Partilha e independência *

Ben Gurion lê a Declaração de Independência

Ben Gurion lê a Declaração de Independência

Novembro de 1947. Na véspera, dia 29, tinha sido aprovada a partilha da Palestina. Nós íamos, de bonde, para o Grande Templo da Rua Tenente Possolo, para a comemoração oficial da comunidade carioca.

Quando passávamos próximo à Rua André Cavalcanti, dava pra ver uma grande movimentação das “polacas”. Perguntei ao meu pai o que estava acontecendo. Resposta do velho Chico: “Elas também são judias e estão comemorando a Partilha. Muito justo.”

Eu não lembro como foi a comemoração no Templo, mas ele estava totalmente lotado. Na verdade, eu e meus amigos da escola Herzlia aproveitamos a oportunidade pra bater papo, trocar figurinhas e até ensaiar uma roda de futebol em que a bola, como sempre, era uma pedra… E tinha até gente dando cabeçada em pedra… Tudo isso ali, do lado da sinagoga.

Tzikinovsky

Não sei se foi na comemoração da Partilha ou já na proclamação de Independência, em 1948, que o rabino Tzikinovsky foi dançar com a Torá em plena rua, em frente ao Grande Templo. Ele era uma figura extraordinária da comunidade carioca. Antes de mais nada, ganhava o seu sustento com uma papelaria. Ele não achava correto ser sustentado pelo ishuv. Apesar de ser o rabino do Templo.

Consulado

Em novembro de 1949, na Avenida Calógeras, na esplanada do Castelo, onde antes funcionava o Comitê Pró Palestina, inaugurava-se o Consulado de Israel. Uma festa emocionante. Jacob Schneider hasteou a bandeira de Israel, sob o olhar atento de Samuel Malamud, o primeiro cônsul honorário. E no mesmo dia e local, o rabino Tzikinovski recebia o seu visto de imigração para Israel, o primeiro concedido pelo consulado.

“Colosso”

 A própria vida, diz Gabriel Garcia Márquez, não é aquela que uma pessoa viveu, mas a que ela recorda, e como recorda, para contá-la. Em 1961, acho que pela primeira vez no rádio carioca, a Globo dedicou um programa comemorativo à independência do Estado de Israel. E quem produziu esse programa fui eu mesmo com a colaboração inestimável do

Zeca Levinson, que forneceu a trilha sonora. Terminada a audição, falei com meus pais pelo telefone. Minha mãe, como sempre, derramou-se em elogios exagerados. Mas o que me ficou gravado até hoje foi a curta e carinhosa manifestação do meu pai: “Colosso, Hérshale. Colosso!”

Foi a última vez que ouvi a voz de meu pai. Ele faleceu dias depois.

* Capítulo do livro Do Beco da Mãe a Santa Teresa, Henrique Veltman, 2010

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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