O rei e o rock rumam ao infinito (1)

Roberto Carlos

Roberto Carlos

Foi Voltaire  –   ou Nelson Rodrigues?  –   quem disse que a pior crítica é a indiferença. Não adiantou nada: a crítica continua servindo, antes de mais nada, para granjear bons inimigos.  Caiba aqui uma breve comparação: os humoristas, em geral veiculados pela imprensa, sempre estigmatizam aqueles que escrevem ou desenham o chamado humor a favor, sempre suspeitos de relações íntimas com algum poder  político ou econômico. O verdadeiro humor há de ser sempre contra: a caricatura acentua traços exóticos, a ficção expõe costumes ridículos, a crônica consagrará as besteiras das elites dirigentes, ou seja, o humor é a crítica sistematicamente contra. É claro que tanto o humor quanto a crítica são discutíveis, acusados de má fé, de antipatia pessoal, de vagos interesses materiais, como recompensas, e até de obviedade gratuita quando se limitam a concordar com unanimidades nacionais.

Lá pelo início dos anos 60, havia uma profusão de cantores populares que lançavam na praça uma profusão de discos LP gravados  na razoável profusão de estúdios da cidade. As orquestras gravavam o acompanhamento antes do cantor, que só entrava no estúdio para gravar a sua parte ouvindo a parte da orquestra já pronta. Havia de tudo, dependendo do custo: orquestras sinfônicas, pequenos grupos, arranjos sofisticados, outros mais simples, até desarranjos.  Os músicos tocavam o que estava escrito ignorando título, compositor e o nome do cantor.

Musiquinhas

No entanto, aparecia, com boa frequência, um tipo de arranjo algo peculiar – as notas eram longas tanto para as cordas quanto para os sopros; finalmente mudava-se para outra nota, porém  óbvia, previsível,  burocrática.  Um acompanhamento pobre de variedade e sempre no mesmo ritmo de balada  devagar só podia servir a uma melodia cantada igualmente pobre, óbvia e lenta.  Os músicos se divertiam, inventavam apelidos tanto para as notas longas quanto para a melodia inevitavelmente fácil de adivinhar: devia ser Roberto.  Os músicos de estúdio previam  um futuro negro para todas aquelas musiquinhas quase idênticas, mesmo depois de versos ajuntados pela voz do cantor – o público consumidor certamente  ia passar longe. Em pouco tempo fomos desmentidos pelo arrasador sucesso de vendas e shows e programas de TV que terminaram por desembocar na verdadeira idolatria que coroou Roberto Carlos rei (e não apenas pelas então chamadas classes B e C). Não tínhamos percebido que a popularidade já vinha de anos antes, quando  a tal Jovem Guarda já confinava a emergente bossa nova  e sua batida diferente  aos apartamentos de Copacabana.  É que a Jovem Guarda dispensava orquestra: para imitar o roquenrou bastavam as duas guitarras, um baixo, a bateria e vozes. Não percebemos que daí estava surgindo, na pessoa de Roberto Carlos e parceiros menores, um fenômeno de explicação ainda difícil. Esta perplexidade não se prende apenas à popularidade,  mas, mais particularmente, à sua sobrevivência de mais de meio século.

Perplexidades

A música popular sem palavras – dita instrumental – não serve aos ouvidos, mas sim aos pés: ela só será popular se seu ritmo permitir a dança.

O único gênero de música popular brasileira sem letra é o choro, que sobrevive à custa de pouca produção e consumo ainda menor. Dedução final: o que faz alguma música ser realmente popular é a letra. Melodia, harmonia, instrumentos…são praticamente dispensáveis.  O povo (que é quem confere popularidade a alguma coisa) quer ouvir histórias com as quais se identifique – sejam românticas, humorísticas ou mesmo trágicas (se forem cantadas tanto melhor, mas não é a música que interessa).  Os dramas quase tragédias sentimentais cantados pelas duplas sertanejas ainda são visíveis regionalmente; o humor (às vezes próximo à crítica social) parece nascer e viver nas periferias.  São variantes não dançantes de uma música popular que ganhou (de quem?) a pejorativa marca brega.  Já o rei atravessa décadas desafiando músicos e poetas, filósofos e historiadores: é afinado (como 90% da população), a voz  tem apenas uma vaga característica nasal, raras letras são suas (os parceiros variam de tremendões a absolutos desconhecidos). Quanto às músicas – como já  sabíamos há 50 anos –, são espertamente simples, óbvias, fáceis, para permitir  todas as atenções do público à letra.

A outra perplexidade que nos assalta o pensamento lógico é outra sobrevivência no tempo: o rock, que – como o rei – parece rumar ao infinito. Calma – esse caldo precisa de mais um prato.

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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