O paí­s binacional já existe

Ato contra a ocupação, Tel Aviv

Ato contra a ocupação, Tel Aviv

O país binacional israelense-palestino já existe; agora só falta o Estado. Fala-se que é praticamente impossível retirar os colonos dos territórios ocupados da Cisjordânia, pois seu número já chegaria perto do meio milhão.

Enquanto isto, os nacionaleiros de plantão cantam desejos fragmentados, obtusos sem coragem de dizer abertamente o que querem. O que é a “Grande Israel”? Todos sabem que os assentamentos não resolvem o problema demográfico e que a única forma de se manter o domínio sobre os territórios ocupados é aplicando a força bruta sobre sua população. A mudança da balança demográfica só seria alcançada mediante genocídio, expulsão em massa ou então a criação de bantustões palestinos.

Os nacionaleiros, atrás de seus slogans, querem e pensam nestas possibilidades. Se falassem sinceramente e abertamente seria caso de Tribunal Internacional ou boicote mundial tal qual aquele feito à África do Sul. Estes segmentos extremistas não têm proposta de futuro a não ser o domínio sobre outro povo se encharcando de sangue.

Enquanto isto, os novos participantes da coalizão discutem questões que parecem importantes sem que os “ingênuos” percebam que o principal é “parecer” que certas coisas mudam sem nada mudar substancialmente. Os religiosos ortodoxos não vão ser “expelidos” da governança israelense, mas ficarão na “reserva” para a próxima crise caso estes partidos cooptados irresponsáveis não amaciem as demandas que dizem conduzir. Apesar da visita de Obama, o ponto de vista predominante no establishment israelense é empurrar com a barriga indefinidamente esta situação aflitiva. Tudo o que acontece visa a nada acontecer. Isto aí é um filme gasto.

Infelizmente o ponto de não retorno se aproxima veloz enquanto as baratas tontas se divertem em Pompeia. Até um neófito político perceberia que existe uma dinâmica negativa neste processo de neocolonização. Na boca da cobra não cabe a presa mesmo que ela se dilate ao máximo.

O rei está nu

O sionismo em seus fundamentos está perdendo a aposta com o futuro. O Estado Judeu passará a ser uma quimera de antidemocratas enlouquecidos e enfurecidos enquanto na realidade terrena restará o que já se evidencia: uma população meio a meio e lado a lado em apartheid generalizado e uma brutal repressão ilegítima perante o mundo e para quem tem fé verdadeira.

Quem confiou na capacidade de reprimir eternamente, ao que consta, se deu mal. Os ingleses preferiram a retirada geral das colônias. Os franceses torturaram a direita e a esquerda na Argélia, mas acabaram saindo da mesma forma, levando consigo um milhão de pieds noirs, que, ao final, tentaram como última cartada assassinar De Gaulle. Os israelenses aprenderam com os ingleses na repressão de 1936 a dinamitar casas de palestinos, e com os franceses na Argélia a tortura como método. Vamos ver o resto das lições aprendidas.

A população parece cansada e narcotizada pelo status quo, uma tranquilidade aparente com pequenos e médios sobressaltos, tudo à custa de um aparato de segurança gigantesco. No entanto, atrás da rotina o fantasma continua no ar. Não se atina que este é um período de transição dolorosa entre crenças míticas, verdades históricas e necessidades pragmáticas. Vê-lo é uma questão de bom senso e lógica, mas parece que ainda não chegou o tempo de se perceber coletivamente que o rei está nu. Do que se precisará para tanto?

Este é o dilema verdadeiro.

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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