Identidade a qualquer preço

Foto Renato Mayer

Foto Renato Mayer

Quem já não se deparou com a cena, tão comum hoje em dia, de um casal ou de  três ou até quatro pessoas à mesa de um bar ou restaurante, totalmente envolvidas não em um diálogo, não em um olhar para o outro, mas em um clicar aflito em algum aparelho de comunicação – celular, iPhone, smartphone – em busca de uma conexão distante ou, mais apropriadamente, de se inserir em algum contexto (que não o da mesa), de se ver reconhecido ou importante para alguém que não está lá?  Repare à sua volta: no ônibus, nas caminhadas, até à frente de um volante, quanta gente está falando ao celular ou teclando vigorosamente, em vez de apreciar a paisagem, conversar ou ler um jornal?

Na academia onde me exercito, há uma “personal trainer” que, enquanto sua pupila se esfalfa em um aparelho, invariavelmente aciona seu iPhone à procura de alguma mensagem.  Que tanta urgência ela tem de lembrar que está presente, viva, interagindo, fazendo parte?  Qual será o seu medo: o de ficar ao léu no mundo, de ser esquecida?  Em um sentido mais geral, quando estragamos o celular ou o nosso computador deixa de funcionar, isso é visto como uma imensa tragédia pessoal.  A nomofobia está em moda.

Nestes tempos ditos pós-modernos, visibilidade é o que importa.  É fundamental fugir do anonimato, estar conectado, e o caminho mais fácil para se perceber visível e com identidade própria é pela mediação de algum desses instrumentos.  O real passa a ser o virtual.  Mesmo que vivamos em um casulo, comunicamos, os outros sabem de nós. Diferentemente do passado, viabiliza-se uma interação social que pode ser a exacerbação radical de um fechamento em si mesmo, de um individualismo.  Os nossos religiosos, que entendem a sua prática como necessariamente coletiva, chamam a esse fenômeno “a construção e a adoração de um D-us interno”.

A sociedade capitalista do século 21 é profundamente concentradora e opressora.  Com exceção de uns poucos privilegiados, a imensa maioria das pessoas vive uma sensação de fracionamento e atomização, quase esmagamento, de desproteção face ao Estado ou ao poder das empresas,  na qual sua identidade se esvai, sua personalidade se dilui, se perde e desaparece  na massa de grandes conglomerados urbanos. A autoestima mal se sustenta.  Pertencer, dar um sentido e uma expressão, um molde próprio, à sua vida é um tormento permanente para o indivíduo comum.  Por que tantas adolescentes escolhem ser mães (sem pensar em maiores consequências) se não pela motivação subconsciente de se alavancarem a um estrato supostamente mais respeitável na escala familiar e social?  Não permanecer à margem, despercebido, está na origem de vários casos de violência extrema, como os recentemente vividos nos Estados Unidos.

Dependência de celulares e similaresTorcidas

Não se trata apenas de ter informação em tempo real.  Integrar-se às redes sociais, tuitar, ter um perfil no Facebook, estar sempre online de olho nas mensagens, mediar continuamente confere ao usuário uma personalidade em crescimento, com potencial, um  rosto reconhecível, portanto.  E nem  é um fenômeno restrito à classe média.  O número de internautas no Brasil  já gira em torno de 85 milhões e há mais de um telefone celular por habitante.

Outras formas de ansiosa resistência ao anonimato convivem contemporaneamente com estas.  Uma delas, que cresce com a globalização e a difusão da comunicação, é fazer parte da torcida de um time de futebol, organizada ou não em uma facção com bandeiras e slogans próprios.  Aqui, claramente se “é”, se pertence a um grupo “exclusivo” e existe um “outro”, os torcedores dos clubes rivais.  Um fenômeno mais recente tem sido caracterizar o “outro” não mais como um simples adversário, mas  como um inimigo.  E ter um inimigo reforça a identidade, solidifica vínculos, corporifica uma personalidade.  “Somos um grupo e nos permitimos ser infantis, livres para transgredir, não precisamos ter regras sobre o que é bom e o que é ruim, sobre o que é moral ou não.” Assim, a violência passa a ser autorizada e coonestada pelo grupo, até nos comportamentos mais selvagens, perversos e covardes, pois é assim que aquela facção da torcida age com os inimigos e não há nenhuma responsabilidade individual, só o orgulho do pertencimento.

