Uma movimentação no caso AMIA

imagesCA1ZDEXRO Memorando de Entendimento entre Argentina e Irã para poder interrogar supostos responsáveis pelo atentado à Asociación Mutual Israelita Argentina, que causou 85 mortos e centenas de feridos em 18 de julho de 1994, serviu de pretexto aos partidos de direita para recuperar certa iniciativa política.  Ao mesmo tempo, o diálogo com o governo de Ahmadinejad desatou a ira de Israel e uma brutal ofensiva de opositores contra o que presumem ser uma guinada na política externa do governo de Cristina Fernández de Kirchner. O risco para os Estados Unidos é que juristas internacionais percebam a debilidade das provas que a Justiça argentina utiliza para acusar altos funcionários iranianos, em uma causa marcada pelo acobertamento e a impunidade.

Este acordo cobriu a agenda política e midiática de fevereiro. E não porque esteja em jogo o esclarecimento de uma causa judicial que foi contaminada, acobertada e desviada arbitrariamente desde o começo tanto pelas autoridades políticas como pelas judiciárias, mas porque indica como se interpreta o fato político do diálogo com o Irã.

O Memorando de Entendimento foi assinado na Etiópia pelos chanceleres de ambos os países em 27 de janeiro e ratificado pelo Congresso argentino em fevereiro, tanto no Senado (39 votos a favor e 31 contra) quanto pelos deputados (131 a favor e 113 contra). Falta agora que o Parlamento iraniano faça o mesmo.  Parece que o Memorando encontra dificuldades nas terras persas.  Certamente, as supostas vantagens para o Irã de que se falava não são tantas.

O acordado cria uma Comissão da Verdade, composta por cinco juristas internacionais a serem designados, que analisará toda a documentação apresentada pelas autoridades judiciárias argentinas e iranianas e emitirá recomendações, e prevê o interrogatório em Teerã dos acusados pela Justiça argentina, sobre os quais pesam notificações vermelhas [mandados de captura] da Interpol.

imagesCAT82V17Lado escuro

Ante a impunidade vigente há quase 19 anos, Israel e opositores liberais e fascistas arremeteram contra o governo.  Uma deputada resumiu no Congresso a essência dos argumentos contrários ao acordo: “Vamos votar contra não pelo acordo em si, mas pelo alinhamento do nosso país com o Irã, que nos situa no lado errado da História.”

A oposição fez o ato público de 14 de fevereiro, em frente ao Museu do Holocausto, sob o lema “Para não estar do lado escuro da História”.  Legisladores do radicalismo (UCR), opositores do peronismo, a CC e o ultradireitista PRO conclamaram à rejeição do projeto de lei que ratificou o acordo.  Lembramos, a respeito, que o prefeito da cidade de Buenos Aires e líder do PRO, Mauricio Macri, tentou quatro anos atrás pôr no comando das forças de segurança portenhas o policial Jorge Palacios, acusado de dificultar a investigação do atentado.

A imprensa também teve o seu papel. Primeiro, assinalou interesses comerciais da Argentina após o acordo, informando sobre o crescimento de 1.100%   das exportações ao Irã durante os últimos seis anos.  Depois mostrou a preocupação fundamental, explicitada num editorial do jornal La Nación: “… defendemos que o Congresso da Nação, por unanimidade, rechace este acordo, sob todos os aspectos oposto aos interesses de nossa Nação.  Do contrário, estaremos no lugar equivocado da História.  Já aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, quando a Argentina decidiu ser neutra em relação ao regime nazista em vez de defender a liberdade e os princípios democráticos”.

Por seu lado, a presidente Cristina Fernández afirmou que o objetivo “é destravar uma causa que está paralisada ou andou para trás” graças a uma trama de cumplicidades que desvirtuaram a investigação. E situou a questão no contexto internacional. “É bom lembrar que há poucos dias, em Viena, o vice-presidente dos Estados Unidos disse que eles estão preparados para um encontro bilateral com os dirigentes iranianos”, observou, numa alusão ao diálogo mantido em fins de fevereiro entre o Conselho de Segurança da ONU e o Irã sobre o plano nuclear desse país.

Diante da crítica de Israel e dos dirigentes da AMIA e da Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas (DAIA), o chanceler Timerman defendeu o acordo: “Não se permitirá a utilização da causa AMIA para interesses geopolíticos.” Para que não restassem dúvidas quanto à referência a Israel, acrescentou: “Preocupa a manipulação de países que não querem uma solução diplomática com o Irã, preferindo ir à guerra.”  E acusou: “Os que se opõem (ao acordo) vão conseguir que a causa continue parada.”

Divergências comunitárias

A notícia do acordo foi recebida de maneiras diferentes pelos familiares das vítimas e pelas organizações israelitas do país. A DAIA e a AMIA, assim como o conjunto das entidades sionistas repudiaram o acordo.  Organizações de familiares, como 18-J, Memória Activa e a Asociación de Familiares y Amigos de las Víctimas Del Atentado, dirigida por Sergio Burstein, bem como o ICUF, fizeram fortes críticas aos dirigentes argentinos e israelenses.

