Uma luta que não se apaga

Shmuel Zygelbojm

Shmuel Zygelbojm

Já dizia mestre Mário Quintana: o passado não conhece seu lugar, está sempre presente. Contar episódios da Segunda Guerra Mundial confirma o poeta. A nós, que jamais conheceremos tudo o que aconteceu naqueles seis anos devastadores, resta garimpar as pegadas que se recusam a morrer. Não as encontraremos nos livros que exploram as aberrações do nazismo (há gente que acredita que analisar a sexualidade de Hitler explica a História), nem na perpetuação mecânica de lamentos e dor. Voltando a Quintana, o mais importante não é saber a resposta certa, mas fazer a pergunta certa.

Em abril, lembramos o 70º aniversário do levante do gueto de Varsóvia. Narrado e estudado à exaustão, os dados concretos da resistência contra a liquidação final do gueto, em 1943, são bem conhecidos. As estatísticas justificam o assombro, o horror, mas não o explicam. Os simplórios se satisfazem repetindo o mantra do Mal Absoluto, fora, portanto, do nosso alcance, incompreensível. Não percebem que a matança e a doutrina que a sustentava foram obra humana, ao nível do mar. Os carrascos e seus cúmplices eram, antes da guerra, cidadãos comuns, com rotinas comuns. Pagavam impostos, procriavam, iam ao cinema, viajavam. Alguns dos piores assassinos das Einsatzgrupen, tropas especiais treinadas para liquidar judeus e comunistas, tinham formação universitária. Médicos renomados aderiram em massa ao partido nazista, percorrendo a Alemanha para divulgar a superioridade ariana e dar “respaldo científico” a teorias racistas. Doutor Jekyll e míster Hyde, ambos habitando o mesmo corpo. O que liberou a porção Hyde?

O gueto de Varsóvia fazia parte de uma rede de campos de concentração, construídos em paralelo à expansão nazista para o leste europeu. No início, não existiam planos de liquidação sistemática dos judeus. Claro que as condições insalubres e degradantes para a maioria elevaram a mortalidade a níveis inéditos. A Solução Final, porém, viria mais tarde. Cada gueto reproduzia, em escala asfixiante, a sociedade judaica do pré-guerra. Um cronista do gueto de Varsóvia relata, por exemplo, que cerca de 20 mil judeus (5% do total, em 1940) constituíam uma espécie de elite com dinheiro e objetos de valor que podiam ser transformados em dinheiro. Alimentavam-se bem, frequentavam cafés e restaurantes bem abastecidos, em gritante contraste com a miséria, o caos, as doenças e a desesperança da grande maioria. A divisão de classes não morrera com os muros do gueto. A bonança para esses privilegiados durou até o início das grandes deportações, em 1942.

A grande pergunta sobre a chacina dos judeus: por que tanta passividade das vítimas? Adam Czerniakow, presidente do Judenrat em Varsóvia, dizia: “As massas judaicas, diante do intenso sofrimento, são quietas e equilibradas. Os judeus, em geral, só gritam quando as coisas para eles estão indo bem.” Não é uma resposta satisfatória. Aliás, sequer é uma resposta. Creio que existem dois elementos críticos que ajudam a abordar o assunto. O primeiro está na história do judaísmo europeu, especialmente o oriental. Mesmo sob duras perseguições, os judeus se habituaram a vê-las como sofrimento passageiro. Sempre havia uma saída. Os religiosos diziam que tudo já estava desenhado por Deus. O segundo, na eficácia diversionista do nazismo. Nos guetos existiam títeres judeus. Os Judenrats administravam, formalmente, os campos. A polícia judaica, que em Varsóvia chegou a ter dois mil integrantes, mantinha a aparência de uma repressão meramente doméstica. Pessoas saíam para o trabalho, as notícias não circulavam. Não é difícil imaginar que, mesmo com o panorama sombrio, sobrassem flashes de esperança de que tudo aquilo acabaria e a vida voltaria ao normal.

A polícia judaica era odiada. A primeira ação da Organização Combatente Judaica (OCJ), que lideraria o levante, foi contra Jacob Lejkin, subcomandante da força policial. Advogado de formação, Lejkin agiu com inusitada truculência durante as primeiras deportações, em 1942. A OCJ considerava inaceitável a colaboração de judeus com os algozes nazistas. Depois de Lejkin, executou Israel First, empregado do Judenrat e informante da polícia alemã. Não haveria compaixão para os que ajudavam a máquina brutal dos nazistas.

