Pertencimento e missão

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Francesco Lotoro

É mais comum do que se imagina. Ser judeu, sentir-se como tal, ter um insight que une  uma pessoa em um elo definitivo com o  judaísmo acontece com frequência e de diversas maneiras. Tive um amigo japonês, M. Hidaka, infelizmente falecido, que se sentia de tal modo atraído pelo judaísmo que acreditava ter sido judeu em uma outra encarnação. Aqui no Rio, muitos conhecem o caso de A.P., negro, que trabalhava em um edifício na Avenida Princesa Isabel e que sentia, como me disse, “tamanha afinidade com o povo judeu” que se desligou até mesmo de sua família atrás de uma difícil conversão que o levou, inclusive, a Israel. E não é este o espírito que anima os nossos anussim em busca de seu reconhecimento, do sentimento de pertencer?

Por pertencer, dispersaram-se com a Inquisição ibérica os judeus pelos mais diversos e recônditos cantos do Mediterrâneo, onde se resguardaram com novos costumes.  Na pequena cidade italiana de Barletta, junto ao Mar Adriático, de população inteiramente católica, um pianista e musicista, Francesco Lotoro, hoje com 48 anos, teve muito jovem esse sentimento de pertencimento – talvez a uma família longinquamente perseguida na Espanha – , no que chamou de iluminação.  Fenômeno instigado adicionalmente por sua participação em um concurso de piano em Tel Aviv, em 1990, ao executar uma composição de Gideon Klein, composta no campo de Theresienstadt (Terezin),  onde os nazistas, por um certo tempo, concentravam artistas e intelectuais. A conversão veio em 2004, juntamente com o seu casamento com Grazia Tiritiello  – os dois únicos judeus de Barletta –, sua colaboradora no que Lotoro define, com olhar agitado, como a sua missão.

48 CD’s

Existia muita criatividade nos campos.  E a criatividade era uma forma de resistência: música escrita onde fosse possível, nos papéis mais diversos, jornais, pedaços de revistas, cartões postais, até em papel higiênico, como a do tcheco Rudolf Karel.  A missão de Lotoro é, usando seus próprios recursos, trazer esses registros à tona, pesquisados em museus, bibliotecas, livrarias, coleções particulares, arquivos, fotocópias, diários, em mais de uma dúzia de países.  “É preciso devolver a vida a esses compositores que queriam criar custasse o que custasse para permanecer como seres humanos. Eu não posso parar, porque se parar, a pesquisa se interrompe automaticamente.  E quantas obras existem que ainda não foram resgatadas?”

Há de tudo nessas composições: música clássica, dodecafônica, sinfonias, sonatas, canções, volteios de jazz, óperas, obras tradicionais ou religiosas, para corais. Até alegres peças de cabaré.  Segundo Lotoro, “a diferença da música escrita em liberdade é pouco perceptível.  Ao compor, um músico, esteja em sua casa ou na prisão, trabalha isolado.  Mas, na música dos campos (e do cárcere), há uma certa angústia, uma urgência, uma necessidade de economizar espaço, um medo de não conseguir terminar a tempo”.

Partindo inicialmente de investigações na  biblioteca municipal de Terezin, na República Tcheca, e em Westerbork, um campo de trânsito no nordeste da Holanda, Lotoro nunca cessou de juntar material, tendo  levantado  pelo menos 4 mil partituras, das quais um quarto já transcritas para o computador. Mas, o número de itens por decodificar e decifrar é ainda bem maior.  Inúmeros concertos foram realizados, com o apoio de um grupo  abnegado de voluntários, músicos também.  Além de Klein e Karel, já mencionados, destacam-se trabalhos de Viktor Ullmann, que escreveu vinte obras em menos de dois anos, inclusive a ópera O Imperador de Atlantis, antes de ser enviado a Auschwitz, e de Karel Berman, sobrevivente deste mesmo campo da morte.  Lotoro finalizou e gravou a 8ª Sinfonia para piano e coro masculino de Erwin Schulhoff, compositor tcheco que morreu de tuberculose aos 48 anos em um campo de concentração na Baviera.  Sempre perseguido, Schulhoff, um homem de esquerda, havia, em 1932, criado uma versão musical para o Manifesto Comunista.

Chamados KZ – Konzentrationslager – pelos alemães, os campos vieram a batizar o mais alentado trabalho  do músico judeu de Barletta: uma edição de 48 CD’s, intitulada KZMusik, contendo o grosso do material coletado e decodificado dos campos de prisioneiros da Europa, África do Norte e mesmo Ásia, durante a Segunda Guerra Mundial.  Inclui, portanto, composições de quakers, Testemunhas de Jeová, presos políticos, do povo roma, de soldados americanos aprisionados pelos japoneses.  O selo distribuidor é Musikstrasse (Roma)-Membran (Hamburgo)-Naxos (EUA).

“É preciso se apressar”

Dá para entender a agitação em que hoje  vive Lotoro.  Pois sua pesquisa o levou a ir além do universo judaico, a reunir toda a música prisional  eventualmente dispersa, tudo aquilo composto sob condições de restrição de liberdade, dos gulags soviéticos aos campos das antigas colônias francesas, da Manchúria até os campos de prisioneiros onde os aliados confinavam soldados e oficiais do Eixo.  “É importante, muito importante!  É preciso se apressar, reunir toda a música!”, diz.  Uma missão infindável, sem data para terminar, sem conclusão previsível, mas com o eixo comum da liberdade como anseio e fonte de inspiração.

Nisso ele se torna inconfundivelmente judeu.  Pois não é o Pessach  uma de nossas festas maiores, a celebração da nossa consagração como uma gente livre, resgatada da servidão no Egito, movida a cânticos que exaltam a liberdade?  Há música, há criatividade, há o vislumbre de um tempo de opressão deixado para trás.  E há a persistência na preservação da narrativa e da memória, da cultura e da arte.  Traço marcante de nossa tradição.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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