A briga

images (3)Desde sempre, o colégio ensina ao menino as formas e as normas da segunda natureza do seu ser: o conviver com os outros civilizadamente, o tolerar e compreender outras razões, o conversar com os outros. Lá também, entretanto, fica o menino sabendo que deve estar preparado para o confronto, quando falha o entendimento, o confronto físico que a dignidade às vezes exige.

O colégio faz a forração externa das pessoas, tão decisiva nas apresentações da vida. É certo que o estofo mais interno vem de casa, já chega feito no colégio, o menino menos ou mais inseguro, tenso, alegre ou melancólico, em parte feito pela própria natureza, pelos genes dos pais, alto ou baixo, gordo ou magro, belo ou não. O colégio faz todavia um complemento valioso, capaz de alterar o destino das pessoas no mundo, para cima ou para baixo, minorando ou agravando fraquezas interiores do próprio menino. O colégio forma as aparências e as eloquências, ensina as leis da convivência e da civilização: conflitos devem resolvidos pela arbitragem da autoridade; mas ensina também regras próprias da integridade e da honradez: é feio chamar o inspetor para se livrar de uma agressão; como é feio ter medo e fugir da briga, do duelo, quando a dignidade é convocada.

Isso já era assim nos tempos dos mil-réis. Arthur e Agenor, colegas de sala, amigos de todo dia no Colégio Pitanga, na Avenida Copacabana em frente à Serzedelo Correa, tinham uma briga aprazada. Tudo porque, no handebol do recreio, Agenor, que era franzino e nervoso, tinha posto a perna no caminho de Arthur, que era grandalhão e vinha em desabalada corrida com a bola. O tropeço inevitável deu numa queda ruidosa e esparramada de Arthur que fez tremer o terreiro, seguida naturalmente de um brado estentóreo desferido pela massa aterrada de Arthur em direção a Agenor: Filho da Puta! Em expressão sonora e escandida, escutada por toda a população do colégio. Coisa séria.

O jogo continuou, Arthur levantou-se sacudindo a poeira, Agenor fez que não se importou. Só que ambos sabiam da gravidade e não se falaram mais durante o resto do dia. E no dia seguinte, na primeira hora, quando as filas estavam se formando para o ingresso nas salas, Agenor chegou perto e disse baixinho, mas imperioso: “Retira aquilo de ontem.” Arthur pretendeu desentender, voltando-se para outro lado, mas foi seguro pela manga da túnica: “Retira!”

“Que é isso, cara, não estou entendendo nada, deixa isso pra lá…”

Outro repelão mais forte e a ameaça firme: “Se não retirar, vai apanhar porrada!”

Arthur sentiu então o grave esfriamento interior. Tinha o dobro da massa do outro, mas lhe faltava aquela rijeza de energia e de propósito que lhe apertara o braço. Teve que olhar na cara de Agenor e viu o vinco pronunciado entre os olhos. O sangue refluiu na sua face gorda e a resposta atravancou-se-lhe na língua: “Vou pensar no assunto.”

“Pois pense bem; dou-lhe até sexta-feira; se não retirar, vai ter porrada na saída.”

A expectativa

Arthur nunca tinha brigado; era respeitado naquele porte imenso e no jeito bonançoso de levar os atritos. Agora era diferente, um desafio de honra; afastou-se sentindo uma ligeira debilidade nas pernas e uma tensão que lhe dominaria completamente o espírito dali, terça-feira, até o dia aprazado. Conhecia bem Agenor porque eram amigos: sabia da tenacidade daquela alma e daquele corpo, que era leve, fino, mas temperado de aço, sabia jiu-jitsu, sabia brigar, contava tantos episódios da sua destreza e da sua coragem, no ano seguinte ia para o Colégio Militar e depois para as Agulhas Negras, era ele quem trazia para a turma as notícias das vitórias da FEB na Itália.

A mãe de Agenor era viúva, o marido morrera tuberculoso sem deixar nada, ela havia sustentado os filhos com denodo e muito esforço; o mais velho já estava na Escola Naval, para grande orgulho da casa. A casa era um apartamento pequeno em Copacabana, na Barão de Ipanema, onde dona Dinah costurava profissionalmente, com uma ajudante. Tinha alguma beleza nos olhos e no corpo, e ultimamente aceitara a proteção de um alto funcionário do Ministério da Justiça, que a visitava pela manhã, quando os meninos estavam na escola. Apesar do cuidado da mãe, Agenor vira duas vezes aquele homem que era dito procurador que vinha trazer o dinheiro da pensão deixada pelo pai. Ia fazer doze anos e tinha já um chamamento vindo do corpo feminino da mãe, cujas formas entrevia nos dias quentes, quando ela se vestia com um panejamento fino. Depois daquele homem surgiu na vida da mãe a amiga Rosélia, desquitada e bela, com quem passou a sair, jantar, ir ao cinema, numa vida muito menos restrita do que os anos difíceis de antes. Agenor se incomodava, aquilo era um espinho na alma, tinha de tolerar o que era intolerável, a mãe era o centro afetivo absoluto da sua vida, queria comentar aquela mudança de hábitos com o irmão e não tinha coragem; ademais, o garboso naval parecia não se importar.

