Nostalgia de terras ingratas

deserto, Luis Krausz

deserto

Luis S. Krausz

São Paulo: Editora Benvirá, 2013

149 páginas

 

 

 

deserto (com “d” minúsculo), de Luis Krausz, foi contemplado com o primeiro lugar no Segundo Prêmio Benvirá de Literatura (2013). O romance focaliza judeus alemães sobreviventes do Holocausto, nas atividades de tentarem ressuscitar seu modus vivendi de antes da Segunda Guerra, em países como Israel, Inglaterra e Brasil. A narrativa transcorre pelas impressões que o narrador guardou das visitas que fez a parentes, quando tinha 16 anos:em Tel Aviv, um tio do seu avô (tio-bisavô Richard), e um familiar da sua mãe (tio-avô Kalman). Em Londres, passou uns dias na casa de uma prima da sua avó, a médica socialista Wally, cujo pai tinha sido um notável educador vienense, autor de revolucionária estrutura de ensino nas escolas judaicas austríacas; ela era casada com Eugen, ávido leitor que, tendo suas bibliotecas consumidas pelo fogo nazista no Continente, tentava reconstituí-las na Inglaterra, procurando por sebos e antiquários o que tivesse escapado de bibliotecas similares às suas. Romântico e sofredor de depressões, vivia à sombra da esposa, distraindo-se num “Day Centre, onde passava o dia em companhia de outros velhos deprimidos – alguns, como ele mesmo, refugiados da Alemanha” (pág. 97); também na Inglaterra, veio a conhecer a família de um primo-irmão do avô, o falecido doutor Dezsö Krausz, húngaro formado em medicina pela Universidade de Viena, estabelecido no Reino Unido antes de 1938 (quando ocorrera o Anschluss, a anexação da Áustria como território nazista) e que tinha sido diretor de um hospital psiquiátrico.

O narrador se dividiu entre esses parentes num período de duas semanas. Ele as viveu com uma pitada de aventura, pois antes estava em Israel como um dos muitos jovens não israelenses voluntários que iam ajudar na colheita de frutas cítricas, por seis semanas. Parte do contrato, então, impunha que os jovens  permanecessem em Israel durante todo o período do compromisso, o que os impedia de viajar para qualquer outro país. Mas o rapaz não se conformou com a proibição e, com o consentimento dos pais, que estavam no Brasil, assim que a colheita terminou, escapou da fazenda onde estava alojado e bateu asas. Aí começou seu périplo entre Tel Aviv e a Inglaterra, visitando gente que ele não conhecia e que acabou, ao final, por fazer com que  conhecesse muito do mundo judaico-germânico de antes da Segunda Guerra. Ao penetrar nos exíguos espaços que os tios-avoengos habitavam, deu de frente com os ecos daquele universo germânico extinto (o “judeo-alemão”, como grafado no romance), o qual seus pais e avós também se esforçavam para restaurar em São Paulo e Campos do Jordão, no Brasil.

Como em seu romance anterior (Desterro, Memórias em Ruínas, resenhado nesta coluna e traduzido ao alemão como Verbannung. Erinnerungen in Trümmern ), Krausz nos guia por uma dimensão peripatética na narrativa em primeira pessoa. Não só trafegamos por geografias diversas, mas nos locomovemos por um sistema textual alternado entre suas observações sobre indivíduos e lugares visitados e lembranças de sua vida no Brasil entre membros da sua minguada família e amigos, todos igualmente cultos, cultivados, heréticos e reformistas, como os parentes observados no exterior.

Traços comuns

Os expatriados se mantinham vinculados ao passado o quanto podiam, ainda que por registros inócuos, como a placa instalada na porta da residência do tio Richard em Tel Aviv, que dizia, “em letras latinas e em letras hebraicas: “DDr. Richard Pokorny – Psycholog – Grapholog” (págs.42- 43). Nela, os dois “DD” se referiam aos dois doutorados do velho parente – um em jurisprudência e o outro em psicologia.

Especialista em grafologia, o Onkel Richard, como era chamado na família, assim como Wally e Eugen, serão pessoas influentes na caracterização dos refugiados alemães judeus, como o narrador os observou: na aparência, regiam-se pelos hábitos do novo país, mas na  vida pessoal continuavam a ser os alemães expulsos da sua terra, que reviviam o passado por meio de encontros, conversas e outras respeitáveis reuniões intelectuais nas suas austeras bibliotecas.

Saraus literários e musicais eram comuns entre o casal Richard e Gretel e seus amigos. Enquanto o jovem brasileiro lá se encontrava, os parentes receberam “a visita do dramaturgo Max Zweig, primo em primeiro grau do muito famoso escritor vienense Stefan Zweig” (pág. 47), que “vivia sem amargura seu destino difícil de artista esquecido e desconsiderado” (pág. 49).  A principal atração do encontro, para onde acorreram conterrâneos dos tios, era a leitura de Davidia, de Max Zweig, “uma tragédia escrita em alemão a respeito de um assentamento de pioneiros na Galileia que foram massacrados por um grupo de insurgentes árabes” (pág. 47). Tais saraus proporcionavam um modesto pecúlio ao orador-autor, que se recusava a aprender o hebraico, com medo de perder o domínio do alemão, o idioma ilhado no território israelense.

Na Inglaterra, conviveu com Wally, a prima médica, e seu marido, o Eugen sombrio e de poucas palavras,“criado para ser um berlinense, um monólito para quem a Alemanha e a língua alemã eram tudo” (pág. 74).  Após deixar sua maleta num canto da casa hospedeira e  se assegurar de que teria um lugar para dormir num dos seus sofás, o garoto se despachou para a cidade, onde percorreu o British Museum e onde também assistiu a uma peça teatral cuja estrela era Ingrid Bergman. Da peça, ele extraiu vigorosa alegoria referente a uma Europa elitista, iluminada e dominadora de países fora do Continente, como o papel interpretado pela atriz sueca, o de uma aristocrata perdida entre camponeses ignorantes e intimidados por sua preeminência.

Em todas as casas onde se hospedou, era servido com chás, lanches, jantares e almoços. Enquanto seus anfitriões e outros convivas o observavam – enfim, era um longínquo descendente de alemães, perdido nas selvas tropicais – , em muitas delas ele identificava os pratos salgados, bolos e confeitos em geral, com as fartas mesas de seus avós, radicados no Brasil, por um dos traços mais comuns entre eles, a comida germano-húngara-austríaca.

Os comentários do narrador variam de um teor nostálgico a um timbre irônico, mesclados a associações com lembranças e imagens da sua vida brasileira junto aos pais e avós. Estas deslizam entre as descrições dos seus contatos no exterior em intervenções ondeantes, visto que as comparações entre os judeus germânicos desenraizados mais os assemelhavam do que os diferenciavam, apesar dos contrastes geográficos e culturais entre seus novos cenários.  Romance magnético por suas trilhas sutilmente delineadas, expõe como o narrador foi levado, durante e ao fim das visitas aos parentes, a um processo de autoconhecimento e à percepção da existência de um ‘deserto’ nas vidas deles, custosamente reconstituídas fora da Alemanha, da Áustria, da Hungria…em Israel, na Inglaterra, no Brasil.

Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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