As lições que o caso nos ensina

Robert Meeropol, 2 anos (1949)

Robert Meeropol, 2 anos (1949)

Entender o que aconteceu no Caso Rosenberg é, talvez, ainda mais importante hoje do que quando meu irmão, Michael, e eu iniciamos o nosso esforço para reabri-lo, na década de 1970. Nos anos 1950, o governo dos Estados Unidos usou o caso de nossos pais  para provar para o público que uma conspiração comunista internacional, com o emprego de pessoas que se faziam passar por dissidentes, pretendia destruir o nosso way of life. O governo alegava que essa ameaça exigia que a segurança nacional tivesse prioridade sobre os direitos humanos e as liberdades civis. A alegação do  governo  hoje é que a conspiração terrorista internacional ameaça o nosso way of life com armas de destruição em massa.  Assim como há 60 anos, eles afirmam que essa ameaça é tão perigosa que justifica sigilo, detenção por tempo indeterminado e até tortura.  O caso Rosenberg ressoa dos detentos de Guantánamo ao soldado Bradley Manning e ao Salão Oval da Casa Branca. Se Manning ou  diretores do Wikileaks forem acusados e/ou processados pela Lei de Espionagem de 1917, como o foram os nossos pais, durante os próximos muitos anos o paralelo com o Caso Rosenberg será ainda maior.

Infelizmente, se você hoje perguntar às pessoas nos EUA sobre o Caso Rosenberg, a maioria vai fazer cara de quem não sabe ou vai dizer qualquer coisa vaga a respeito de um caso de espionagem que aconteceu durante a Guerra Fria. De certa forma, não chega a surpreender, uma vez que é necessário ter quase setenta anos para guardar alguma memória do tamanho da questão, ocorrida entre 1950 e 1953.

No entanto, há exceções. Por exemplo, no começo de 2012,  comparei, no meu blog semanal (http://www.rfc.org/blog) ,os casos de Bradley Manning e Julian Assange com o dos meus pais. O texto gerou centenas de milhares de hits e despertou muito interesse. E, claro, mesmo que só uma pequena porcentagem da nossa população permaneça interessada no caso dos meus pais, isso ainda é representativo numa população  de 300 milhões de indivíduos. E há elementos dentro da esquerda política do meu país que enxergam o paralelo que  mencionei  entre os processos por conspiração comunista do começo dos anos 1950 e as leis de segurança pós-11 de setembro que vigoram hoje.

O caso dos meus pais é particularmente importante atualmente nos EUA devido às acusações legais específicas contra eles. Não sei que importância se dá à questão em outros países. Em relação a vocês, deixo para os brasileiros decidirem. De qualquer maneira, o alcance global do império norte-americano torna as decisões legais no  meu país importantes em todo o mundo.

Julius e Ethel num parque, c. 1942

Julius e Ethel num parque, c. 1942

Arma política

Nos EUA, meus pais foram acusados com base na Lei de Espionagem de 1917, que tem uma história infame. Serviu originalmente para esmagar a oposição à Primeira Guerra Mundial. Criminalizava as críticas ao esforço de guerra e enviou centenas de dissidentes para a cadeia só por exporem suas opiniões. Transformou discordância em traição. Muitos dos que atacaram a Lei observaram que os autores da Constituição dos EUA haviam  limitado especificamente o que constituía traição ao lançar na Constituição: “Constituirá traição contra os EUA unicamente fazer a guerra ou aderir aos inimigos, prestando-lhes ajuda e apoio.” (Artigo III, seção 3). Os autores consideraram essa estrita definição necessária a fim de impedir que a traição se tornasse o que alguns chamavam “arma de uma facção política”.

Parece óbvio que a Lei de Espionagem é inconstitucional porque faz exatamente o que a Constituição proíbe. Ela é, em outras palavras, um esforço para passar a perna na Cláusula de Traição da Constituição. Não é de surpreender, contudo, como vimos em tempos de tensão política, pouco depois da sua aprovação, que a Suprema Corte tenha mantido a validade da Lei de Espionagem por 5 a 4.