O arquivo Oineg Shabes sendo desenterrado após a guerra

O arquivo Oineg Shabes sendo desenterrado após a guerra

Anielewicz e Zygelbojm

Dentro dos guetos, multiplicaram-se formas artesanais, criativas e militares de resistência. Primo Levi conta que, ao processo de desumanização cotidiana em Auschwitz, contrapunham-se singelas reações. Fazer a barba, por exemplo, num lugar onde havia falta absoluta de condições para isso, se transformou num grito silencioso de revolta. Os nazistas exigiam que os judeus tirassem seus chapéus ou solidéus quando se cruzassem nas ruas. Mordechai Anielewicz, o jovem comandante da OCJ, ativou uma desobediência passiva. Mesmo sob o severo inverno polonês, deixou de cobrir a cabeça para evitar o cumprimento compulsório. Emanuel Ringelblum organizou em Varsóvia o arquivo Oineg Shabes, parcialmente recuperado depois da guerra. Com ele, preservou documentos fundamentais para reconstituir a vida no gueto. Os judeus de Minsk, na Bielorrússia, contaram com a ajuda dos comunistas locais para criar uma rota de fuga para as florestas, onde se incorporaram às brigadas de partisans. A passividade se rompia molecular, mas continuamente.

O extermínio nas câmaras de gás também insiste em perguntar. Por que, apesar de terem informações consistentes sobre o transporte de judeus para a morte, os aliados se recusaram a bombardear as ferrovias que levavam, por exemplo, a Auschwitz e Treblinka? O levante do gueto de Varsóvia foi o grito final de uma longa agonia. Um punhado de combatentes mal armados e sem treinamento de combate, mas decididos a morrer com dignidade, enfrentou durante quase um mês tropas profissionais e fortemente armadas. A combatividade dos rebeldes foi tão surpreendente que os alemães temeram que o “mau exemplo” se alastrasse para fora dos muros do gueto. Recrudesceram a repressão e veio a ordem de liquidação total do gueto. A destruição da grande sinagoga de Varsóvia, pérola arquitetônica, simbolizou o final do levante. O gueto estava reduzido a montes de escombros.

Por que insistimos em lembrar a insurreição de 1943? Certamente não para apenas chorar pelos mortos. Já temos carpideiras de sobra. Prefiro referir-me a Shmuel Zygelbojm. Militante do Bund, o partido operário revolucionário judaico que foi praticamente exterminado pelos nazistas, ele saiu de Varsóvia e procurou ajuda para a revolta, em Londres. Estados Unidos e Grã-Bretanha recusaram. Vendo seus familiares e companheiros massacrados sem piedade, e impotente para ajudar, Zygelbojm suicidou-se, no dia 13 de maio de 1943, em frente ao Parlamento Britânico. Deixou algumas cartas. “Com minha morte, quero expressar meu mais vigoroso protesto contra a Humanidade, que assiste e aceita o extermínio do povo judeu”, disse numa delas. Em outra, disparou: “A responsabilidade pelo crime de assassinar toda a população judaica da Polônia recai, antes e acima de tudo, nos próprios assassinos, mas indiretamente essa responsabilidade recai também sobre toda a Humanidade, as nações e os governos dos Aliados, que até agora não empreenderam nenhum esforço efetivo para deter o crime (…) Não posso mais ficar calado. Não posso continuar vivendo enquanto os remanescentes do povo judeu na Polônia, dos quais sou o representante, estão sendo aniquilados. No gueto de Varsóvia, meus amigos tombaram na batalha final com suas armas nas mãos. Não consegui morrer da mesma maneira ou junto com eles. Mas a eles pertenço, e às suas covas coletivas.” Não, a porta de saída não é necessariamente o suicídio. Reconheço em Zygelbojm a integridade dos que não aderiram ou colaboraram com os carrascos. Vejo nele a centelha que acusa os omissos, dos que se solidarizam com os humilhados e agredidos. Talvez aí resida o sopro de vida que irrompeu há 70 anos e exija ser lembrado: onde houver injustiça e opressão, a bandeira dos insurgentes de Varsóvia tremulará como exemplo de luta.

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Jacques Gruman

É diretor (licenciado) da ASA.

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