O Eclesiastes e o povo

Gustave Doré, Rei Salomão

Gustave Doré, Rei Salomão

Não adianta procurar, você não vai encontrar uma análise do Kohélet nos textos de Marx. Mas a essência, sim, está lá.

O Eclesiastes, ou Kohélet, denuncia as consequências de uma estrutura social injusta. O povo não tem presente quando é impedido de usufruir do fruto do próprio trabalho. Consequentemente, fica sem vida, que lhe foi roubada não por esta ou aquela pessoa, mas por todo um sistema social dependente que, para privilegiar uma minoria, acaba espoliando a nação inteira.

De acordo com a tradição, Salomão, o rei sábio de Israel, mostra que isso , em primeiro lugar, é um pecado teológico: Deus dá a vida para todos; se ela é roubada, o roubo é um desvio na própria fonte da vida.

O Eclesiastes é convite para destruir e construir. Destruir uma falsa concepção a respeito de Deus e da vida, muitas vezes justificada por concepções teológicas profundamente arraigadas. Depois, construir uma nova concepção de vida, a vida que é um dom gratuito de Deus, para que todos a partilhem com justiça e fraternidade. Só então todos poderão ter acesso à felicidade, que consiste em usufruir a vida presente que, intensamente vivida, é a própria eternidade. Como conclui o próprio narrador do Eclesiastes: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os Seus mandamentos; porque isto é o dever de todo  homem. Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau”. (Ecl. 12:13-14).

O Eclesiastes faz parte dos livros poéticos e sapienciais da Bíblia hebraica, vem depois do Livro dos Provérbios e antes de Cântico dos Cânticos. Nos dias temíveis, entre Rosh Hashaná e o Iom Kipur, e logo após o fim da leitura da Torá e ao reiniciar-se a sua leitura, costuma-se ler, também, o Eclesiastes, o Kohélet.

Seu nome vem da Septuaginta. Embora  seu significado seja considerado como incerto, a palavra tem sido traduzida para o português como pregador ou preletor. Faz parte dos escritos atribuídos tradicionalmente ao Rei Salomão, por narrar fatos que coincidiriam com aqueles de sua vida.

Mas a Bíblia de Jerusalém* sustenta que a atribuição a Salomão não passa de mera ficção literária do autor; a linguagem do livro, e sua doutrina, permitem concluir que foi escrito após o Exílio na Babilônia.

Muitos defendem que tem dois, três, quatro e até oito autores distintos.

O principal tema do livro é a vaidade das coisas humanas, dando a lição de desapego dos bens terrestres, negando a felicidade dos ricos e preparando o povo para entender que “bem-aventurados são os pobres” (Lucas 6, 20).

*A Bíblia de Jerusalém é a edição brasileira (1981, com revisão e atualização na edição de 2002) da edição francesa Bible de Jérusalem,  assim chamada por ser fruto de estudos feitos pela Escola Bíblica de Jerusalém, em francês, École Biblique de Jérusalem. De acordo com os editores brasileiros (Paulus Editora), a edição “revista e ampliada inclui as mais recentes atribuições das ciências bíblicas. A tradução segue rigorosamente os originais, com a vantagem das introduções e notas científicas”.

Essas notas diferenciais em relação às outras traduções prestam-se a ajudar o leitor nas referências geográficas, históricas, literárias etc. Suas introduções, notas, referências marginais, mapas e cronologia — traduções de material elaborado pela Escola Bíblica de Jerusalém — fazem dela uma ferramenta útil como livro de consulta, para quem precisa usar passagens bíblicas como referência literária ou de citações.

Se para os cristãos e parte dos judeus a Bíblia foi escrita por homens sob inspiração divina, para um não cristão, um ateu ou um agnóstico, a Bíblia pode servir como referência literária, já que se trata de um dos mais antigos conjuntos de livros da civilização. É o meu caso.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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