Matou a mulher e foi escrever uma missa

 

Coro dos Hebreus, Ópera Nabuco, de Verdi

Coro dos Hebreus, Ópera Nabuco, de Verdi

Datas redondas: neste ano de 2013 se completam 200 anos do nascimento de Giuseppe Verdi e 400 anos da morte de Carlo Gesualdo.  Com toda a razão estará surgindo a  questão:  Verdi, tudo bem – qualquer jornaleiro italiano já ouviu falar e os aficcionados de ópera do mundo inteiro já ouviram alguma das famosas  Traviata, Rigoletto  ou Aida; mas esse Gesualdo, mesmo com essa idade toda,  só aparece no wikipedia e olhe lá. Pois bem, vamos antecipar alguma coisa. Ambos os italianos foram compositores, revolucionários e – embora afastados no tempo – viveram na mesma cidade.

Quem já andou pelo norte da Itália e parou em Ferrara pode ter-se hospedado no velho Hotel Europa. Se favorecido pelo acaso, terá sido alojado num quarto enorme, móveis antigos e também enormes,  pé-direito alto que deixa pender do teto um grande lustre  de cristal e, das janelas, longas cortinas de veludo.  A atmosfera de 1850 parece conservada intencionalmente, o que se confirma  quando nos chama a atenção uma aberrante placa de acrílico preto e letras douradas (sugere algo como horário das refeições) afixada na penteadeira.  Lê-se o seguinte (em italiano, é óbvio): “Neste quarto Giuseppe Verdi terminou de escrever sua ópera Nabuco.” Algo além do acaso – que  promove esta emocionante aproximação com a história, especialmente da música e especialmente com o seu mais célebre compositor de óperas –, algo mais  se acrescenta ao valor deste acaso. Nabuco foi a primeira ópera que apontou, pelo sucesso de público, para Verdi como grande compositor. O libreto narra a saga do povo hebreu quando  prisioneiro submetido à escravatura na Babilônia, tendo o famoso “Coro dos Hebreus” se projetado além dos limites do repertório de ópera.  O sucesso de público dessa obra não é  acaso nem mistério: à época da sua estreia, os italianos eram, por sua vez, submetidos ao domínio do império austro-húngaro, e empenhados em lutas por independência. A analogia  das duas situações históricas – hebreus  e italianos – valeu a Verdi grande popularidade e respeito crescente por suas atitudes políticas . Oriundo das mais humildes camadas do proletariado rural, ele próprio já trazia na sua história um episódio que, de alguma forma,  contribuiu para forjar seu espírito combativo: quando criança, possivelmente em 1820, escapou por pouco de um massacre promovido na sua aldeia por soldados austríacos.

Carlo Gesualdo


Gente fina

Quem sai do Hotel Europa e atravessa a rua estará remetido a alguns séculos atrás.  Trata-se de um castelo quinhentista, com fosso, ponte levadiça e tudo.  Desde o início do século 16 (1500) ali residia a família D’Este, senhores feudais da região. Lá pelo ano 1600, Sua Alteza o duque D’Este precisou casar uma sobrinha (certamente para resolver alguma ruína financeira iminente) e procurava-lhe marido que não fosse qualquer um, ou seja, fosse podre de rico. Achou um lá em Nápoles que não era  propriamente qualquer um: o cara era arquiduque, arcebispo, general, tinha lá seu castelinho e ainda fazia música –um tal de Carlo Gesualdo.  Estava viúvo desde 1594, quando, infelizmente, matou a mulher, um vizinho e o filho de 5 anos. Com essas nobrezas todas, rico, viúvo e impune, Sua Alteza foi casado com a tal sobrinha e acolhido pelo dono da casa indo morar nesse castelo em Ferrara. Ali viveu até 1613 apenas como músico profissional, limitando o assassinato da nova esposa  apenas a eventuais ameaças. Pois o que faz aqui, esse gente fina ao lado, nada menos, que de Verdi? Passados quatro séculos é para nós impossível conceber a figura de um senhor feudal (mesmo porque não se pode confiar nem nos retratos mandados pintar , digamos, por Ticiano com ordens de suprimir verrugas, diminuir narizes e tal). Mais difícil, calcular o poderio econômico, o poder político e  o simples poder pessoal de um Gesualdo – imagine-se  as armações que o sujeito aprontava no meio do clero para eleger um papa, as trapalhadas com documentos falsos para tomar terras de vizinhos, não bastasse o poder de vida e morte sobre esposas e súditos (na verdade, progredimos: hoje, um vossa excelência qualquer, para justificar aumentos de patrimônio, tem que criar umas duas ou três vacas e forjar notas como tendo vendido duzentas, ou criar umas rãs para o mesmo fim, o que é muito mais difícil quando se considera quantas rãs o vossa excelência tem que simular ter vendido comparadas com uma vaca…). Esta tentativa de traçar um retrato físico-moral-psicanalítico de don Carlo Gesualdo  só tem  uma pretensão: explicar o fenômeno da sua música, que se antecipou aos modernos em pelo menos 300 anos. Ele conviveu com os grandes  criadores da Renascença musical da Europa. Como eles, escreveu praticamente só  obras para coro, geralmente a cinco vozes. Foi na Renascença que se afirmou o sistema tonal (uma hierarquia para as sete notas da escala e suas respectivas  simultaneidades com outras duas). O sistema tonal  cria, durante uma sequência de notas ou acordes,  certas expectativas no ouvinte. É como um trem  que, a certa altura dos trilhos que percorre, se depara com uma trifurcação e pode escolher uma.  Mal comparando, o que ocorre frequentemente em Gesualdo é que ele escolhe um  quarto desvio absolutamente inesperado. Só isso já  significou um rompimento com a tonalidade, fenômeno que a crítica só foi registrar como tal no início do século 20 com Schoenberg e Stravinski. Existem publicados seis livros de madrigais (gênero de canção coral típico dos renascentistas, cujas letras variam dos simples amores felizes ou infelizes às onomatopeias de animais e batalhas, passando pelas obscenidades mais impublicáveis). Suas letras – de autores quase sempre desconhecidos e, provavelmente, dele mesmo – consideram a morte um assunto obrigatório; a música, sempre coerente, cria um clima lúgubre que alguém pouco interessado na revolução harmônica de Gesualdo diria tratar-se de trilha de filme tipo Zé do Caixão . O próprio Stravinski jamais conseguiu destrinchar a obra e a vida do compositor (de música sacra também), chegando a visitar o castelo de Nápoles e escrever um dos madrigais em forma de quarteto de cordas.

Verdi, proletário de origem, empenhado na revolução contra os austríacos, não fez música revolucionária. Gesualdo,  da nobreza feudal empenhado no seu umbigo e no seu patrimônio, fez música revolucionária.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24

Especial  para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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