Olhando no espelho, após as eleições

Iehimovitch, Lapid, Livni, Netaniahu, Ishai e Bennett

Iehimovitch, Lapid, Livni, Netaniahu, Ishai e Bennett

A despeito da tentação de ignorar a realidade da nova Knesset e a sua composição e de retornar às lutas do dia a dia, a esquerda israelense precisa analisar cuidadosamente os resultados das eleições de 22 de janeiro  porque eles contêm lições importantes.
O fracasso dos “protestos sociais”, no verão de 2011, por não produzirem alternativas políticas organizadas deixou o sistema político israelense estacionado, paralisado e irrelevante. O espetáculo de veteranas forças políticas dançando a dança das cadeiras, seja  rachando, seja se coligando, seja abandonando aliados ou  negociando com inimigos, enviou ao público uma clara mensagem de que, como sempre, é tudo negócio, e de que o establishment político está se lixando para os cidadãos.  O público respondeu com indiferença  às eleições, vistas quase como um procedimento  formal despido de qualquer potencial para mudar ou influir em suas vidas.

A maioria dos partidos políticos usou ativistas pagos em vez de voluntários.  As ruas tinham pouca propaganda, e poucos carros exibiam adesivos.  As eleições se transferiram da praça pública para a internet, a mídia e os gigantescos outdoors expostos nas principais autoestradas, talvez ilustrando a total desconexão entre o establishment e o povo nas ruas.  Parece que o eleitor israelense não estava ansioso para declarar a sua posição política em público.  Um percentual significativo de eleitores recusou-se a cooperar com  as pesquisas e parecia não compreender o argumento do voto  no “mal menor”.

Outra tendência significativa nas recentes eleições foi a privatização da política. O público internalizou a ideia de que política é um produto de consumo,  abalando a abordagem tradicional de política como uma posição que se assume de acordo com a identidade, o senso de pertencimento ou o modo de influir na realidade. O eleitor israelense não se sentiu pertencente a este ou àquele partido ou como objeto de interesse político de algum partido. Por isso, foi tão fácil para ele vagar de um partido a outro. Partidos políticos tornaram-se apenas mais um produto ocasional na prateleira, e a escolha entre Lapid, Livni, Bennett e Iehimovitch foi exatamente igual à escolha entre Pepsi e Coca-Cola: quem fizesse a melhor oferta, quem tivesse a embalagem  mais atraente e quem fizesse a campanha mais bem sucedida ganharia o apoio do eleitor. Essa tendência se manifestou no alto índice de eleitores indecisos até o último minuto:  cerca de 20% ainda não haviam decidido uma semana antes das eleições e cerca de 6% só tomaram a decisão no contato com as urnas.  Esse comportamento de consumidor é uma expressão da despolitização maciça  entre os eleitores judeus, que permite um alto grau de mobilidade entre os  partidos sionistas.

Netaniahu após as eleições, Foto Ofer Amram

Além dos que, por falta de entusiasmo, esperança ou interesse, a duras penas foram votar, muitos ignoraram completamente as eleições.  Os que se abstiveram podem ser divididos em três grupos principais: mizrahis (judeus originários de países árabes) pobres, russos e cidadãos palestinos de Israel.

O comparecimento em tradicionais redutos do Likud sofreu uma queda significativa. A decepção com as políticas de Netaniahu, no eleitorado mizrahi dos bairros pobres e das cidades em desenvolvimento, não encontrou expressão em nenhum dos partidos existentes, e não há alternativa política para os mizrahis não religiosos (ou seja, aqueles que não são atraídos pelo Shas ou que já se decepcionaram com esse partido).

A comunidade russa também não compareceu. A união  precipitada, técnica, do  Likud com o Israel Beiteinu deixou o eleitorado russo sem um sentido de pertencimento ou identidade com qualquer organismo político existente. Dado que o Israel Beiteinu é um one-man show e que Avigdor Liberman foi amplamente desprezado durante a campanha do Likud Beiteinu, é possível compreender a indiferença entre os simpatizantes não ideológicos e antes entusiasmados de Liberman. Os que o apoiavam por causa  de suas posições de direita puderam votar pela união com o Likud. Mas os que o apoiavam por  um sentido de identidade étnico-comunitária russa acabaram ficando sem um partido político.

O baixo comparecimento às urnas em cidades judaicas do sul de Israel, fortemente atingidas por foguetes palestinos (54% em Sderot, 57% em Ashquelon, 57% em Beersheva – cerca de 15% menos do que nas eleições anteriores) expressa os sentimentos das classes populares judaicas e uma clara insatisfação com a miniguerra que serviu como inauguração da campanha eleitoral. A direita política ainda venceu em todas essas cidades, mas levou um tranco em números absolutos e perdeu muito do seu peso nos resultados finais.

Esses resultados demonstram a continuada contradição entre as duas bandeiras da direita israelense: o neoliberalismo e o nacionalismo estão começando a cobrar  seu preço dos partidos governistas. Algumas das dificuldades de eleitores tradicionais do Likud e do Israel Beiteinu são causadas por aceleradas políticas neoliberais que  desmontam as instituições de bem-estar e a solidariedade social, ameaçando o projeto nacionalista.  Nas recentes eleições, essa erosão se expressou no abandono do Likud e do Israel Beiteinu, que perderam doze cadeiras na Knesset.

Embora a participação eleitoral dos cidadãos palestinos de Israel tenha tido um ligeiro aumento, alguns líderes palestinos ficaram muito satisfeitos com o fato de que  a constante redução no número de eleitores desse setor da população tenha sido freada.  A queda vinha sendo contínua na participação eleitoral e no envolvimento político entre esses cidadãos desde a grande decepção provocada pelo governo Barak em 1999 e a morte de treze manifestantes palestinos nos eventos de outubro de 2000.

Entre os cidadãos palestinos de Israel há certamente uma crítica a  qualquer envolvimento em política auspiciada pelo regime sionista e pela ocupação. Paralelamente, criticam-se também os partidos árabes e a maneira como estes se comportam. Mas, além disso, uma grande parte do público árabe não participa das eleições por uma razão muito mais simples – eles não veem de que modo o ato de votar pode mudar a realidade de opressão e exclusão. O reduzido aumento na participação foi insuficiente para aumentar o número de cadeiras de representantes do público árabe na Knesset, que se limitaram a onze distribuídas por três partidos.

Quem compareceu em massa às urnas foram a classe média e as elites ashquenazis. A inexistência de uma imaginária tendência desses grupos à esquerda ficou claramente demonstrada pela votação dada a Iair Lapid.  Alguns dos que votaram nele estavam explicitamente interessados em punir o governo, ao passo que muitos outros o fizeram por saber que ele iria aderir à coalisão com Netaniahu.  São eleitores que não percebem uma mensagem diferente da de Netaniahu no que concerne a um acordo com os palestinos.  Eles são um resultado direto dos slogans “não temos um parceiro” e “tentamos de tudo e não há mais nada que possamos fazer” usados por Ehud Barak e seu governo de esquerda sionista após o fracasso de Camp David no verão de 2000.

Alguns dos eleitores de Lapid foram aqueles jovens, filhos e filhas da classe média, que protestaram em grande número durante o verão de 2011.  Mas, em vez de entusiasmo revolucionário e uma agenda de esquerda, o que os moveu foi o desejo de “dar-se bem” face a uma realidade social que se deteriora e à crescente dificuldade de se capitalizar da mesma forma que seus pais o fizeram. Eles votaram em Lapid devido à agenda liberal dele, agenda que considera  preocupações apenas imediatas, e não de  uma forma crítica e  abrangente.

Naftali Bennett, o novo líder do movimento sionista religioso, rico empresário  da área hi-tech, atraiu eleitores da classe média não necessariamente religiosos, mas que se identificaram com o sucesso capitalista simbolizado por ele.

Lapid e Bennett foram duas “marcas de sucesso” – ashquenazis, ricos e numa embalagem de direita – que conseguiram atrair amplos segmentos do “clã judaico branco”.

Os resultados das eleições são bem assustadores em termos de representatividade das classes mais baixas na sociedade israelense. A nova Knesset é mais branca que as suas antecessoras, mais rica e não menos racista. Tem um número recorde de colonos (15 cadeiras) e uma melancólica representação dos mizrahis pobres. É importante lembrar que o fracasso do minúsculo partido kahanista Otsma LeIsrael (cujas plataforma e práticas, se fosse na Europa, seriam imediatamente identificadas como neonazistas) em atingir a cláusula de barreira (2%) e conseguir cadeiras na Knesset será compensado por racistas de classe mais alta como Feiglin, Liberman e sua gente na lista do Likud-Beiteinu, na companhia, é claro, de racistas mais bem comportados, como Lapid. Cidadãos palestinos de Israel  mais uma vez recebem a mensagem de que estão fora de qualquer jogo político que interesse, após a declaração de Lapid de que só integrará uma coalizão   sem Zoabis (referindo-se a Hanin Zoabi, deputada árabe intensamente demonizada).

A realidade é dura. O baixo comparecimento de cidadãos palestinos de Israel, mizrahis e russos  demonstra o pouco apoio que dão à direita, mas também a irrelevância das esquerdas radical e sionista para esses setores da população. A situação atual representa uma abertura,  porém, para atingir esses grupos, precisamos  não só  votar contra injustiças e procurar interrompê-las, mas também  mudar as relações de poder político na sociedade israelense.  Nas diferentes lutas (  sindicatos, habitação, demolições de casas da minoria palestina e outras), devemos resistir à tentação de evitar olhar para esse reflexo da sociedade da qual fazemos parte. Devemos  resistir à tentação de  nos separarmos dessa sociedade e trabalhar por mudanças fundamentais.  O vácuo político entre os principais segmentos da sociedade israelense nos convida a construir uma esquerda popular que seja o começo de uma alternativa política.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

É um movimento social conjunto árabe-judaico. Esta é a posição oficial da entidade a respeito do resultado das eleições de janeiro em Israel, redigida a convite do Boletim ASA.

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