O sionismo continua vivo?

Cartaz chamando à aliá

Cartaz chamando à aliá

Quando fiz aliá de Nova York, em 1963, formado no movimento juvenil sionista progressista Hashomer Hatzair, creio que estava realizando o sonho sionista, o direito judaico à autodeterminação nacional. Eu estava construindo a pátria do povo judeu e participando, na qualidade de membro de kibutz, da vida em comunidade que era não apenas a pedra de toque do empreendimento sionista, mas também um modelo de papel social para a Humanidade.

Eram tempos muito mais inocentes do que os de hoje. Não havia televisão, que só chegaria em 1968, e o movimento trabalhista era a força dominante na política israelense desde antes da criação do Estado (o partido de direita Likud, liderado por Menahem Beguin, só viria a assumir o poder pela primeira vez em 1977). Não havia ocupação, e todas as forças progressistas ao redor do mundo se identificavam com Israel.

Por volta de 1967-68, circulava no país uma revista em língua inglesa intitulada Israel Magazine, que teve a brilhante ideia de lançar uma edição dedicada ao kibutz, inteiramente escrita por kibutzniks.  Fui convidado a redigir um artigo sobre o que me motivara a deixar a Diáspora para integrar um kibutz. Entre outras coisas, escrevi que sentia que fazia parte de um movimento mundial destinado a mudar o mundo, cujo símbolo eram os manifestantes de maio de 1968 na França, Danny, o Vermelho (Daniel Cohn-Bendit), Joan Baez, os que protestavam contra a guerra no Vietnam, a contracultura nos EUA etc.  Os editores entenderam que o meu artigo, bem como todos os demais artigos escritos por educadores, economistas, artistas e outros profissionais de kibutz, eram “radicais demais”, e decidiram escrever os seus próprios artigos sobre os kibutzim, pagando-nos uma remuneração simbólica por não terem publicado os nossos textos.

O ponto de virada foi a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e o começo da ocupação.

Assentamento de Ariel

Assentamento de Ariel

Janela de oportunidade

Hoje, alguns de meus amigos em Israel dizem que se, conforme a direita e os colonos nos territórios ocupados proclamam, o que eles estão fazendo e defendendo é o epítome do sionismo, eles – meus amigos – não mais se considerarão sionistas.  Discordo.   E digo que há uma disputa pelo significado e o destino do empreendimento sionista, e nós não deveríamos desistir do termo.

O que a direita e os colonos estão fazendo é pós-sionismo, ou até mesmo antissionismo. O sionismo legítimo acaba nas fronteiras de 1967 – a Linha Verde, que é reconhecida por toda a comunidade internacional, inclusive a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e os 22 Estados membros da Liga Árabe na Iniciativa de Paz  Árabe de 2002, respaldada pelos 57 membros da Organização para a Cooperação Islâmica., tudo baseado no entendimento de que existe também um direito palestino à autodeterminação  nacional e de que a solução do conflito entre os dois movimento nacionais é a partilha, são os dois Estados. Portanto, os assentamentos nos Territórios Ocupados servem apenas para minar o empreendimento sionista.

No fim dos anos 1970, durante os primeiros estágios do diálogo israelense-palestino, o professor Iehoshafat Harkabi, ex-chefe da Inteligência Militar de Israel, afirmou que, sem a solução do conflito israelense-palestino, não haveria futuro para o Estado de Israel e o empreendimento sionista. Em abril, durante uma conferência na Universidade de Tel Aviv dedicada a um novo livro, sob o título “Palestina – um Estado em formação” (em tradução livre), editado pelo doutor Efraim Lavie e o professor Itzhak Gal, uma declaração semelhante foi feita pelo doutor Ron Pundak, um dos arquitetos dos Acordos de Oslo e copresidente israelense do Palestinian-Israeli Peace NGO Fórum, uma rede de cerca de 60 organizações de direitos humanos israelenses e 40 palestinas que trabalham em conjunto. O doutor Pundak afirmou que, se perdermos a solução de dois Estados, será o fim de Israel.

Concordo. Temos uma janela de oportunidade no futuro próximo para salvar o empreendimento sionista e para realizar o direito palestino à autodeterminação nacional via solução de dois Estados.  Essa janela foi contemplada pela recente visita do presidente Obama a Israel e Palestina e enfatizada em seu discurso para estudantes israelenses em Jerusalém.

No momento em que Israel celebra o seu 65° aniversário, não está claro por quanto tempo essa janela de oportunidade ficará aberta. Alguns dizem meses, e eu presumo que estamos falando de um ano ou dois.  Depois disso, sobretudo se a atividade nos assentamentos prosseguir e não houver um progresso diplomático significativo, poderemos perder a opção dos dois Estados.  Não significa que a alternativa seja a opção de apenas um Estado.  As alternativas realistas são tanto uma Grande Israel (o Estado de Israel e a Margem Ocidental, dominados por Israel, essencialmente no estilo apartheid, o que solaparia a democracia israelense e seria uma receita para constantes revoltas) quanto um violento conflito, permanente e crescente, entre as duas nações, que poderia assumir a natureza de um extremamente perigoso conflito religioso mais do que nacional, que poderia ameaçar a estabilidade regional e internacional.

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

É coeditor do Palestine-Israel Journal (www.pij.org).

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