcance nem intensidade sem a talentosa pena de Hecht”, escreveu mais tarde Yitshak Ben-Ami, um dos companheiros do grupo de Bergson. “Ele tinha um coração compassivo, coberto por um pavio curto, uma franqueza brutal e uma língua ácida.”

Os anúncios também foram observados, evidentemente com irritação considerável, na Casa Branca. O anúncio “Meu tio Abraão informa” descrevia o fantasma do “tio Abraão”,  vítima dos nazistas, sentado no parapeito de uma janela a dois metros de distância de Roosevelt, na Casa Branca, esperando em vão que o presidente desse alguns passos para ajudar a salvar judeus remanescentes da Europa. “Os alemães vão pensar que quando matam judeus, Stalin, Roosevelt e Churchill fingem que nada está acontecendo”, afirmava o anúncio. Eu devia ter uns dez anos de idade quando via esses anúncios na edição brasileira da Seleções do Reader’s Digest e lia os textos extraordinários de Ben Hecht.

Batendo firme

Um dia, o financista Bernard Baruch, conselheiro do presidente, queixou-se de que Roosevelt, muito triste com os anúncios, queria uma moratória sobre tais ataques. Eleanor Roosevelt, citada por Bergson, dissera que o presidente considerava o anúncio um golpe baixo. Bergson respondeu a Eleanor que estava muito feliz por saber que os anúncios “afetavam” FDR .

Um dos anúncios mais violentos de Hecht quase não foi publicado. Após a leitura, no início de 1943, da propaganda nazista em que Goebbels prometia terminar a tarefa de assassinar todos os judeus europeus até o Natal, Hecht escreveu um texto com o título “Balada da destruição dos judeus da Europa”. Em resumo, dizia que “não vai ser um Natal muito feliz este ano, porque em dezembro não haverá nenhum judeu para ser cuspido pelo mundo cristão”. Violento, não?

A balada começava com os seguintes versos: “Quatro milhões de judeus esperando a morte / Oh, cair e queimar, mas – calma, / Não se incomode com os judeus; poupe seu fôlego / O mundo está ocupado com outras notícias.”

Tais críticas da opinião pública judaica à administração Roosevelt eram bastante incomuns, dado o alto nível de apoio judaico ao New Deal. Mesmo os judeus que estavam incomodados pela recusa de Roosevelt em ajudar o judaísmo europeu  relutavam em falar, temendo que qualquer divergência pública com o presidente pudesse alimentar o antissemitismo. Mas Bergson e Hecht acreditavam que a situação desesperadora dos judeus da Europa exigia que eles falassem. Que colocassem o dedo na ferida.

A última estrofe da balada era a mais chocante: “Oh, mundo, tenha paciência – vai demorar mais algum tempo / para a Sua Paz na Terra sem os Judeus.”

O anúncio deveria ser publicado no início de 1943, mas foi adiado por pressões do American Jewish Committee, que era contra a linguagem franca de Ben Hecht. Bergson foi advertido pelo presidente do AJC, Joseph Proskauer, para quem “tal atitude anticristã pode muito bem levar a pogroms nos EUA”.

De qualquer forma, a balada foi publicada no The New York Times em 14 de setembro de 1943. Claro, o anúncio não causou nenhum pogrom. Ao contrário, a “Balada da Destruição dos Judeus” desempenhou um papel crucial na campanha para a ação de resgate, chamando  atenção para o sofrimento dos judeus da Europa e estimulando o apoio público à intervenção dos EUA.

No final de 1942, Hecht concebeu um espetáculo dramático para aumentar a consciência pública sobre o Holocausto. Intitulou-o Nós nunca morreremos (We Will Never Die). No palco, os Dez Mandamentos, a contribuição judaica para a civilização ao longo da História, e o massacre dos judeus pelos nazistas, culminando em uma recitação do Kadish por um grupo de refugiados, rabinos idosos.

A Casa Branca não gostou nada da ideia. O produtor do espetáculo, Billy Rose, escreveu a um conselheiro sênior da Casa Branca, David Niles, solicitando uma mensagem do presidente a ser lida na noite de abertura. Os conselheiros de Franklin Delano Roosevelt pediram-lhe que se abstivesse de enviá-la, pois poderia levantar uma questão política. Eles temiam que We Will Never Die aumentasse a pressão para admitir refugiados judeus nos Estados Unidos e na Palestina controlada pelos britânicos. Roosevelt não enviou a mensagem.

