Brasil procura estreitar laços em Ramala

Emb. Paulo Roberto no escritório em Ramala

Emb. Paulo Roberto no escritório em Ramala

O Escritório de representação do Brasil em Ramala recebeu novo titular em novembro 2012, em meio ao mais recente conflito entre Israel e Gaza. Gaúcho de 56 anos, o embaixador Paulo Roberto Caminha de Castilhos França passou, entre outras cidades, por Libreville, Genebra, Montevidéu, La Paz e Atenas antes de ser enviado a um dos pontos nevrálgicos do Oriente Médio. Por ocasião de um almoço com ativistas da comunidade judaica do Rio (do qual participaram o presidente da ASA, Mauro Band, e o diretor Jacques Gruman), em 2 de novembro de 2012, portanto poucos dias antes de embarcar, o embaixador Paulo Roberto se dispôs a responder a algumas perguntas do Boletim ASA já em seu novo posto – o que fez logo que a situação permitiu. Leia a seguir.

A Assembleia Geral da ONU reconheceu, em novembro de 2012, o Estado da Palestina como observador. O Brasil já mantinha uma representação diplomática com nível de Embaixada em Ramala. O que muda nas relações bilaterais?

Embaixador Paulo Roberto – O Brasil abriu o Escritório de Representação em Ramala em 2004. Em dezembro de 2010, reconhecemos o Estado da Palestina nas fronteiras de 1967. Ambas as iniciativas indicam a importância que o Brasil confere às relações com a Palestina e o  entendimento que temos de que a concessão do status de Estado à Palestina é um elemento positivo para o processo de paz. É importante lembrar, ademais, que a mesma decisão da ONU que abriu o caminho para a criação do Estado de Israel – a Resolução 181 (II), de 29/11/1947 – também contemplou a criação do que hoje é o Estado da Palestina. A decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas, de novembro passado, portanto, traduziu uma aspiração que, no plano multilateral, data de pelo menos 65 anos.

O conflito entre a Palestina e Israel, não há como negar, continua a ser uma das questões mais importantes na agenda internacional, com reflexos importantes na estabilidade política e na segurança da região, e também com implicações sobre o sistema internacional. O Brasil, portanto, tem interesse em acompanhar e, na medida de nossas circunstâncias, colaborar para o encaminhamento dessa questão.

Mas nosso interesse na Palestina também tem uma outra dimensão, na área de cooperação e desenvolvimento, que convém ressaltar. Nos últimos anos temos contribuído com projetos tanto de cooperação técnica quanto de cunho humanitário nas áreas de educação, saúde, agricultura, esportes e infraestrutura. Um dos valores que pautam a atuação externa brasileira é a solidariedade, e com a Palestina não poderia ser diferente.

Que interesses econômicos norteiam as relações entre Brasil e Palestina?

O Brasil acredita haver oportunidades importantes para o desenvolvimento de relações econômicas, sobretudo uma vez vigente o Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a Palestina, firmado em dezembro de 2011. Apenas para citar um exemplo, no ano passado a ANVISA certificou a empresa palestina de medicamentos Pharmacare para exportar para o Brasil. Há a expectativa de que neste ano a empresa passe a exportar para o país, ou se associe a empresas brasileiras para a produção de medicamentos genéricos. Esse exemplo demonstra que há perspectivas positivas de crescimento nas relações comerciais entre Brasil e Palestina.

A diplomacia brasileira tem se pronunciado a respeito do conflito entre Israel e os palestinos. Quais são as propostas do Brasil para uma paz justa e duradoura? Qual é a posição do Brasil sobre o chamado direito de retorno, reivindicado pelos palestinos?

Acreditamos que as bases para uma solução justa e duradoura, que assegure, a um tempo, um Estado soberano e viável para a Palestina e a segurança de Israel, estão dadas nas resoluções da ONU sobre a questão. O Brasil acredita, sobretudo, no diálogo e na diplomacia como os principais instrumentos para o encaminhamento de disputas e conflitos internacionais. Acredita, também, que a comunidade internacional, de maneira ampla, pode dar sua contribuição. Reconhecemos o direito de retorno dos refugiados palestinos, conforme expresso na Resolução 194 (III) da Assembleia Geral. Para a implementação desse direito, os mesmos princípios, de diálogo e diplomacia devem ser aplicados à questão.

As comunidades judaica e árabe no Brasil têm densas representações institucionais. De que forma elas podem colaborar para o seu trabalho na Embaixada?

A contribuição das comunidades palestina e judaica no Brasil ao trabalho do Escritório é fundamental. Antes de assumir o Posto, em novembro, pude conversar com representantes dessas comunidades. O fato de conviverem, no Brasil, em um ambiente político e social de tolerância e entendimento, e, ao mesmo tempo, conhecerem, às vezes em nível pessoal, por vínculos de família, a realidade do conflito, permite a essas comunidades desenvolverem uma perspectiva diferente e, a meu ver, positiva, sobre as possibilidades de paz na região. Ademais, as comunidades também podem desenvolver um trabalho importante de cooperação.

A percepção sobre o papel que essas comunidades podem desempenhar no diálogo entre Palestina e Israel estimulou o Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Antonio Patriota, a organizar, em julho passado, o seminário “Lado a Lado – A construção da paz no Oriente Médio: um papel para as diásporas”. A iniciativa, que despertou grande interesse, constituiu oportunidade para aproximar intelectuais e formadores de opinião das comunidades árabe e judaica e da sociedade civil de forma ampla, em um exercício de análise e compreensão da região, à luz da experiência de convívio em outros países, sobretudo no Brasil. Os resultados positivos do seminário têm estimulado o Itamaraty a dar continuidade à iniciativa com novas atividades programadas para este ano.

Emb. Paulo Roberto com ativistas da comunidade judaica do Rio, novembro de 2012

Emb. Paulo Roberto com ativistas da comunidade judaica do Rio, novembro de 2012

Qual é a sua rotina de trabalho?

A rotina de trabalho do Escritório é muito parecida com aquela de uma Embaixada. Meu objetivo é continuar trabalhando para estreitar os laços com a Palestina; informar Brasília sobre os principais desdobramentos políticos e econômicos na região e dar apoio aos brasileiros na Palestina. Busco, para tanto, manter contatos frequentes com interlocutores palestinos, tanto no âmbito político e governamental (no Estado da Palestina e na OLP), quanto na sociedade (empresários, artistas, acadêmicos, ONGs). Também procuro manter contato e trabalhar próximo à comunidade brasileira na Palestina. Hoje, há cerca de 4 mil binacionais brasileiros-palestinos que vivem aqui.

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