Bill Bufford, em seu Entre os vândalos, estudou o comportamento dos torcedores ingleses, famosos por sua violência, e  descreveu assim o prazer de “fazer parte da massa”: “Esta fase da multidão – esta fase muito, muito feliz – durou aproximadamente quatro minutos.  Durante esses minutos, todos, eu inclusive, sentiram o prazer de pertencer, algo semelhante ao prazer de ser estimado ou amado.”  Bufford, que é norte-americano, relaciona a violência nos estádios e nas ruas próximas a uma tendência que se agravou entre os jovens trabalhadores na sociedade britânica,  tradicionalmente muito estratificada e que oferece poucas perspectivas para além de uma vida cinzenta: “Nós esperamos a semana inteira pelos sábados (os dias dos jogos)”, conta um torcedor de facção.  “É a coisa mais importante das nossas vidas.  É uma religião, na verdade.  É essa a importância que tem.  O sábado é nosso dia de culto”.

Igrejas

A ideia de culto remete a um outro caminho de afirmação da identidade, evidente em todo e qualquer bairro periférico de cidade brasileira. Trata-se da adesão às igrejas evangélicas e pentecostais em um ritmo verdadeiramente impressionante, abrangendo já quase um quarto da nossa população.  Nas palavras do professor Marcos Alvito, da Universidade Federal Fluminense, esta multiplica-se, “sobretudo nessas regiões onde grassam com mais força o desemprego, a violência, o estigma da pobreza cotidianamente realimentado pelos meios de comunicação, o preconceito racial ou étnico, a inexistência ou deficiência dos equipamentos públicos, o sistema escolar deteriorado e a precariedade das moradias”.  Onde, portanto,  é mais forte e cotidiano o massacre econômico e psicológico do cidadão desassistido pela ordem social.

Na igreja evangélica, o fiel é acolhido, sente-se reconhecido como pessoa, ganha pertencimento, além de referências morais claras e tranquilizadoras para um mundo que se afigura hostil, em mudanças permanentes e aceleradas, nem sempre bem decodificadas.  Nessa união de fragilizados e desgarrados, aquele gesto de cumprimento pessoal do pastor ao final do culto é uma vivência extremamente gratificante da importância que cada um leva consigo: “Somos irmãos, somos muitos e estamos juntos na boa direção.”

Laços que compreendem, aceitam e propõem um sentido para a vida, as redes de apoio que se formam nas igrejas protegem, conferem suporte de variadas naturezas, inclusive material, ampliam a solidariedade ente os fiéis, abrem muitas vezes oportunidades de emprego, de afetos, de abandono de vícios.  É ainda Alvito quem escreve: “Em áreas degradadas e estigmatizadas, pertencer a uma igreja evangélica eleva o status do fiel perante seus vizinhos e mesmo diante dos empregadores, aumentando a possibilidade de ascensão profissional e relativo sucesso financeiro.”  Passos confortadores rumo à visibilidade.  Não devem surpreender em um país no qual as últimas estatísticas apontam pelo menos 36% da população ainda vivendo em algum nível de precariedade.

Na religião judaica, tem-se como certo que D-us vê a cada um, independentemente de suas conexões virtuais, futebolísticas ou de propagandeados caminhos de salvação.    Claro, isso nem sempre serve de consolo, nem livra, no plano estritamente pessoal, nenhum de nós de momentos e períodos de abatimento e depressão, de não acolhimento, de rejeição mesmo. O princípio é que identidade todos temos e não devemos ceder ao aprisionamento, à escravização do ego, à filosofia do D-us interno, aquela em que a identidade resulta de uma busca inteiramente pessoal.  Não se promove uma existência cheia de sentido sem os outros.  O seu bem-estar só chegará quando, solidária e coletivamente, você trabalhar para melhorar a qualidade da vida à sua volta.  Quando os outros estão em paz, nós também estamos.

Dirão os velhos sábios: “Se D-us mora entre nós, qualquer indivíduo que alcança uma relação próxima com Ele traz necessariamente o resto da comunidade consigo!”

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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