Uma viagem entre dois mundos

Nem lá nem cá (Nisht ahin nisht aher)

Célia Igel Teitelbaum

Ed. Annablume

311 págs.

 

A voz interior, dilacerada, impregna de tal forma o texto de Célia Igel Teitelbaum que o leitor prende a respiração ao acompanhá-lo. Prosa poética, memória, poesia – este é um livro polissêmico que ora se mostra doloroso e íntimo, ora remete à memória coletiva judaica (pronta para ser compartilhada). Há na narrativa literária um des-ocultamento que à primeira vista parece inscrever-se na autoficção – uma forma de expressão contemporânea – inclusive no que esta tem de mais aparentemente exibicionista. À medida que percorre o texto, porém, esse mesmo leitor entenderá que não está tomando conhecimento de fatos, mas sim percorrendo, com a autora, uma trajetória que é, na verdade, uma busca incessante. Busca que não ocorre porque a escritora abrigue a ilusão de encontrar algum centro de estabilidade, mas porque ela constitui, em si mesma, um ponto de equilíbrio dentro de um universo precário, informado pelo sentimento permanente de exílio.

Quis ser feliz. Mas não agora. Agora não seria adequado. Seria um desperdício.” Quando seria adequado? É preciso mergulhar no texto para descobrir que o caminho, como quis o poeta espanhol, só se faz ao caminhar. Da escrita e da imaginação dependem a sanidade, e a autora precisa, para salvar-se, colocar-se por inteiro diante da página em branco. Digo autora, mas o impulso confessional pertence ao âmbito da personagem. Na melhor tradição talmudística, em que as respostas valem tanto quanto as perguntas, o que importa é a reflexão. Aqui, o leitor acompanha uma sensibilidade que caminha num fio esticado no ar, em risco de esborrachar-se no chão a qualquer momento. Ausência e presença, vida erótica, paixão: como dar conta de tudo isso? A escrita vai e volta, tentando. Artista é quem transforma a massa bruta em matéria que produz encantamento, e é disso que se trata. O leitor logo descobre que não haverá fim para a procura. Consolo, sim, pode haver, mas este não dura muito, pois tampouco há certezas (“a solidão é quase uma janela fechada sem ar”, diz o texto).

A preposição “entre”

A falta faz parte da herança judaica, e não pode ser superada. Ela é tamanha, e tão visceral, que Célia proclama, a certa altura, a saudade de um grilo que nunca viu. Não é preciso ter ido a Jerusalém para sentir a nostalgia do Templo destruído. Os judeus sabem, ou intuem, que há um vazio que não se preenche com a realidade, e isso vai do pessoal ao geopolítico (que aparece nas entrelinhas). “Eu busco o dia de ontem, o dia que já passou. Eu busco o Nechtigue Tug, a raiz do passado para encontrar o presente”. O movimento é infinito, tal como ensinaram os nossos sábios, e o ser humano deve unir-se à grande corrente.

Nesse universo em que a preposição “entre” é essencial, pois o pertencimento nunca é pleno, a linguagem soa como um grito – desabusado – que reúne dois exílios, o de um povo e o pessoal; deste faz parte a repressão dos instintos e das formas de dizer o presente. O passado é outro território: o relato da autora percorre a infância, os jantares e almoços em família, as lojas dos imigrantes judeus no interior paulista, os preceitos seculares que as pessoas lembram em meio às tarefas do cotidiano, falando português ou ídish. Tudo o que é corriqueiro, trivial, também é seu oposto, contudo, pois nunca cessa a reflexão, e a angústia cobre os gestos. A existência de um Criador onisciente e de uma Jerusalém eterna onde convivem o terreno e o celestial não bastam para amainar os dramas do mundo conflituado dos filhos de Israel – ao mesmo tempo abençoados e amaldiçoados! O conhecimento e a dor convivem. Quem não se sente à vontade nem lá nem cá admite a impossibilidade da felicidade, mero conceito jamais alcançado.

A autora usa suas obsessões, entre elas o sexo, o erotismo, as solicitações do corpo, para produzir uma colagem, como se fosse pintora surrealista a burilar seu texto fragmentado. “Alef, beit, guimel, dalet/o vocabulário sagrado/junto do seu sexo em meu paladar.” O livro é tributário, aliás, de outra ideia do surrealismo, a libertação dos instintos. Como se tudo fosse possível diante do espaço vazio que se abre à escrita. Ou à pintura. Filha de judeus poloneses, Célia Igel Teitelbaum, formada em pedagogia, ex-diretora e professora de escola judaica em São Paulo, estudou desenho em Hamburgo e já expôs no Brasil, na Alemanha, onde viveu, e nos Estados Unidos.  Antes desse livro, ela publicou a obra poética Passagem-Paisagem (Massao Ohno, 1983).

Onde está você, aí está a Terra Prometida – diz a personagem/autora ao foco de sua paixão, um homem que só no final do livro é nomeado. “Sinto daqui de São Paulo o calor do seu deserto ao meio-dia. Leve, sóbrio e ardente (o deserto é o lugar onde mais te desejo amar). ‘Estás úmida?’ me perguntavas por telefone, de Jerusalém a São Paulo”.   Se a busca de si mesma é, como todas as buscas desse tipo, fadada ao insucesso, o erotismo é danação e salvação.  A autora vai à Bíblia, aos cânticos de Salomão, e faz o salto ao prosaico, falando dos bilhetinhos que o homem amado deixou na porta de uma casa em Jerusalém (“sinto que meu amor profano é sagrado”). 

O sagrado e o profano

Abraça-me, meu amor, como um menino que segura a Torah pela primeira vez! Nada, ninguém, além das luzes, nada acompanhou o meu escuro à noite. Somente você”. Célia Igel se coloca, com trechos como este, na mesma prateleira imaginária de outros autores judeus que buscaram em vão uma impossível unidade, um preenchimento frustrado; e aqui me lembro do brasileiro Samuel Rawet e sua dor, os textos pungentes. Entre o mundo externo e o interno (“minha alegria está fora de mim, e isso me assusta”), entre Israel e Brasil, ela anseia por um passado mítico que também é futuro ao qual não se chega (assim como o messias jamais chega…). A poesia é ao mesmo tempo voo e chão: o sonho concreto a leva à cena da mãe fazendo hónig lêicach, o bolo de mel. Que bom é não ter perdido a lembrança do mel, escreve. Em momentos como esse, a lembrança é de Clarice Lispector, com sua capacidade de misturar o sublime às considerações sobre o cotidiano. A memória é âncora para quem não tem território definitivo.

As recordações que desfilam diante do leitor não são produzidas pelo acaso.  Célia Igel conhece seu ofício e toma para si a liberdade de suceder uma página prosaica com uma página de associações oníricas. Este é um romance, se é que assim se pode chamá-lo, que apresenta aquilo que a professora Yudith Rosenbaum chama, no prefácio, de “olhar deslocado em direção a um mundo que se oferece aos sentidos e à alma”. Não é uma oferta apenas metafórica, ou romântica. A dualidade se manifesta, sagrado e profano se mesclam – nas madrugadas frias da Terra Prometida, as nádegas da mulher roçam “a anca adormecida” do homem amado que respira o Sopro Divino.

Os ecos da sensibilidade não desaparecem do caminho tortuoso, e nisso o texto também me remete, em certos momentos, a um dos mais belos personagens do escritor israelense David Grossman, o menino Momik, filho de sobreviventes do Holocausto (no livro Ver: Amor), que só pela vertigem da escrita se salva da psicose.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

 

Heliete Vaitsman

Jornalista, é colaboradora do Boletim ASA.

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