Férias, Israel

Pedras de sal no Mar Morto

Pedras de sal no Mar Morto

Escrever sobre férias em Israel – prazerosas e sentimentais – sem falar de política é tarefa difícil. Num país minúsculo onde qualquer corrida de táxi se transforma em aula de multiculturalismo, e onde todos parecem ter “aquela velha opinião formada sobre tudo” cantada por Raul Seixas, nosso motorista, filho de judeus iraquianos, nos leva de Jerusalém ao Mar Morto e vai apontando as pedras do caminho. Literais e figuradas! Fizemos florescer esse deserto, informa ele, na primeira curva entre as montanhas ocres. Meia hora de conversa amena antes das afirmações categóricas. “Nós levamos nossa vida, mas eles não pensam no futuro, ignoram a realidade, só pensam em negócios para enriquecer. Eles quem? “Os políticos”, responde, apontando para as montanhas da Jordânia, em reflexos de azul, do outro lado do mar.

“Já pensou no paraíso que isto seria, se pudéssemos viver em paz?” O motorista conta que o pai trazia a fieira de filhos para acampar por ali, nos verões dos anos 1960, em qualquer ponto onde pudessem fincar a barraca. Agora, tudo é cercado e regulamentado, para preservar a natureza, e também por motivos comerciais e de segurança. Este é o ponto mais baixo da Terra, e leva-se uma hora e meia de carro de Jerusalém até nosso destino, o kibutz Ein Gedi, as placas na estrada informando os níveis do oceano. Junto à água, outras placas advertem contra os riscos (não vá um turista afoito afundar no terreno movediço junto ao mar!).

Início de primavera, tempo perfeito (no verão, a temperatura atinge depressa os 45 graus). Sol, sal e lama medicinal, matéria-prima dos famosos produtos Ahava. Uma paisagem bíblica, se por um instante ignorássemos o asfalto impecável e os veículos. Há milênios, a água cobria extensão maior. O Mar Morto agora encolhe um pouco mais a cada ano, cede espaço ao solo pedregoso. Não se pode provar a água, que pelo elevado teor de sal queimaria a boca, a língua, a garganta (são toneladas de carbonato de potássio, usado no fabrico de sabão e vidro), por isso crianças pequenas não são bem-vindas na praia. Em compensação, ônibus despejam turistas de meia-idade nos balneários – russos e eslavos, que poderiam figurar num filme de Kusturica, boiam sem afundar, se lambuzam de lama, enrolam-se em roupões berrantes.

Contradições

Ein Gedi – região mencionada na Bíblia – , onde famílias israelenses vêm passar o fim de semana, fica a alguns minutos de Ein Bokek, com seus hotéis cinco estrelas. O acesso, que já foi precário, é facílimo, e o kibutz, que opera um dos balneários, é também um jardim botânico, a dez minutos da reserva natural que abriga dois vales. A caminhada vale a pena, e as há de vários níveis. Trilhas bem sinalizadas levam a cavernas e fontes de água cristalina. De acordo com achados arqueológicos, já havia moradores hebreus por ali no século 7° a.C.

Se antes os kibutzianos viviam da agricultura, hoje o turismo e os cosméticos geram boa parte dos recursos. A flora é rica, transplantada dos cinco continentes, a fauna é local e variada: jardim no deserto. Botânicos e biólogos supervisionam tudo. Desapareceram os jovens voluntários do passado, porém, e no setor de serviços o que vemos são empregados temporários, israelenses ou estrangeiros. Um spa de luxo, com piscinas e banho turco, permite que os hóspedes, no alto da montanha,  usufruam a água (rica em minerais) sem enfrentar os turistas lá embaixo. A pele fica instantaneamente macia, o ar puro é relaxante, os pulmões agradecem, a mente medita após o farto jantar no restaurante do kibutz. Vontade de passar muito tempo sob esse pedaço de céu limpo.

No trajeto do kibutz ao moderníssimo aeroporto de Tel Aviv, o mesmo motorista mostra as aldeias palestinas separadas pelo muro, as oliveiras ancestrais, a penitenciária de segurança máxima, os assentamentos israelenses cercados por arame farpado e vigiados por câmeras. Um trajeto que poderia durar vinte minutos demora, para os palestinos, duas horas, devido aos postos de controle. Os carros deles não podem trafegar por essa mesma estrada onde nos sentimos em segurança. O passeio ocorre no presente, mas o futuro se intromete (e a política!). “A humilhação gera revolta. Se não pudermos conviver, meus netos ainda viverão sem paz.”

São imensas e complexas as contradições num território que é ao mesmo tempo mítico e real. “Ano que vem em Jerusalém” – os judeus, seculares ou religiosos, ouvimos o eco da frase enquanto percorremos o país cujas realizações (alta tecnologia, educação, medicina de ponta, festivais de cinema, liberdade de expressão, museus sofisticados) são motivo de orgulho. Tanta construção em tão pouco tempo, e por um povo que foi alvo de uma das maiores tentativas de extinção da História! A razão pura não explica Israel…

 Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Heliete Vaitsman

Jornalista, é colaboradora do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar