Os primos de São Cristóvão

Praia de Copacabana nos anos 1930

Praia de Copacabana nos anos 1930

O Rio de eu menino era dividido em duas cidades: Copacabana e Tijuca, nesta ordem. O Centro não contava porque as pessoas não moravam lá, iam fazer compras ou trabalhar, não tinha menino, ficava bem no Tabuleiro da Baiana, onde os bondes faziam a volta e retornavam para as suas freguesias opostas, trilhando caminhos sempre à beira do mar ou dentro dos vales entre as montanhas. Havia os subúrbios, mais distantes, que eram acessíveis pelo trem; mas eram subúrbios, não cidades. Maria Vita, nossa babá, tinha a mãe e uma irmã que moravam no Méier, um dos primeiros subúrbios.

Copacabana era mais importante, era a nossa cidade, mais moderna e arejada pela brisa refrescante, mais ousada no ser, e mais bela, sem dúvida, o colar de pérolas do Rio. Tínhamos primos-irmãos na Tijuca, na Rua Homem de Melo, e rara vez os visitávamos; eles vinham sempre às nossas casas, os avós moravam na Rua Barroso e concentravam a família nos domingos. A Tijuca era uma viagem. Tínhamos primos também no Grajaú, uma parte remota da Tijuca; esses jamais, uma ou duas vezes fomos até eles. E havia primos ainda em São Cristóvão, também parte da Tijuca, porém com certa personalidade porque era um bairro que tinha História, tinha a Quinta da Boa Vista, os quartéis enormes. Esses primos, por exemplo, moravam numa chácara antiga e arborizada, com horta própria, onde perambulavam galinhas, cachorros e até uma cabra.

Livros

Um desses primos de São Cristóvão,  Carlos, vinha com mais frequência à nossa casa, e era diferente, era versado em livros, sabia de História do Mundo, Napoleão, suas batalhas, lia Cesare Cantu; sabia da História do Brasil e falava do general Canabarro, chefe farroupilha que dava nome à rua da chácara. Era o mais moço de onze irmãos e irmãs de um clã muito forte e unido e, além da História, iniciava-nos, a mim e a meu irmão, no campo da Literatura, desconhecido. Passávamos uma tarde inteira em nosso quarto, depois da praia e do almoço, estirados nas camas, ele a nos narrar A Moreninha, ou as Memórias de um Sargento de Milícias, ou as Aventuras do Barão de ‘Mucausen’, era assim que ele pronunciava. Falava mal dos judeus, era coisa do seu clã. Referia em tom maior Os Protocolos dos Sábios de Sião, nenhuma ideia tínhamos nós, mas aquilo não nos repercutia tanto como a História e a Literatura: nossos vizinhos, desde sempre nossos melhores amigos da rua, eram dois irmãos judeus com nossas idades e nossos gostos, que não tinham nada a ver com os sábios de Sião.

Uma vez entramos pela noite ouvindo dele Os Três Mosqueteiros, oh, noite adentro. E tinha continuação, ele disse, para outro dia, O Visconde de Bragelonne, O Colar da Rainha. Carlos lia livros, era um outro mundo para nós, habituados ao gibi e ao Globo Juvenil. Um outro mundo interessante; e importante, trazia junto todo um outro modo de ser que nós começamos a perceber.

Para ele, o inusitado era a praia que nós dominávamos e o mar onde ele entrava medroso de rir para nós. Havia já o interesse pelas meninas, de maiô, era Copacabana, ele conhecia pouco, a valorização das curvas e das carnações lisas de mulher, amorenadas do sol, comentava-se. Vez por outra, era raro, reconhecia-se uma tijucana ali na areia pela alvura da pele, que a mim fazia apelos especiais exatamente pela preciosidade.

Outras vivências nossas ele conhecia, claro, o cinema, o sorvete, o footing, os irmãos iam muitas vezes à Praça Saens Peña, o ponto mais denso da Tijuca. O futebol era também do mundo dele; só que diferente: era vascaíno, coisa que não existia em Copacabana, só os portugueses donos de botequins. No clã, os mais velhos, mormente as moças, cuidavam dos meninos, ele era o menor. Os procedimentos eram rígidos, vinham do pai, engenheiro ferroviário bravo e disciplinado, praticamente aposentado, que era o dono da biblioteca, o dono da casa e da mulher e dos filhos todos. Mas os princípios eram retransmitidos em cadeia a partir do filho primeiro, Octavio, um chefe político integralista, que tinha ficado na cadeia quase uns dois anos e se dizia na família que havia apanhado muito. Mas conservava a rijeza e o penacho. Carlos sabia muito de Plínio Salgado por intermédio dele.

Uma das moças irmãs um dia adoeceu gravemente de tuberculose renal e o clã mobilizou-se por inteiro para salvá-la. Acabou falecendo, coitada – não havia antibiótico – , depois de quase um ano de luta e sofrimento. O fato é que, por conta dessa tragédia, os dois meninos mais moços, Carlos e Marcos, que tinha três anos mais que ele, passaram seis meses hospedados lá em casa, frequentando o nosso colégio, que era o Mallet Soares. Devo a eles, e a essa temporada, o meu gosto principal de vida, todo o meu interesse pela Literatura, pela História e pela Política, eu que antes só pensava em Ciência e Matemática e achava tudo o mais perfumaria tão cheirosa quanto inútil. O Tesouro da Juventude, parado ali em 18 volumes, intocados havia anos numa estantezinha, foi aberto, folheado, muito lido e explicado, eles sabiam tudo, os dois, até das gravuras de Gustave Doré que ilustravam o Don Quixote. Absolutamente marcante.

Por isso, e por outros conhecimentos que se iam revelando, foram para mim os seis meses de maior alargamento e iluminação da visão de mundo e de gente que trago até hoje. Refinamentos desta visão busquei depois, e alcancei alguns muito importantes por minha conta; mas a abertura da fresta e da luz deu-se naquele tempo de convivência com os dois primos de São Cristóvão que liam livros.

Marcos e Trani

Marcos era um pouquinho mais adiantado e sabia de mais coisas que não noticiava. Não sei se passava para Carlos, e de que forma passava, era de longe o irmão preferido, muito ligados os dois, de forma tocante para nós. Marcos era já um moço, um moço delicado, de estatura fina e alongada, de cabelos cacheados e nariz afilado, de olhos mansos, mas espertos e luminosos. A Trani sentiu logo aquele encanto.

Era a festa de aniversário de quinze anos dela, da Trani, a irmã de Josef, da nossa turma da Rua Toneleros, nós fomos convidados. Havia um corpo de mulher naquela menina de quinze anos; desenvolvida de seios e de pernas, tinha uma boca saborosa e uns olhos verdes ardentes. Quando a viu, Marcos se apaixonou, era assim, de arrebatamentos, discreto, sim, educado, mas apaixonado. Dançou com ela, não era um especialista, mas tinha a sensibilidade da música e do ritmo, teve coragem, ousou e agradou, ela gostou; ela que dançava muito bem, era sempre celebrada, ela gostou. E também se apaixonou. E enovelou-se a partir dali um enternecimento e um drama.

O pai da Trani era também um dono consciente; um industrial, dono de uma fábrica de colas, vernizes e tintas para sapatos; dono da maior e melhor casa da rua, na esquina com República do Peru, dono da família, a mulher e três filhos (havia uma outra moça, Freida, já casada, mas ainda obediente ao pai); dono dos empregados, obviamente. Era judeu, embora nós nunca pensássemos nisso na convivência com Josef e Trani. E era um dono cuidadoso com o futuro dos filhos, e o casamento que tinha em mente para a Trani era bem outro, dentro da comunidade. Então, pronto: soube daquilo, o namoro de portão prosperava e era visto, soube e veio a ordem, a proibição, a reclusão pela insistência dela.

E a desolação para Marcos, espessa, escura, compartilhada por Carlos e todos nós, que queríamos ver a luz do namoro, todos da turma, inclusive Josef, que abria caminhos de comunicação. Marcos fez uma carta e um poema, a rua toda conheceu e admirou, era inusitado e belo aquele sentimento, era nobre.

E nobre também a tristeza funda da Trani. Chorou muito, mas não tinha jeito; só saía para o colégio, de ônibus na porta, ou acompanhada da mãe para outras precisões de muita necessidade.

E findou-se; gota a gota findou-se aquele amor forte, puro e jovem. A irmã doente morreu em São Cristóvão, e o clã todo reclamou de volta os dois irmãos. Fui várias vezes à chácara, depois; eles nunca mais voltaram a Copacabana.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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