Escrito como uma pintura

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Naufrágios, Contos

Giselda Leirner

São Paulo: Ed. 34, 2011

136 páginas

 

 

O eixo das 14 narrativas que compõem este livro reside na metáfora de afundamentos – os naufrágios – psíquicos e físicos. Os primeiros derivam de lembranças mórbidas, situações constrangedoras, sufocação mental em uma variedade de personagens; os últimos resultam na morte, simples e poderoso ato final da nossa grande comédia.  Em parte, os contos estabelecem certas coordenadas no tratamento da melancolia, da tristeza, incluindo biografias de vidas sofridas, mas todas valiosas nas suas alternâncias entre obscuridade e fama, orfandades e abrigos, encontros e separações. É uma obra que pode envolver seus leitores, a ponto de fazer com que as personagens passem a ser parte do cotidiano de alguns.

Um vocabulário refinado, tecido em impressões do real, com suas imperfeições e seus deslizes, suas ruínas e rescaldos, oferece quadros de força quase fotográfica.  Pela linguagem, às vezes poética ou sonhadora, outras vezes real e pungente, percebem-se tênues fios a embalar criaturas desapegadas de tudo e pessoas hermeticamente ligadas a fatos, cenários e  outras pessoas.

A transmissão de lembranças encravadas na memória de um casal como Claude e Maude (título de um dos contos) revela o que pode ser o estágio da velhice e a percepção do fim.  Na história, um casal de médicos, na casa dos oitenta, está numa estação de águas.  Eles cruzam seus pensamentos e lembranças triviais num diálogo que a narradora capta de um só golpe, como se bebesse de uma torneira aberta, sem parágrafos que separem quem falava o quê. Porque os personagens, marido e mulher, já se confundiam como uma só entidade. Pela dinâmica do diálogo, a vida se jogava neles como os jatos de uma cascata, até que, sem maiores retoques, a narrativa termina. A tendência a que a narrativa se detenha num staccato perene encontra-se em muitas delas.

A sombra de Hanna

A autora reconhece e emprega a força bruta dos contrastes, principalmente entre a luz e a sombra. Um conto, pelo título “De sonhos e sombra”, personifica a zona impalpável que nos acompanharia desde sempre: “Ninguém me conhece. Nem minha dona. Vivo com ela, sem que me veja. Quando nasceu eu já estava ali.” Misteriosa declaração de algo que “enquanto ela existe, existo eu”. Este é um dos contos que incluem personagens judeus: Hanna, cuja sombra a acompanha desde seu nascimento num porão, enquanto a parturiente fugia das perseguições antissemitas na Polônia, e Shendla, a avó de Hanna, que falava com a sombra: “Achavam-na senil, falando sozinha o tempo todo”; Stachek, o pai, aristocrata que se negava a falar o ídish; Marushka, sua esposa e mãe de Hanna.  Até 1939, teciam uma vida normal na Polônia, com planos para o futuro, como qualquer família. A fuga para o Brasil se fez inevitável, com a chegada dos nazistas àquele país, e, no princípio de sua vivência brasileira moraram no bairro paulistano do Bom Retiro  (conhecido como o “bairro judeu” durante o tempo em que judeus moraram lá, hoje é povoado principalmente por pessoas oriundas da Coreia e seus descendentes). Um dos contos mais longos do livro, ali se colocam os imigrantes recém-chegados de um país que passou a ser apenas lembranças, e delas se alimentaram por todo o resto de suas vidas. A sombra de Hanna conta sua história, não diferente de muitas outras, inseridas nas tramas imigratórias, mas re-encarnada num emaranhado de emoções, vivências, confrontos com a morte, a velhice e, finalmente, a solidão. Hanna tornou-se escritora e trechos de sua ficção emergem na narrativa. Depois das lembranças, aquela que fora “bela, com os cabelos vermelhos e os olhos claros”, passara a ser uma figura imersa no sal escuro de sua própria sombra.

Em “O sacrifício”, uma série de mortes lancetou as vidas das duas meninas, gêmeas nascidas numa família de imigrante judeus, oriundos da Bélgica e estabelecidosem São Paulo, “no tempo da Segunda Guerra Mundial”.  Tendo ficado órfãs e sozinhas, foram separadas. Uma delas foi levada para a casa do dono da tecelagem onde o pai trabalhara e a outra, para um convento. O tal industrial resolveu juntar as duas na sua mansão, para o seu próprio proveito. Depois de serem violadas, elas se vingaram. Após o cometido, foram auxiliadas pela própria freira que tinha feito a entrega de uma das meninas em troca de vultosa doação. Um conto que pode passar por trivial à primeira vista, narrando situações constrangedoras engendradas pela guerra e pelo apetite sexual de um tresloucado, pode também ser interpretado por um mural de alegorias. Por este, perpassam a Igreja Católica, a Alemanha dos violentadores nazistas, passível de ser interpretada pelo dono da tecelagem, que passeava com seus cachorros e as gêmeas igualmente acorrentadas, os cães amestrados, como o exército alemão, a perda da identidade judaica…

Sendo pintora e escultora (reconhecida e profusamente premiada no Brasil e no exterior e pertencente a uma família de artistas), Giselda Leirner transfere para a escrita sua intimidade com proporção, jogo de cores e equilíbrio. No contexto literário, seus pincéis passam a ser as palavras. Uma linguagem poética, às vezes até diáfana, nos revela uma técnica quase invisível ao acrescentar minúcias relativas a sons, cores e texturas em diagramação ponderada que envolve personagens e situações. No cômputo geral, os contos em Naufrágios podem ser interpretados como se fossem bordados em ponto de sombra – onde o colorido das linhas na superfície só pode ser apreciado por seu outro lado também, aquele que não é visível para todos, que permanece do outro lado do tecido, na sombra.

Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

 

 

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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