Não é por acaso que Bradley Manning está sendo e Julian Assange poderá ser acusado com base na mesma Lei. E também não por acaso Manning e Assange poderão enfrentar uma acusação de “conspiração”, assim como meus pais.  Para que a promotoria prove uma conspiração, basta que apresente evidência de que duas ou mais pessoas se reuniram e tomaram uma única atitude com vistas a promover um plano ilegal. Poderia ser um telefonema ou uma conversa. A única evidência apresentada contra minha mãe, por exemplo, foi o testemunho de David e Ruth Greenglass de que ela estava presente em uma reunião de espionagem e datilografou um rascunho escrito à mão por David. Embora esse testemunho tenha se mostrado falso, mesmo que fosse verdadeiro significaria que o governo dos EUA executou alguém por datilografar.

Mas o alcance do termo “conspiração” é ainda mais insidioso. Significa que QUALQUER PESSOA com quem meus pais tenham discutido seus atos e opiniões políticas poderia haver sido investigada e sofrido as mesmas acusações caso alguém desse testemunho de que as tais conversações  incluíam planos de espionagem. Portanto, o caso contra meus pais foi  corretamente entendido por muitos  integrantes da sua comunidade política e membros do Partido Comunista como uma ameaça contra todos.

Olhando a situação do Wikileaks por essa perspectiva, fica claro por que o governo tentaria acusar Manning e Assange de conspiração. Não apenas eles dois, mas qualquer um envolvido na comunidade Wikileaks poderia cair numa varredura. Assim como no caso dos meus pais, os promotores poderiam tentar intimidar alguém para que denunciasse outros em troca de um tratamento mais favorável. Essa atitude de dividir para conquistar jogaria os indivíduos uns contra os outros, plantaria as sementes da desconfiança na comunidade mais ampla e imobilizaria outros. Esse tipo de ataque ameaça todos os ativistas.

Apesar de decisões posteriores da Suprema Corte parecerem criticar e limitar o  alcance da Lei de Espionagem de 1917, esta jamais foi declarada inconstitucional. Até recentemente, com algumas notáveis exceções que incluem o caso dos meus pais, tem sido uma arma inativa, à espera do momento político certo e de uma Suprema Corte autoritária para reviver e golpear os dissidentes.

Vingança construtiva

Por fim, tiro outras lições do caso de meus pais que permanecem relevantes.  Em 1989, eu tinha 42 anos, estava profissionalmente sem rumo e infeliz, quando acordei no meio da noite com a ideia de criar uma fundação em nome dos meus pais que ajudasse crianças com o mesmo tipo de experiência que eu mesmo tinha vivido na infância.  A finalidade era transformar a destruição que atingira minha família numa força positiva capaz de beneficiar uma  nova geração de famílias da mesma forma que a comunidade de apoio fez para ajudar o meu irmão  e a mim depois que nossos pais foram mortos.  Considero o RFC  a minha vingança construtiva.

A comunidade judaica tem aguda consciência de como alguém se sente ao ser atacado. Sempre que  acontecem coisas ruins a nós, a nossas famílias e a nossas comunidades, é natural querermos revidar, vingar-nos contra os causadores. Um aspecto da vingança, o desejo de não permanecer uma vítima passiva, é saudável.  O problema é que a  vingança é destrutiva. Contudo, se conseguirmos aproveitar essa energia, esse desejo de agir, e concentrá-lo na criação de uma resposta positiva, estaremos produzindo satisfação pessoal, além do revide contra o mal que nos foi feito. Essa perspectiva é particularmente importante no mundo violento e conturbado de hoje.

Boletim nº 143 – julho/agosto de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Filho caçula de Ethel e Julius Rosenberg, é diretor executivo da fundação sem fins lucrativos Rosenberg Fund for Children. Escreveu a autobiografia Uma execução na família, Ed. Casa Amarela.

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