São Paulo alemão

IMAGENS Impressões (1)Desterro, Memórias em Ruínas,

Luis S. Krausz. 

São Paulo: Tordesilhas, 2011

Romance pertencente a uma safra recente da ficção judaica brasileira, Desterro, Memórias em Ruínas expõe uma intrigante  justaposição de passado e presente entre imigrantes judeus alemães nos espaços urbano e rural brasileiros. O narrador caminha intensamente pela cidade de São Paulo com o objetivo de visitar egressos da Alemanha nazista, ao mesmo tempo que evoca certas atitudes de sua família, também de origem judaico-alemã. Seu périplo começou por conta de uma carta do Museu Judaico de Berlim. Nela, pediam-lhe que localizasse e entrevistasse expatriados da colônia judaico-germânica, e que também lhes solicitasse objetos pessoais  para o Museu, que pretendia reconstruir a história dos judeus na velha Alemanha. Ao convocar os imigrantes, quase todos amigos e conhecidos dos seus pais e avós, o narrador os incentiva a desenterrar lembranças pessoais, o que eles fazem em meio a cartas, cartões postais, fotos, quadros, móveis, coleções de obras literárias, e algumas bugigangas. Sobretudo, ele os estimula a exumar memórias da terra por eles tão amada, a mesma que os teve como ex-cidadãos e, àqueles que lá ficaram, mortos.

Museu Judaico de Berlim (reprodução)O romance gira por dois eixos: o encontro com os emigrados, nas visitas que lhes faz o narrador em suas moradias em São Paulo, e suas incursões a Campos do Jordão, onde recordações de sua própria família emergem da casa de campo que avós e pais mantiveram naquela cidade montanhosa. Paralelamente, reflexões sobre sua breve visita à Alemanha desnazificada (ou assim pensada) também fazem parte deste romance semiautobiográfico,  em ritmo peripatético.

Réplica tropical
Guiando-se pela memória de seus antepassados, partes da paisagem contemporânea paulistana passam a ser transformadas, na sua imaginação, em réplicas de áreas berlinenses. Isto resulta no surrealismo de que o prosaico Largo de Pinheiros, uma praça enorme e ultramovimentada de São Paulo (com multidões e trânsito e, na ocasião, destrinchada para a construção de uma estação de metrô), se transforme em réplica tropical da gigantesca Alexanderplatz, em Berlim. O bairro do Sumaré, habitado por grande número de membros da colônia judaico-alemã, como outro exemplo do processo surrealista, é idealizado como um gartensiedlug (“bairro-jardim”, segundo nota ao pé da página 48). Vivendo em bairros como Vila Mariana, Moóca, Higienópolis, Santo Amaro, os judeus alemães deles se afastavam mentalmente para recolher-se em espírito na longínqua terra natal, recordando-se de suas estreitas alamedas, ruelas e bulevares, aromatizados na primavera, gelados no inverno, que tiveram de abandonar. Ilhados com seus livros, pinturas, música, se reuniam regularmente para conversar sobre rosas, orquídeas, suas hortas e plantas, livros e autores, compositores e obras musicais, como se ainda estivessem no Velho Continente. Para eles, o importante era dar continuidade à vida que levaram na Alemanha de antes da destruição. Ironicamente, como que para não se esquecer daquele ambiente, alguns deles tinham, como vizinhos, alemães grosseiros e antissemitas que, armados com espingarda de chumbinho, assustavam a meninada judia do bairro…

A persistência em viver “lá” enquanto existiam por  “aqui” era sentida também na família do narrador. Ele se lembra de uma sala, na sua casa, onde se guardava, com proteção mórbida, uma coleção de relógios. Esta abrangia velhos relógios musicais, de cabeceira, de mesa, de parede, de pulso, enfim, tudo que fosse aparelho de medição do tempo. Seu pai, que os comprara ou ganhara ao longo dos anos, lhes “dava corda”, seguido pela esposa, que tirava o pó  de cada uma das peças.  A sala era revestida de material isolante, com o propósito de preservar os objetos do ar contaminado paulistano, ao mesmo tempo que se garantiam, com a insulação, que os tiquetaques, as badaladas e os tinidos dos diversos mecanismos se produzissem só para eles. A alegoria é bastante clara: o tempo não podia parar, mas podia ser trancado naquela sala, isolado da cronometria que corria do lado de fora.

Templo de Jerusalém?
Em Campos do Jordão, onde muitos judeus alemães passavam férias e fins de semana, os  pais e avós do narrador tinham uma casa de campo. Anos depois da sua dissolução, as lembranças daquele local o levavam a desejar que “ainda pudéssemos sentar na sala forrada de lambris de araucária para, junto da janela aberta, respirar o ar delicado da floresta, sentados naquelas espreguiçadeiras de madeira e de lona que eram as mais propícias para se passar horas mergulhado [sic] em grandes romances enquanto o sol descia por trás dos pinheiros que o meu avô tinha plantado …” (p. 56) Assim unidos entre eles, os judeus alemães se mantinham longe tanto dos brasileiros quanto dos ostjüden, como se referiam aos judeus do Leste europeu, que falavam ídish e se encontravam no Brasil. (Mas a família do narrador tinha um ostjüd…) Para os germanizados, esses eram medíocres, pobres de bens e de espírito, e obsecados pela religião. Ao contrário, os judeus alemães se viam como intelectualizados, ambiciosos e livres de rituais da fé, segundo eles próprios se definiam: “Era assim que nossos amigos ostentavam suas bibliotecas e coleções de obras de arte, que eram o orgulho de famílias, de geração em geração. E quem, no luxo do seu altar próprio, lembrava-se do Templo em Jerusalém ou derramava lágrimas por suas muralhas?” (p. 80).

Ainda que não percebessem ou não quissessem perceber, os desterrados só possuíam memórias. Estas, como se indica no subtítulo do romance, já estavam em ruínas. O romance ressalta a pulsação das histórias e um melancólico abraço às lembranças, ao descortinar a existência desses europeus arrancados de um mundo que eles achavam quase perfeito para uma redoma tropical que eles consideravam bastante imperfeita, mas que, por via das circunstâncias, era o lugar onde tinham de viver.

Boletim nº – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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