O fio não foi cortado

Gavril Miklossy, Greve em Grivitsa, 1933

Gavril Miklossy, Greve em Grivitsa, 1933

Dos antigos combatentes clandestinos de Securon restaram muito poucos. Alguns ficaram nas prisões de Yas, Doftana, Zchilova, e outros foram para as cidades grandes. Katzop, depois de sair da prisão, ficou fisicamente arruinado. Ita foi novamente julgada e condenada, à revelia, a dez anos de cadeia. Ela conseguiu evitar a prisão errando na ilegalidade pelas aldeias e cidades do país, cumprindo várias tarefas do Partido. Durante muito tempo, a cidade esteve sob o pesado efeito da morte de Meilech. O bárbaro assassinato de Meilech provocou em muitos a necessidade de refletir sobre a situação. As pessoas andavam de punhos cerrados.

A crise econômica que se alastrava pelo país naquela época influía também na tenebrosa situação. Liquidavam-se grandes empreendimentos, fechavam-se lojas, os trabalhadores do comércio foram desempregados, passava-se fome na casa dos profissionais. Grande parte dos jovens errava sem fazer nada. Estudar não era possível, por falta de dinheiro. Mesmo no estudo não viam salvação. O amanhã não apresentava perspectivas, ninguém na cidade via saídas. Restava acorrer às grandes cidades, procurar trabalho, procurar uma chance de sobreviver. Grande parte da juventude foi tomada por outro sonho: atravessar o Dniester, fugir para a União Soviética. Muitos nem queriam pensar no perigo e procuravam realizar seu sonho. Outros, mais conscientes, achavam que lutar por uma vida melhor tinha de ser ali, em sua própria cidade, em sua casa.

Surgiram em Securon novas forças jovens, cheias de ardor, que continuaram o trabalho dos antigos lutadores clandestinos. Bulie, Iánkele Zalzman, Zêilic da cozinheira, Mêndel Gleizer, Leica Lerner e outros. Por causa do intenso terror na cidade, a atividade deles era reduzida. Tinha havido uma imensa greve dos trabalhadores da estrada de ferro  de Grivitza, durante a qual o governo romeno desencadeou um banho de sangue e perseguições em todas as cidades e aldeias. A Segurança e Gavrilu com seus gendarmes desenvolviam  uma atividade bárbara na cidade. Prendiam gente na rua, perguntando sobre o que estavam falando entre si. Perseguiam especialmente os jovens, de várias camadas sociais. Certa vez, Gavrilu mandou parar na rua a filha do farmacêutico, Níssia Schor, que estava conversando com um trabalhador de alfaiataria. Gavrilu gritou: “O que você tem em comum com um alfaiate?” A situação tornou-se insuportável. Mesmo assim, as pessoas continuaram denunciando que as prisões e o terror não haviam cessado e continuaram seu trabalho.

Vermelho diabólico

Naquele ano, o Primeiro de Maio coincidia com a Páscoa cristã. Foi resolvido que seria içada uma bandeira vermelha na cúpula da igreja para lembrar ao povo que ali se reuniria que era dia de festa revolucionária, o Primeiro de Maio. O jovem Yankele Zalzman assumiu e cumpriu brilhantemente essa tarefa. Como, só Bulia, Yankele e Mitia sabiam. Mitia era um garoto ucraniano que trabalhava no motor do moinho da cidade. No terraço da casa de Mitia, que era vizinha à igreja, amarraram duas escadas para  poder alcançar o telhado da igreja. De lá, com a ajuda de uma grossa corda que foi lançada por sobre a cruz da igreja, galgaram até a cúpula e lá amarraram uma bandeira vermelha. Isso tudo foi feito na véspera à noite, quando  não havia alma viva na rua da igreja e o silêncio era mortal. Enquanto Iánkele e Mitia estavam ocupados com o trabalho, Bulia rondava a igreja vigiando ao redor. Ela tinha um medo febril e não parava de repetir: “Tomara que tudo dê certo.” Quando os dois amigos deixaram o telhado da igreja e correram ao encontro de Bulia, Iánkele gritou uma só palavra: “Já!” As escadas foram logo desamarradas e levadas para bem longe. Com um esforço sobre-humano, quase sem respirar, ficaram, no entanto, felizes: “Amanhã será um dia festivo na cidade.”

De manhã cedinho os sinos da igreja começaram a soar. Homens e mulheres se juntaram vindos de todos os lados, carregando cestas com panetones, ovos pintados, velas amarelas. Mas, perto da igreja, uma correria louca. Todos levantavam as cabeças para onde tremulava uma bandeira vermelha. O padre corria de um lado para o outro, vociferando: “Uma desgraça! Vejam o que os vermelhos diabólicos são capazes de fazer!” Todos corriam para ver a bandeira vermelha. Pela portinha estreita do muro do casarão, apareciam Plavsky e todo o pessoal do casarão. Meio adormecidos, assustados, olhavam para  a  multidão exaltada na rua.

Páscoa e Primeiro de Maio

A manhã era primaveril, as árvores desabrochavam e tudo em volta estava cheio de florezinhas brancas. O sol logo apareceu iluminando com seus raios a cúpula dourada e a bandeira vermelha. A multidão se congratulava, uns por causa da Páscoa milagrosa, outros por causa do Primeiro de Maio. Rapidamente apareceu Gavrilu com seus gendarmes. Começaram a dispersar a multidão, preparando-se para retirar a bandeira vermelha. De longe, só de colete, vinha andando o velhinho de barbicha branca que morava no casarão do fazendeiro que antigamente era o embaixador do tsar em Paris. Diante dos militares romenos e mesmo de um simples funcionário, ele tirava o chapéu e se inclinava até o chão. Agora também  baixou  a cabeça e ficou parado. Gavrilu o reconheceu. Ele também o respeitava. Quando os gendarmes começaram a subir para tirar a bandeira vermelha, ele se aproximou e disse em um romeno cheio de erros: “Senhor, é preciso matá-los a todos. Matá-los!”

Naquele Primeiro de Maio, ninguém sabia, nem podia saber, que alguns anos depois aconteceria o que tanto desejavam, aquilo que os melhores filhos da cidade buscaram, lutando e dando seus melhores anos de juventude. Aconteceu no dia 28 de junho de 1940. A Bessarábia uniu-se à União Soviética.

Uma cidadezinha pequena! Mas que dias alegres se apresentavam. Os mais alegres de sua história. Homens beijavam-se nas ruas, cheios de alegria e esperança.

Nos dias da grande festa popular, quando os invasores romenos tentavam fugir, eles pareciam tristes e deprimidos como quem acompanha um morto. De uma só vez, o casarão ficou todo novo. No grande e magnífico pomar, aconteceram todos os encontros festivos com os representantes do governo soviético, soaram discursos inflamados, congratulações, canções. No casarão começou a atividade do Comitê do Partido e de outras instituições. Em cima do telhado do casarão tremulava festivamente a bandeira vermelha.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24
Especial para ASA

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