O burrinho do Messias

Soldadas retiram mulher da colônia de Yamit, abr. 1982, F. Ouzi Keren, Haaretz

Soldadas retiram mulher da colônia de Yamit, abr. 1982, F. Ouzi Keren, Haaretz

“A solução de dois estados está morta!”

Este mantra é tão repetido ultimamente, e por tantos comentaristas com autoridade, que virou uma moda intelectual. Parece ser verdadeiro, mas não é.

Ele me faz lembrar uma das frases mais citadas de Mark Twain: “A notícia da minha morte foi um exagero.”

Hoje, defender a solução dos dois estados, um israelense, outro, palestino,  significa que você é antiquado, fora de moda, cheira a mofo, é quase um fóssil.  Erguer a bandeira da “solução de um único Estado” quer dizer que você é jovem, olha para a frente, é maneiro.

Isso apenas prova  que as ideias se movem em círculos. Quando declaramos, logo no início de 1949, assim que terminou a primeira guerra contra os países árabes, que a única saída para a nova situação era o estabelecimento de um Estado palestino lado a lado com Israel, a “solução de um  Estado único”  já estava caduca.

A ideia de um “Estado binacional” andou em voga nos anos 1930.  Seus principais defensores eram intelectuais bem intencionados, muitos deles luminares da nova Universidade Hebraica, como Judah Leon Magnes e Martin Buber.  Recebiam apoio do movimento kibutziano  Hashomer Hatzair, o qual mais tarde virou o partido Mapam.

Mas, na verdade, jamais ganhou força.  Os árabes a consideravam uma artimanha dos judeus.  O binacionalismo se apoiava no princípio da paridade entre as duas populações na Palestina – metade judia, metade árabe.  Mas, como naquele tempo os judeus eram muito  menos do que 50% da população, havia razão nas suspeitas dos árabes.

Do lado dos judeus, a proposta soava ridícula.  A essência mesma do sionismo era  criar um Estado no qual os judeus fossem senhores de seu destino, preferencialmente em toda a Palestina.

Na época, não se chamava “solução de um Estado” porque já havia um Estado único – o Estado da Palestina, regido pelo Mandato britânico. A “solução” foi chamada de  “Estado binacional” e morreu, sem choro nem vela,  na guerra de 1948.

Então, o que causou a milagrosa ressurreição desta ideia?

Critério

Não foi o aparecimento de nenhum novo amor entre os dois povos.  Isso seria maravilhoso e até mesmo  um milagre. Se israelenses e palestinos houvessem descoberto os seus valores comuns, as raízes comuns de suas histórias e línguas, o seu amor comum por este país, claro que seria absolutamente esplêndido!

No entanto, infelizmente, a renovada “solução de um  Estado único” não nasceu de uma concepção imaculada. Seu pai é a ocupação, sua mãe, o desespero.

A ocupação já criou um Estado único de fato – um Estado perverso de opressão e brutalidade, no qual metade da população, ou um pouco menos,  priva a outra metade de quase todos os seus direitos –  humanos, econômicos e políticos.  Proliferam os assentamentos judaicos, e a cada dia sobrevêm novas narrativas de desgraças.

Gente boa  de ambos os lados perdeu a esperança.  Mas a desesperança não conduz à ação.  Ao invés, estimula a resignação.

Voltemos ao ponto de partida: “A solução de dois estados está morta!”  Como pode? Quem disse? E qual critério científico serviu para atestar o óbito?

De um modo geral,  a expansão dos assentamentos  é apontada como o sinal da  morte.   Nos anos 1980, o respeitado historiador israelense Meron Benvenisti declarou que a situação havia se tornado “irreversível”.  Na época, não chegavam a 100 mil os colonos nos territórios ocupados (tirando Jerusalém Oriental, que é comumente considerada uma questão à parte).  Agora, dizem que são 300 mil, mas quem os está contando?  Quantos colonos marcam a irreversibilidade? Cem, trezentos, quinhentos, oitocentos mil?

A história do mundo é um poço de reversibilidades. Impérios crescem e decaem.  Culturas se desenvolvem e fenecem.  O mesmo se dá com os modelos econômicos e sociais.  Somente a morte é irreversível.

Podemos imaginar uma dezena de fórmulas diferentes para resolver o problema dos assentamentos, desde a remoção forçada à troca de territórios e à cidadania palestina.  Quem poderia imaginar que os assentamentos no norte do Sinai seriam removidos com facilidade?  Ou que o mesmo acabaria por se dar com os da Faixa de Gaza?

Ao final, haverá provavelmente uma mistura de fórmulas, de acordo com as circunstâncias.   Todas as questões hercúleas do conflito podem ser resolvidas.  O problema verdadeiro é a vontade política.

África do Sul

Os defensores da fórmula de um único Estado gostam de se basear na experiência sul-africana.  Para eles, Israel é um Estado do apartheid, tal qual a antiga África do Sul.  Daí, buscam uma solução assemelhada.

A situação nos territórios ocupados e, em parte, em Israel mesmo, de fato guarda uma forte semelhança com o regime do apartheid.  Dá para citar o exemplo do apartheid no debate político, mas, na realidade, entre os dois países as diferenças são muito grandes.