Laura Ginsberg, da Agrupación por el Esclarecimiento de la Masacre Impune de la AMIA (APEMIA), denunciou que “a suposta conexão iraniana” foi construída para “pôr a causa da AMIA a serviço da guerra no Oriente Médio e contra o Eixo do Mal, representado pelo Irã”.  Sua posição é clara: “Nós nunca acusamos o Irã porque até hoje nunca vimos nenhuma evidência que o incriminasse diretamente.”  Num ato em frente ao Congresso Nacional, no dia 27 de fevereiro, ela criticou a DAIA e a AMIA: “Acompanharam cada uma das políticas acobertadoras do Estado destinadas a abandonar a conexão local do atentado (…). Querem continuar com a pista iraniana a todo custo, não interessando o resultado. Não importa se essa conexão tem evidência que possa ser comprovada, que é do que nós duvidamos.” A APEMIA, acompanhada por diversas correntes políticas trotskistas e maoístas, pronunciou-se contra o acordo por considerar que se busca encerrar o caso sem apontar os responsáveis locais pelo atentado.  Ela exige a abertura imediata dos arquivos secretos da investigação – realizada parcialmente durante a presidência de Néstor Kirchner – e a criação de uma comissão investigadora independente do Estado, ao qual acusa de ser o principal acobertador dos fatos.

De sua parte, o ICUF e todas as suas instituições federadas apoiaram o Memorando desde o começo por entender que era um passo, mesmo não sendo o melhor nem o único, no sentido de esclarecer o criminoso atentado. Assinalam, não obstante, a ligeireza da pista iraniana, acrescentando que, para avançar seriamente, continua sendo imprescindível investigar a conexão local, tanto no atentado em si como no complexo processo de encobrimento.  Além disso, na leitura política do memorando, a posição do ICUF foi definida pela postura independente e soberana do governo argentino, pelo rechaço das pretensões belicistas israelenses e pelas próximas eleições para a AMIA, nas quais o PRO (direita política) joga pela continuidade, em aliança com a direita religiosa.

Sobre Ahmadinejad, o ICUF tem o pior dos conceitos, tão negativo quanto o que tem a respeito da monarquia islâmica da Arábia Saudita, dos presidentes cristãos Sarkozi  e Berlusconi ou do primeiro-ministro judeu Netaniahu. São todos horrendos porque repugnantemente homofóbicos, discriminadores, classistas, racistas, assassinos, perseguidores de “outros” (curdos no caso de Ahmadinejad, ciganos no de Sarkozi, albaneses e africanos no de Berlusconi, palestinos no de Netaniahu), retrógrados, conservadores da ordem estabelecida pelo capitalismo. Só que alguns são vistos com bons olhos pelos EUA e a mídia (e todo o coro de acólitos imaginável), e o outro,não. Por isso Ahmadinejad integra o “eixo do mal” com Cuba, Venezuela e Coreia do Norte (antes também tinha a Líbia, mas a democracia ocidental a bombardeou, assim como fez com a Iugoslávia… e como faria com Cuba, se pudesse). Que diferença existe entre o governo do Irã e o da Arábia Saudita? Nenhuma. Onde está a diferença entre os governos de Espanha, Itália, Grã-Bretanha, Israel e Irã? Nas formas, apenas; a essência é a mesma.

A postura do ICUF em relação ao Memorando de Entendimento está expressa em dois comunicados enviados aos cerca de 20 mil endereços de sua lista, bem como em muitos jornais locais e nacionais, contando com a adesão de numerosos acadêmicos e intelectuais judeus e não judeus.  Nesses documentos fincamos pé na questão do acobertamento:  por trás do triângulo Menem (presidente do país na época do atentado) – Aviran (embaixador israelense) – Beraja (presidente da AMIA) estão ocultadas coisas terríveis, como por exemplo a “french connection”, denominação dada à chamada rota sírio-turca de tráfico de drogas.  O ICUF tem sublinhado e agora reitera a importância da conexão local. O resto virá como acréscimo.

Conexão local

Sobre o Memorando, eis o que dizemos:

a) A Argentina fez acordos com a Turquia, país que nega o genocídio do povo armênio. Isto a torna colaboracionista do regime turco?

b) A Argentina fez muitos acordos com a França (que expulsa os ciganos), com os EUA (que expulsa os “costas molhadas” (centro-americanos, mexicanos, haitianos, dominicanos);

c) A Argentina fez acordos com a Itália quando Berlusconi era premiê, chefão de uma superquadrilha que promove a prostituição;

d) A postura da Argentina procurou refletir independência diante dos poderosos. Embora o regime iraniano seja repulsivo (por todos os motivos que nos ocorram e outros, muitos outros mais), não me parece muito diferente do norte-americano, que guerreia / invade / subjuga / conquista (antes Granada, bloqueio a Cuba; agora Líbia, Iraque, Mali) e não é enxovalhado por ninguém. Por outro lado, EUA, França, Grã-Bretanha, Espanha etc. são “branquinhos”, e na consciência social desta sociedade – perdão pela redundância – têm certa carta branca.

e) Quais são as provas de que foram iranianos os que planejaram o atentado? São a citação da citação da citação de alguém…, ou seja, não estão bem fundamentadas e são dirigidas pelo “Escritório Legal” dos EUA (eufemismo para a CIA).

Finalmente, não se fala, no ICUF, de “inocência iraniana”. Fala-se, sim, da responsabilidade local. Nós que estamos convencidos da dialética das coisas, que trabalhamos contra a unipolaridade imperial, acreditamos que este é um pequeno caminho que ajuda a independência e a soberania nacionais e tenta encontrar a verdade e a justiça. Negar a priori esta postura é ficar quieto, e ficar quieto implica não fazer nada.

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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