Pois o problema de Arthur era o medo; chegara a ensaiar uma conversa aconselhadora com o pai e ouviu uma risada: com aquele corpanzil era só ele se jogar em cima do outro; esmagava. Mas o medo não tinha lógica, tinha um automatismo que disparava a todo momento um alarme no pensamento e ele fracassava nas tentativas de eludir o assunto. Agenor sabia brigar, aí estava. O medo, mas também a honra: poderia ter facilmente retirado o xingamento se tivesse recebido um pedido, Agenor era amigo, claro, mas aquela ameaça, naquele tom de duelo, mexia com a honra, mudava a feição, não podia mais retirar, e a sexta-feira chegava, o colégio todo já sabia, Clecy, com certeza, com certeza sabia e aguardava.

De quinta para sexta, Arthur não conseguiu dormir, imaginando hipóteses de luta; se conseguisse se atracar, derrubava o outro, mas Agenor era ágil, no pular, no desvencilhar-se e acertar socos duros na cara dele. O colégio se inflamara na expectativa, Agenor cuidara de aguçar a excitação, relatando façanhas recentes em que enfrentara até um moleque de navalha, chamando todos ao espetáculo da surra que ia dar naquele bunda-mole; a eletrização percorria o circuito e chegava de volta a Arthur com potencial acrescido. A visão do vexame impregnou-lhe a mente em definitivo: Clecy assistiria, no meio de toda a turma, ao espetáculo da sua desmoralização.

Na manhã de sexta esteve pálido e ensimesmado o tempo todo, esperando a hora do patíbulo que teria de enfrentar ao meio-dia: fugir seria a desonra, ruína total.

O inesperado

A hora soou e Arthur não teve pressa em sair da sala, arrumando a pasta, observou atento Agenor que saiu na frente de cabeça erguida. Suou frio, pegou a mala e caminhou lentamente para o portão. Tinha a preferência dos colegas, era alegre e simples por natureza, chegava a ser doce na sua desafetação, era bom aluno e jamais se gabara de suas notas; e não era bom em mais nada, que não em sua afável bonomia. Ouvia as vozes no caminho de saída: vai e arrasa logo, arrebenta aquele fanfarrão, vai que é sopa.

Foi. Transpôs o portão e viu o inimigo parado na calçada, a uns sete metros, esperando calmo, de braços cruzados. Em volta, a turma rodeando o espaço aberto para o confronto. Dentro dele, o demônio do medo fraquejando-lhe as pernas, descorando ainda mais sua palidez. Foi então que, naquele décimo de segundo, viu Clecy na roda dos alunos, seus olhos verdes postos sobre ele, era das poucas meninas que assistiam, estava ali por ele, evidente, por ele que procurava sempre estar do lado dela, querendo oferecer sempre alguma espécie de favor e de carinho, e ela se deixando contemplar com meneios femininos.

A visão de Clecy tonificou-lhe o coração com uma centelha de alta voltagem; Arthur não viu nem pensou mais nada: jogou a pasta no chão, inspirou um ar energizante e partiu com arrebatamento total para cima de Agenor; ia trombar como um touro.

Deu-se então o inesperado sem que Arthur o percebesse no primeiro instante, enquanto disparava cego para cima do contendor. Agenor, repentinamente, diante daquela fúria animal e volumosa que se arrojava sobre ele, virou as costas sem titubear e desabalou em fuga, atravessando  arriscadamente a Avenida Copacabana e parando do outro lado, na Praça Serzedelo, parando e arfando, olhando esgazeado para o colégio e a turma. Só então, Arthur atinou com o sucedido e compreendeu que havia ganho a briga. Parou também, ofegante do esforço e da emoção, e abriu um sorriso de alívio. Ficou assim alguns segundos contemplando o derrotado amesquinhado de vergonha do outro lado da rua. Relaxou, respirou engrandecido mais alguns segundos e, engolfado nesse engrandecimento, gritou para o outro:

“Ô, cara, tá bem; eu retiro aquilo que disse na terça-feira!”

 Boletim nº 142 – maio/junho de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar