Tchaicovsky na Unidos da Caverna

É pouco provável que a maioria de nós tenha, na gaveta da cozinha, um quebra-nozes. A noz não entra no cardápio dos países tropicais com tal frequência que justifique  um quebra-nozes na gaveta. Cabe até duvidar de que todo mundo conheça um quebra-nozes. Ele não é, propriamente, popular. Mas O Quebra-Nozes é. Agora falta definir – pelo menos em música – o que é popular.
Cia.Cisne Negro - O Quebra-NozesInevitavelmente vamos cair na armadilha de comparar para definir. No caso: música popular é a que não é clássica.  Claro, já tem algum impertinente aí  questionando “mas a clássica, o que é?”.  Como também não sabemos direito, a proposta é baixar um pouco a bola e arriscar algumas jogadas rasteiras. Popular é tipo assim tudo o que o povo gosta. Lá está o impertinente questionando agora “o que é povo?”. Povo, meu amigo, não é apenas esse pessoal que só fica chateando as autoridades de quem, aliás, recebe o pão – claro que não de graça – e o circo. Não, o povo tem gosto; portanto é preciso algum cuidado das autoridades com o circo que lhe é oferecido.  Por outro lado, não cabem aqui grandes preocupações: ele tem gosto, mas muito pouca informação, pouco debate e, por isso, pouca escolha.  Não pode, por exemplo, dirigir seus gostos com base nos autores (compositores e/ou letristas). Pesquisa: escolha  pessoas de situação  social variada (seu porteiro, um ex-professor de faculdade, um taxista, seu gerente de banco…) que declarem conhecer o samba O bêbado e a equilibrista (Aldir Blanc e João Bosco) – provavelmente a maioria, perguntada sobre autoria da música, responderá “Elis Regina”.  Ocorre é que o povo não tem tempo nem interesse para certas sofisticações. A imagem de alguém cantando na telinha ou mesmo a voz no CD bastam . Ocorre, outrossim, que o povo tem outra peculiaridade: é infantil. Precisa ouvir uma história antes de dormir e, como não tem pai nem mãe,  a história vem através  da música popular. Música?  Com  todo o respeito, a música é absolutamente dispensável: quem conta a história é a letra. Isto nos permite afirmar que  o que é popular na música popular não é a música, mas sim a letra.  O povo precisa dela como de uma história antes de dormir. Nas letras de qualquer gênero da nossa MPB  é possível ao povo identificar a sua própria história, seus desejos frustrados ou não, suas perdas e danos, suas conquistas,   decepções – enfim, história.  Quase todo o repertório de música sem letra não é popular;  portanto, é clássico. Ressalvemos que esse tal povo também gosta de clássicos – veja-se que um concerto a 1 real enche o Municipal… mas um show do Roberto enche o Maracanã.

Ernesto Nazareth
O grande  problema com a música sem letra é, justamente, a abstração. A música  em si não representa ideias, imagens, muito menos histórias ilustradas e – convenhamos – é querer muito do povo que fique meia hora ouvindo sons que não mexem, clara e diretamente, com seu consciente,  – ou seja, com sua história.  No entanto existe uma espécie de música sem letra que escapa ao desprezo popular: é a música de dança, seja aquela que estimula os simples ouvintes a praticá-la, seja aquela sob forma de espetáculo audiovisual. Neste ponto surge, à guisa de ilustração,  o popular (à revelia) Ernesto Nazareth, que aspirava ser clássico como Chopin.
Australian Ballet - O Lago dos Cisnes
Lá está, em 1910, na sala de espera do então cinema Odeon, cujo dono  brindava o público com um pianista enquanto aguardavam a sessão. Acontece que Nazareth tocava exclusivamente músicas suas – tangos brasileiros, polcas, valsas, algum maxixe –, todas provenientes de folclores europeus ou afro-brasileiros, isto é, danças.  Pois ali, naquele salão, se algum par pé-de-valsa mais atrevido saísse rodopiando, ele logo  começava a variar a velocidade para mais e já para menos, atrapalhando os dançarinos até que desistissem.  Justificava assim sua pretensão  ao classicismo que fazia questão de divulgar: “minha música é para ouvir, não para dançar”. Uns vinte anos antes, em São Petersburgo, Tchaicovsky  estreava o balé O Quebra-Nozes baseado num conto de Hoffmann. O Quebra-Nozes, bem como os outros dois balés de Tchaicovsky O Lago dos Cisnes e A Bela Adormecida, são, até hoje, tão populares que nos permitem colocá-los na  nebulosa fronteira: clássico ou popular? A dúvida levanta uma boa poeira.
Royal Ballet -A Bela Adormecida
Todos os balés são populares pelo simples fato de  (mais uma vez) contarem uma história, apenas substituindo as palavras (letras de música) por linguagem corporal:  gestos produzidos por todas as partes do corpo (que obedecem a algum tipo de música, geralmente sinfônica). O que fará do balé  – essa coisa fronteiriça, meio sinfônica e de linguagem enigmática  –   um candidato quase certo à popularidade? Talvez uma voltinha pelo paleozoico esclareça alguma coisa.  Quando o macaco passou a andar só sobre as patas traseiras percebeu, depois de andar uns dez milênios, que sua marcha tinha regularidade, coisa que os gregos viriam a batizar de ritmo. Depois descobriu que seus pés faziam um barulho ao andar. Depois viu que podia reproduzir o tal barulho mesmo sem andar, sentado numa pedra. Achou legal – batucar lhe proporcionava alguma sensação de prazer, mais ainda quando o resto da macacada passou a imitá-lo. Inventaram novos ruídos – por exemplo, bater com o fêmur de um bisão na cabeça da esposa dava alguma variedade ao conjunto: estava se criando a primeira Bateria da Escola  Unidos da Caverna. Aí vieram os passistas.  Isto tudo para dizer que a dança foi a primeira manifestação do que mais tarde viríamos a chamar música. Portanto o povo está muito mais interessado e próximo da  dança do que propriamente da música.  Qualquer dança folclórica se satisfaz com zabumbas, pandeiros, agogôs e atabaques. Uma sanfoninha não vai mal, mas, para dançar,  é perfeitamente  dispensável.

Ridículo
Para nos provocar mais perplexidades sobre  essa gelatinosa fronteira popular-clássico, Tchaicovsky  dá um bom caldo.  Ele aparece na literatura como uma amostra da expressão “apenas um bom artesão, não um artista”. Os críticos seus contemporâneos se referiam pejorativamente a suas obras como “música de salão”. Ele mesmo, meio excêntrico, não percebia o ridículo de suas opiniões, que não hesitava em publicar: “Bach é apenas um bom compositor, não um gênio”, “Haendel me provoca um tédio  insuportável”, “Beethoven não passa de um caótico”, “Brahms é um burguês arrogante”.  Para nos complicar a compreensão da história, vem Stravinsky (cujo balé A Sagração da Primavera é considerado como marco inaugural da modernidade) e se diz grande admirador da música de Tchaicovsky. Enfim, se você não quer correr o risco de ser chamado, por algum descendente do  cara,  de “burguês arrogante”, talvez seja melhor ter, sim, um quebra-nozes na gaveta da cozinha.

Boletim nº 140 – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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