Como se faz uma tese

 Ativistas das primeiras associações judaicas de Niterói, anos 1920

Ativistas das primeiras associações judaicas de Niterói, anos 1920

Não, caro leitor, não quero aborrecê-lo com questões acadêmicas, que o livro homônimo de Umberto Eco sugere. Também não pretendo discutir teoria e metodologia, pontos visíveis apenas nas salas de defesa de tese, ou nas estantes de ciências sociais das livrarias. Apenas desejo, neste breve artigo, comentar os caminhos que percorri para realizar minha tese de doutorado, recentemente transformada no livro Prestamistas, comerciantes e doutores: uma história dos judeus em Niterói.

O livro, que analisa o cotidiano dos  judeus da antiga capital fluminense, entre 1910 e 1980, tem ecoado razoavelmente. Tal repercussão, provavelmente, tem relação com a forma como o trabalho foi realizado, porque se para mim que não sou judia foi uma extraordinária surpresa descobrir o mundo dos estudos judaicos, para eles, os judeus de Niterói, também foi algo admirável uma não judia se interessar pelo tema.

Em 2004, quando decidi candidatar-me ao doutorado, procurava um tema que não fosse relativo aos estudos imigratórios, pois no mestrado já me havia dedicado à questão da imigração ao examinar a trajetória dos imigrantes madeirenses em Niterói. No entanto, convencida pela minha orientadora, a professora emérita da UFF Ismênia de Lima Martins, deliberei analisar as relações dos judeus, libaneses, portugueses, espanhóis, italianos, entre outros, com a cidade e os elementos nacionais, verificar como organizaram suas vidas, suas estratégias de sobrevivência, no século 20.

O acaso levou-me a começar a pesquisa com os judeus. Imediatamente vislumbrei um conjunto de divisões e discursos tão contraditórios que desisti de pesquisar outros grupos.  O senhor X, meu primeiro entrevistado, após duas horas, determinou que eu não precisava saber mais nada sobre o grupo pois ele havia dito tudo que era necessário saber… Já a senhora Y me disse que a comunidade se dividia entre “lado de cá” e “lado de lá”. O senhor Z irritou-se comigo porque eu empregava o termo “coletividade” ao invés de “comunidade”.

Paralelamente às entrevistas,   pesquisando a bibliografia, descobri que no programa de pós-graduação em que eu estudava (UFF) só havia uma tese sobre o tema, a excelente e inovadora dissertação de mestrado de Beatriz Kushnir sobre as polacas (1994). Mas meu caso era bem diferente do dela, porque pretendi estudar o conjunto da coletividade judaica da cidade e não um grupo específico. Havia outra também, defendida na UFRJ,  da antropóloga Vivian Flanzer, sobre os judeus de Rhodes em Copacabana.

Logo, descobri que havia um verdadeiro universo acadêmico paralelo relativo aos estudos judaicos que envolvia especialistas e não especialistas, tanto no Rio de Janeiro como em outros lugares do Brasil, especialmente São Paulo. E cuja produção era bastante consumida pelas próprias comunidades locais e que pouco se relacionava, aqui no Rio, com o que as pós-graduações em História faziam.

 Lançamento da pedra fundamental da ADAF, 1967

Lançamento da pedra fundamental da ADAF, 1967

Reações ambíguas

A essa altura os leitores podem estar se perguntando qual o motivo do meu espanto. Ora, em primeiro lugar, não entendia o porquê de esse ser um tema pouco frequente nos programas de pós-graduação em História; não compreendia também por que essa era uma questão praticamente restrita a pesquisadores judeus, como se houvesse barreiras separando pesquisadores e temas. Mas havia ainda outros motivos.

Estudiosa da imigração portuguesa – pessoas em geral oriundas do campo, semianalfabetas e que muitas vezes não queriam falar porque não acreditavam que suas histórias fossem relevantes – , adentrava um grupo que não apenas queria falar, como  cada “lado” tinha versões próprias das suas trajetórias. Havia memórias muito bem estruturadas por esses “lados” que era preciso desafiar.

Mas o espanto não se deu apenas de minha parte; a própria comunidade de Niterói também se surpreendeu, e a cada campainha que eu tocava, a cada associação que consultava, todos queriam entender por que uma não judia se interessava pela história deles. Não tive apenas que explicar minhas motivações, mas tive que convencê-los da minha seriedade, e da importância do trabalho. Precisei, verdadeiramente, constituir estratégias para a abordagem do grupo.

Durante o primeiro ano contei  com a ajuda apenas da direção da Associação David Frischman de Cultura e Recreação (ADAF). Sua presidente não somente apresentou-me às associações, como cedeu uma coluna no boletim da ADAF para  me apresentar à comunidade. Tratei de aproveitar o espaço, que sempre vinha secundado por minha foto e e-mail, para contar do trabalho, das descobertas que fazia na pesquisa em almanaques raros na Biblioteca Nacional,  na imprensa judaica do período e nos jornais que circulavam em Niterói.   Inclusive informei-os de que a presença dos judeus em Niterói era bem mais antiga do que eles próprios supunham.

A partir de então tive acesso a documentos cuja interpretação trouxe à tona problemas e questões de que eles não se lembravam mais e que também maculavam um pouco as versões que construíram para si da trajetória da comunidade. A estratégia funcionou.  O telefone não parou mais de tocar. Cada toque trazia revelações surpreendentes, como a psicanalista que queria ajuda para entender o que havia acontecido com seu avô, preso durante a invasão da Cozinha do Trabalhador, na Praça Onze, em 1935, poucos dias após a Intentona comunista. Ou a senhora que queria contar de seu amor impossível por um brasileiro, casamento impedido pela família.

Os telefonemas vieram também de outros países, não  apenas para contar alguma coisa, mas para saber da própria pesquisa. Durante dois anos pedi informações sobre um personagem que considerava chave na história de uma das associações. Notícias que não chegavam – até que um dia, seu próprio filho telefonou de Chicago. Quatro meses depois nos encontramos para gravar uma entrevista, e personagens que pareciam saídos de um livro de Isaac Bashevis Singer se tornaram presentes na comunidade de Niterói.

Representantes (Niterói) da Associação Feminina Israelita Brasileira, anos 1950

Representantes (Niterói) da Associação Feminina Israelita Brasileira, anos 1950

“Isso não pode”

Para além da coluna, frequentava as associações, pedia para ver documentos. Umas abriram os arquivos, outras fecharam reiteradamente. Mas havia aqueles que queriam falar, como disse no início, e que tinham histórias bem construídas acerca da trajetória e das disputas internas da comunidade judaica de Niterói. Essas pessoas falaram, mas falaram como quiseram. Houve o caso da senhora JZ, que me pedia sempre para ir a sua casa, para onde eu acorria feliz da vida com o gravador. Ela falava horas sobre todos os assuntos menos sobre o que eu perguntava. No dia seguinte, ela me telefonava e durante mais algumas horas contava tudo o que eu queria saber. Mas, ao final da ligação, advertia: “Isso você não pode escrever.”

Houve também pessoas que se dispuseram a traduzir documentos do ídish e que por isso se sentem também autoras da história que escrevi.

Enfim, poderia estender esse artigo, mas gostaria de enfatizar que, passada a surpresa – minha e deles – , eu obtive muito apoio, muitas fontes, material suficiente para preencher quase 600 páginas de texto. Tanto a qualificação como a defesa da tese contaram com a presença deles. Na qualificação, as senhoras da comunidade não se conformaram com o silêncio e quiseram falar também, e à banca não restou outra alternativa a não ser ouvir.

Durante o lançamento do livro, a fila de autógrafos foi enorme. Como historiadora, devolvia ao grupo parte do material que eles me deram. Com toda a certeza, não escrevi aquilo que a memória deles – elaborada durante anos – me informou, pus no papel o resultado que o exame das diversas fontes me confirmou. Discordâncias à parte, estamos felizes. Aqueles que não quiseram ou não puderam colaborar já pedem uma segunda edição. Desafio que não posso aceitar, uma vez que outros temas rondam meu caminho. Todavia, enquanto escrevo essas linhas a alegre lembrança da elaboração da tese me provoca um sorriso nos lábios.

Ao espanto inicial, subjaz o livro, uma efetiva contribuição aos estudos sobre imigração judaica no Brasil. Subsiste, também, uma saudade e um incrível encantamento com a vida associativa dos judeus de Niterói.

Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

É coordenadora do Centro de Estudos de História Fluminense (Museu do Ingá).

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