Aonde Vamos?/ Aonde Chegamos!

Professor Fritz Feigl

Professor Fritz Feigl

Aonde Vamos? era uma revista judaica fundada em 1943 por Aron Neumann, na cidade do Rio de Janeiro. Fico imaginando qual a razão para o título da revista. Não sendo um guia de entretenimentos, presumo que a época e seu contexto levavam à percepção por parte de Neumann de que se caminhava para algum futuro, e a revista se propunha a esquadrinhá-lo. Otimismo? Talvez.

Hoje, ao nos defrontarmos com o isolamento político israelense e sua opinião pública interna empolgada, ao que parece majoritariamente, por segmentos pseudossionistas de extrema-direita, direita e clericalistas, o nome da revista, caso atualizado, deveria ser Aonde Chegamos!!

Apesar desta triste constatação, as reservas de sanidade, no entanto, estão aí, nos meios judaico e israelense, timidamente esboçando um começo de reação a esta cavalgada da insensatez.

É preciso deixar clara uma evidência. As instituições que se dizem representativas de comunidades judaicas diaspóricas, na verdade não representam hoje o mundo de segmentações doutrinárias e existenciais que compõe este meio. Quando, por crença, inércia, ingenuidade ou malícia, se transformam atualmente em um instrumento das diretivas governamentais dos que conformam a política israelense, não só extrapolam o mandato que lhes foi concedido por uma variada gama de pessoas, ideias e instituições como se transformam em aparelho ideológico manipulado, o qual deve ser contestado veementemente por dentro e por fora.

Comunidades heterogêneas

Ser judeu não significa, desde a Emancipação e o Iluminismo, compor uma unidade monolítica. Quem se dedica a um estudo histórico mais atilado sabe que as comunidades judaicas na modernidade são heterogêneas, compostas de subgrupos de todas as índoles, dos dedicados ao simples entretenimento  aos que oferecem serviços religiosos, dos que baseiam a  sociabilidade  em similaridade de origens e culturas específicas aos que  privilegiam os aspectos ideológicos. Não menos importante é entender que destes subgrupos talvez o maior seja o dos que não participam de nenhuma destas possibilidades, por indiferença e distanciamento.

Se 70% dos judeus norte-americanos ainda votaram em Obama, apesar do gigantesco lóbi israelo-judaico-republicano apostando e financiando o candidato da oposição, disto há que se sacar alguma reflexão.

No Brasil, ainda nos primeiros decênios do século 20, um importante líder judaico vindo do exterior tentou criar uma kehilá na cidade do Rio de Janeiro e fracassou. Os membros locais da comunidade eram ciosos de seus espaços e não o cederam ou renunciaram em nome de uma união monolítica. Depois da Segunda Guerra, enquanto se formava uma Organização Sionista Unificada (na verdade reunificada), na outra vertente se criava na cidade uma federação de entidades judaicas de todos os âmbitos, única forma de reunir as diferenças e, mesmo assim, sem a adesão de várias delas. Esta federação, na voz de seu presidente, professor Fritz Feigl, estranhava a pretensão da Organização Sionista de usurpar espaços. Em carta datada de 19 de maio de 1949, o então presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro, que congregava instituições judaicas na cidade, acentuava que:

“(…) nós temos que ultrapassar uma série de dificuldades especialmente em atenção à nossas relações com Organização Sionista Unificada a qual tenta ao lado da supremacia nas questões sionistas- com o que nós concordamos e (tenta a supremacianota do autor) também, sobre toda a sorte de questões locais e interferindo assim nas nossas competências.” (Mônica Grin, “Diáspora minimalista: a crise do judaísmo moderno no contexto brasileiro”, em Identidades judaicas no Brasil , org. por Bila Sorj, Ed. Imago).

Frise-se que Fritz Feigl era um sionista veemente e, na época (como sói ser somente em momentos especiais e únicos), havia uma convergência maior (mas não unidade) na comunidade em virtude do contexto histórico que catalisava esperanças e entusiasmos, mas também embalava dissidências.

Tenho absoluta convicção  de que algumas opiniões e movimentos patrocinados por entidades ditas comunitárias, principalmente no que tange ao conflito no Oriente Médio, não expressam nem sequer a média de opiniões vigentes na comunidade judaica e levam a um distanciamento maior daqueles que já se distanciaram, por inúmeras razões, de qualquer militância judaica.

Em uma federação heterogênea, é exótico ver um tipo de pregação religiosa ou ideológica unilateral como é estranho um representante de Israel igualmente fazê-lo, mas é a isto que assistimos. Nada contra religiosos, religião ou diversidade de opiniões, mas não se pode invadir territórios alheios, usurpar jurisdições e monopolizar espaços.

Contra aqueles que se creem falsa e/ou hipocritamente a voz de todos, a resposta não pode ser o silêncio. Além de usurpação,  trata-se aqui também de calar dissidências e divergências.

Desapoio

Já existem na Europa e nos Estados Unidos contraorganizações judaicas e sionistas que pretendem dar voz alternativa a esta maioria silenciosa e ponderada, inserida nas comunidades judaicas espalhadas pelo mundo, e que propõem se antepor a lóbis, governos e todo tipo de propaganda massificadora (e assustadoramente ineficiente, pois só convence os já convencidos) oriunda destas fontes, de conteúdo que, muitas vezes, ofende os verdadeiros valores judaicos e humanos.

Ao contrário do que ingênuos ou maliciosos pensam, o sionismo não é monopólio dos israelenses e nem o futuro do Estado de Israel está isento de influências mundiais e comunitárias. Saibam todos que certas caixas partidárias em Israel são recheadas de dólares vindos do exterior, especialmente de judeus afinados com a linha vigente, para financiar campanhas eleitorais ou líderes políticos de certos segmentos. Cada um influencia a seu modo o que lá se desenrola.

Tendo como último suporte externo – e mesmo assim a contragosto – o atual governo estadunidense, os zelotes israelenses devem avaliar que também podem perder o apoio incondicional de que gozavam nas comunidades judaicas, antes presas a esta forma de solidariedade, entendida como necessária a sobrevivência do Estado.

Paradoxalmente, a sobrevivência hoje do Estado de Israel vai depender de um desapoio incondicional às políticas vigentes por parte de verdadeiros e equilibrados sionistas dentro e fora de Israel, que não se venderam a milenarismos, megalomanias, Grande Israel, Jerusalém Eterna, e que não aderiram à repressão antidemocrática em curso. Isto implica em remar contra a postura dos hasbarateiros (de hasbará, em língua hebraica, divulgação) de plantão, tentar uma reversão de expectativas mostrando que não é só de Tsion que sai a Torá, pois ela saiu e não voltou. Cabe a todos nós  fazê-la retornar.

Boletim nº 141 – março/abril de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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