Tair e Taher

Tair é a minha filha, e é tão real quanto a sua respiração, que ouço do quarto onde dorme. Tair tem quatro anos e nove meses (embora ela garanta que tem quatro e meio) e mora com sua mãe, Ana, e comigo no Kibutz Gvulot (a 7 quilômetros da Faixa de Gaza).

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Taher é tão real quanto a minha filha Tair. Não tenho certeza de que se chame Taher, de que tenha quatro ou cinco anos. Não sei se vive em Rafah, em Nuseirat ou em Shaty. Certamente, existem uma, dez ou cem Taher na Faixa de Gaza.

Tair significa “iluminará”, neologismo hebraico. Taher significa “puro, limpo”, em árabe literário. Ao que parece, as raízes etimológicas de ambos os nomes têm a mesma fonte. Fonte seca, nos dias que correm.

Tair foi para a cama depois do jantar. O jantar habitual do Shabat, que Ana e eu podemos lhe oferecer todos os dias (assim como os cafés da manhã, almoços, lanches e todos os desejos infantis), graças ao nosso trabalho. Como estamos no inverno (não muito rigoroso, é verdade), o seu quarto está agradavelmente aquecido. Ana leu para ela uma história.

Não sei onde Taher está dormindo esta noite. Talvez em sua própria casa, talvez na de seu tio num bairro mais seguro, longe de zonas de lançamento de mísseis Kassam e de represálias israelenses. Não sei o que Taher comeu, se foi um prato quente ou simplesmente uma quentinha distribuída pelas organizações humanitárias. Nem sei se Taher sente frio  ou solidão.

Tair ficou em casa conosco. Não há muitas Tair da idade dela, habitantes da região do Neguev, que tenham optado –   que seus pais tenham optado – por sair da região ante a ameaça iminente  da queda de foguetes Kassam e Katiusha, ante a constante tensão de viver sob intermináveis sirenes e de compartilhar jardins de infância num abrigo subterrâneo.

Tair e Taher vivem nestes dias uma vida que elas não escolheram, e sim que nós, os pais, lhes destinamos, e  à qual talvez (tomara que não) as tenhamos condenado. Suas vidas não são simétricas, como também não o é o mundo que construímos para elas. Tampouco o é a cegueira terrorista daqueles que não reconhecem o direito de Tair de viver sem ameaças de morte, ou a impotência nossa para chegar a um acordo que permita aTaher o mesmo que é  permitido à minha Tair.

Ruínas em Gaza após incursão israelense

Hof Ashkelon, casa atingida por foguete lançado de Gaza, 16-11-1912

Obrigação moral

Não obstantes as assimetrias, ambas sofrem potencialmente um extremo risco existencial: ser vítimas de um conflito que não cabe sobre a face do planeta. Um conflito que ameaça o caráter humano de todos e de cada um de nós, seja nas ruas aflitas de Sderot, nos caminhos tortuosos de Beit Hanun, nos campos de Jolit ou nas praias de Dir el Balah. Um conflito que  põe em evidência o obscurantismo dos fundamentalismos e o que há de nocivo nos nacionalismos exacerbados, e isto além do direito natural dos povos à autodeterminação. Conflito no qual todo humanista, antes de impulsivamente tomar partido, deve lançar mão da empatia e da capacidade de entender a situação de risco latente e perigo iminente, a reação natural de cada pai de defender a sua menina. A sua Tair ou a sua Taher.

E, ao compreender isto, a sua obrigação moral (e não só política) de atuar pela diminuição desse risco, essa ameaça, esse temor. É sua missão fazer com que as Tair e as Taher possam desfrutar de uma infância feliz, uma adolescência plena e uma perspectiva de vida digna.

Isso não se conseguirá com um Kassam ou um homem-bomba, nem com um tanque ou um avião, nem com negações nem abstenções.

A esse fim não se chegará se a cada ano crescer a lista de mortos, feridos, deficientes e afetados, assim reforçando os círculos viciosos da violência.

Só quando se entender o risco e o perigo e a potencialidade de uma tragédia ainda mais profunda, quando se exercer  a defesa e a autodefesa por meio do diálogo, do respeito à vida e da vontade humana de autossuperação.
A minha Tair e Taher poderiam cumprir a aspiração que seus nomes encerram: iluminar e purificar…

Amém, assim seja… Ou melhor, mãos à obra.

Dario, pai de Tair

Tradução: S.M. Gruman

Boletim nº 140 – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

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