David Ben-Gurion deu, certa vez, aos líderes sul-africanos um conselho: recorram à partilha.  Concentrem a população branca no sul, na região do Cabo, e cedam aos negros o resto do país.  Ambas as partes  rejeitaram furiosamente a ideia, porque acreditavam – ambas – em um país único e unido.  De um modo geral, falavam  as mesmas línguas, seguiam a mesma religião, estavam integrados na mesma economia.  A briga se devia à relação senhor-escravo, com uma pequena minoria dominando uma maciça maioria.

Nada comparável ao que ocorre em nosso país.  Aqui temos duas nações diferentes, duas populações de tamanhos praticamente iguais, duas línguas, duas religiões (ou melhor, três), duas culturas, duas economias totalmente diversas.

Uma proposição falsa leva a falsas conclusões.  Uma é que Israel, à semelhança da África do Sul do apartheid, pode ser posto de joelhos por um boicote internacional.  Mesmo no caso da África do Sul, isso é uma arrogante ilusão imperialista.  Não foi o  boicote, apesar de moral e importante, que fez o serviço.  Foram os próprios africanos, com o apoio de alguns idealistas brancos locais, que mudaram o regime com seus corajosos levantes e greves. Sou um otimista e espero que, no fim do túnel, israelenses judeus e árabes palestinos constituam nações irmãs, uma ao lado da outra, vivendo em harmonia.  Mas, para tanto, deverá haver um período de vida pacífica em dois estados vizinhos, com a expectativa de fronteiras abertas.

A única solução

As pessoas que hoje falam da “solução de um Estado único” são idealistas. Mas causam um grande dano. E não apenas porque elas afastam a si e as outras da luta pela única solução que se mostra realista. Se é para vivermos juntos em um único Estado, não faz sentido lutar contra os assentamentos. Se Haifa e Ramala ficarem em um mesmo Estado, que diferença faz um assentamento próximo a Haifa ou um  próximo a Ramala? No entanto, a luta contra os assentamentos é absolutamente essencial, é o principal campo de batalha na luta pela paz.

Com efeito, a solução de um único Estado tornou-se  o objetivo comum tanto da extrema direita sionista como da extrema esquerda antissionista.  E como a direita é incomparavelmente mais forte, a esquerda é que está ajudando a direita, e não o contrário.

Em teoria, é assim que funciona. Os direitistas partidários do Estado único acreditam que  estão somente preparando o terreno para o seu futuro paraíso. A direita está unificando o país e pondo um fim à possibilidade de se criar um Estado palestino independente.  Vão submeter os palestinos a todos os horrores do apartheid e mais alguns – lembremos que os racistas sul-africanos não tinham a intenção de deslocar e tomar o lugar dos negros, mas, sim, a de segregá-los. Até o momento, talvez em poucas décadas ou meio século, em que o mundo obrigará o Grande Israel a conceder plenos direitos aos palestinos, e Israel se tornará a Palestina.

De acordo com essa teoria ultraesquerdista, a direita, que está criando o Estado único, racista, é, na realidade, o burrinho do Messias, o lendário animal em cujo lombo o Messias chegará triunfante.

Uma bela teoria. Mas quem garante que isso efetivamente acontecerá?  E antes que se chegue ao estágio final, o que vai se passar com o povo palestino? Quem é que vai obrigar os dirigentes do Grande Israel a aceitar os ditames da opinião pública mundial?

Se hoje Israel se recusa a se curvar perante a opinião do mundo inteiro e a permitir que os palestinos tenham o seu próprio Estado em 28% da Palestina histórica, por que cederia  no futuro e desmontaria definitivamente a sua  estrutura?

Quem ousaria ter certezas sobre um processo que durará uns cinquenta anos (ou talvez mais)? Quais mudanças ocorrerão  no mundo nesse meio tempo?  Que  guerras e outras catástrofes desviarão as mentes do mundo da “questão palestina”?

Dá para jogar com  o destino de uma nação baseado numa teoria tão forçada quanto esta?

Supondo-se, por um momento, que a solução de um único Estado realmente venha a se apresentar, como é que  funcionaria?

Judeus israelenses e árabes palestinos servirão no mesmo exército,  pagarão os mesmos impostos, obedecerão às mesmas leis, militarão lado a lado nos mesmos partidos políticos?  Haverá relações sociais entre eles?  Ou o Estado se afundará em uma guerra civil interminável?

Outros povos descobriram ser impossível conviver em um mesmo Estado. Tomemos vários exemplos: União Soviética, Iugoslávia, Sérvia, Tchecoslováquia, Chipre, Sudão.  Os escoceses querem separar-se do Reino Unido; bascos e catalães,  da Espanha. Os franceses no Canadá e os flamengos na Bélgica se sentem desconfortáveis. Até onde sei, em nenhuma parte  mundo dois povos diferentes concordaram em manter um Estado unificado por décadas.

Não. A solução de dois estados não está morta. Não pode morrer, porque é a única  que existe.

O desespero pode ser conveniente e tentador. Mas não é uma solução.

* Traduzido do site do Gush Shalom por Renato Mayer.

Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

É escritor e ativista do Gush Shalom. Traduzido do site www.gush-shalom.org

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