O espetáculo estreou no Madison Square Garden, em março de 1943, com Edward G. Robinson e Paul Muni nos papéis principais. Depois de  dois shows para mais de 40 mil espectadores, foi encenado na Filadélfia, Boston, Chicago, Los Angeles e Washington. Assistiram a ele na capital Eleanor Roosevelt, seis juízes da Suprema Corte, numerosos membros do corpo diplomático internacional e cerca de 300 membros do Congresso. As performances receberam ampla cobertura da mídia e da primeira-dama. Quebrando o muro de silêncio em torno do Holocausto, foram a primeira etapa crucial no processo de mobilização de uma campanha americana contra o nazismo.

Finalmente, em outubro de 1943, uma resolução do Congresso americano pediu a criação de uma agência do governo dos EUA para socorrer os refugiados judeus. As atividades do Conselho incluíam o resgate de Raoul Wallenberg, que ajudou a salvar as vidas de mais de 200 mil pessoas durante os meses finais da guerra.

A flag is born, Teatro The Alvin, NY

A flag is born, Teatro The Alvin, NY

Apoiando o Irgun

E como a Segunda Guerra Mundial se aproximava do fim, o grupo de Bergson se reinventou novamente, desta vez como o Comitê Hebraico de Libertação Nacional e a Liga Americana por uma Palestina Livre, que pretendia despertar a simpatia do público americano para a imigração clandestina dos sobreviventes do Holocausto para a Palestina, e para as milícias judaicas subterrâneas que estavam lutando contra a administração britânica, particularmente o Irgun Tsvaí Leumí, liderado por Menachem Begin, futuro primeiro-ministro de Israel.

Mais uma vez, Hecht usou seu talento único para elevar a comissão de Bergson de uma pequena ação política para o centro do palco. Sua peça Nasce uma bandeira expõe a crueldade britânica na Palestina e defende a criação do Estado judeu. As conexões de Ben Hecht com Hollywood e a Broadway trouxeram  à Liga Americana por uma Palestina Livre o apoio de muitos artistas, entre eles os comediantes Harpo Marx e Carl Reiner, os  atores Vincent Price, Jimmy Durante, Charles Bickford, Sidney Blackmer, Sir Cedric Hardwicke e Canada Lee, o produtor David O. Selznick, Edward Buzzell, da MGM Studios, o cantor Frank Sinatra e o maestro Leonard Bernstein.

Anúncios de Hecht no pós-guerra foram particularmente ousados em seu apoio aberto à quebra das leis britânicas e ao uso da violência contra as autoridades militares britânicas na Palestina. Um anúncio com o título “Dê o dinheiro, nós vamos buscá-los lá!” pedia explicitamente  dinheiro para contrabandear judeus da Europa para a Palestina, desafiando os ingleses. Um desses anúncios ameaçava: “Haverá mais violência, a explosão de granadas e minas em Jerusalém esta semana é apenas um prelúdio do que vem pela frente”, a menos que os britânicos se retirassem imediatamente da Palestina.

Numa “Carta aos Terroristas da Palestina”, Hecht zomba da classificação britânica de combatentes judeus como “terroristas”. Hecht trata-os como heróis, comparando-os com George Washington e declarando que houve um apoio generalizado às milícias judaicas entre os judeus americanos.

O governo britânico emitiu um protesto formal à administração Truman contra o que chamou de “incitação de Ben Hecht ao assassinato de oficiais e soldados britânicos”. Londres também pressionou Washington para revogar a isenção de impostos do grupo de Bergson. As autoridades dos EUA informaram que seria impossível retirar a isenção “por meios legais” e que, em todo caso, tal ação poderia provocar os sionistas americanos a pressionar o Congresso contra a assistência econômica dos EUA à Inglaterra.

Mas Ben Hecht pagou caro por suas posições. A Associação dos Cinemas Britânicos, que representava mais de três mil donos de salas de exibição, declarou um boicote aos filmes escritos por ele. Mesmo os créditos dos filmes roteirizados por Hecht tiveram seu nome removido. Ainda assim ele ficou feliz com o boicote: “Foi a melhor notícia que eu  recebi, o reconhecimento do trabalho que eu vinha fazendo com todas as minhas forças. Um império bater em um único homem e aprovar sanções é algo que infla o meu ego,  fiquei impressionado.”

Mas o boicote doeu. “Minha exuberância diminuiu quando cheguei a Hollywood, alguns meses depois”, escreveu. De repente, Hecht concluiu que não havia trabalho para ele. Muitos produtores se afastaram, Hecht arriscava o mercado inglês. Alguns dos antigos empregadores até concordaram em contratá-lo, desde que renunciasse a ver o seu nome nos créditos e recebesse menos da metade do que ganhava antes.

Ele não teve escolha senão submeter-se a esse regime humilhante.

* Boa parte das informações foi colhida na autobiografia Um filho do século (Nova York: Simon & Schuster, 1954).

Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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