Por que um Congresso Judaico Laico Latino-Americano?

A partir do absolutismo na velha Europa, quando os reis deslocaram a influência do papado para defender seus interesses, originando o Estado e a Nação, a Europa passa a desenvolver formas seculares de direção política. O exercício do poder terreno (político, econômico, militar) passa a ser secular, do rei.

As revoluções inglesa e francesa fizeram este processo avançar. As formas institucionais das principais religiões monoteístas – cristianismo, islamismo e judaísmo- continuaram, com adaptações, até o presente. No povo judeu, a crença na fé mosaica começou a seguir o rumo da “identidade judaica”, tendo esta uma evolução contínua até a atualidade.  Absorvemos positivamente essas mudanças, da mesma forma que os outros povos.  As identidades nacionais continuaram ganhando cada vez mais força.  Atribui-se a Spinoza ter sido o primeiro judeu a manter distância entre a sua identidade e a fé na Torá.

Séculos mais tarde, o judaísmo apresentava diversas correntes de pensamento, das quais comentarei só algumas:

1- O pensamento religioso-ortodoxo dominante afirmava que não havia nada mais a fazer além de cumprir os preceitos bíblicos e talmúdicos.  O que, consequentemente, deixava o judeu à mercê das contradições de outras crenças ou interesses sem intervenção humana. “Ele, o Único, sabe o que faz.”  Resultaram daí antissionistas e antissocialistas, não havendo solução terrena para os duros conflitos que precisávamos enfrentar.

2- As ideias inovadoras do socialismo científico estimularam boa parte dos nossos irmãos judeus, que passaram a adotar a ideologia comunista-socialista.  Esta nova ideologia também se afirmava como a única verdade, e tudo se resolveria com a sua aplicação, numa sociedade sem exploradores nem explorados.  As dificuldades dos judeus e o próprio antissemitismo deixariam de existir em consequência da derrota capitalista e da criação do novo homem (socialista).

3- Outra corrente forjou a ideia de um lar nacional judaico, formando o sionismo (político e paralelamente empreendedor).  Surge Israel, constituindo o primeiro acontecimento secular judaico mais importante em milênios.  O sionismo afirmava a necessidade de que todo o povo judeu se reunisse em Israel e que a Diáspora deveria ir desaparecendo para normalizar o seu povo, que passaria a viver em sua terra.  Sua “única verdade – todos rumo a Israel”.

Estas três verdades caem como ideias absolutas, assim como as grandes ideologias no mundo.  Nietzsche já havia dito que “Deus está morto”, referindo-se não só às crenças religiosas, mas também às ideologias.

Coesão
Ainda que nos agradasse ser donos de grandes verdades, o nosso caminho consistirá em estar abertos e em busca de um pluralismo laico.  Laico significa sem domínio institucional religioso, sem que nossa identidade deva depender de um ventre materno nem do pacto do Sinai.  Judeu é quem se sinta e se defina como tal. E plural significa sem uma interpretação única.

Não havendo verdades únicas, e sim interpretações, o aglutinamento judaico laico tenta dar coesão a um pensamento plural, que se transforme, no qual o judaísmo seja uma identidade não sagrada, porém necessária para quem a escolha,  posto que o humano  é constituído do social, e a identidade é um instrumento social.  Este é o espaço para se construir uma forma plural de judaísmo, baseada na história, na cultura, no devenir.

As ideologias dominantes têm características bem claras, além dos interesses econômicos em jogo.  Nós devemos recuperar as antigas formas do povo de Israel, que, com sincretismos religiosos, transformaram a história e a tradição em ritos e crenças religiosas.

Para ficar num exemplo bem próximo: Hanucá, uma festa de libertação macabeia do povo israelita, primeiramente readaptou a sua data às festas pagãs das “luminárias” – como os povos da região tinham atividades agrícolas e pastoris, o começo do solstício era uma grande festividade. Uns seiscentos anos mais tarde, os rabinos geraram um novo sincretismo, dando ao relato do mito de Hanucá um conteúdo religioso.

Devemos ser profundamente criativos. Precisamos de uma linguagem de símbolos, de ritos, cerimônias, dirigentes espirituais (rabinos ateus), hinos etc. O nosso laicismo deve ter formas, se possível, coletivas. Quem “domina o calendário” domina a coletividade (a ideologia).

O ser judeu “necessita” formas e hierarquias para as cerimônias de sua vida, como ser humano, nos seus momentos mais importantes, como é o nascimento, o bar-mitsvá, o casamento e o falecimento. Talvez possamos desconhecer o vazio que nos cerca, talvez não percebamos como nossos companheiros seculares recorrem a formas religiosas para preencher o vazio existente nesses acontecimentos.

O judaísmo laico precisa dar respostas a tais eventos e deve ter uma imagem holística, que  dê um valor agregado a esses eventos (marketing comunitário), hierarquizar a nossa imagem de um judaísmo laico, dar um calendário laico e formas similares ou diferentes para as cerimônias atuais, mas com conteúdo humano.

Boletim nº 140 – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

É fundador da Corrente Judaica Humanista Secular em Montevidéu (Uruguai). Também fundou e dirige há 13 anos a publicação mensal Identidad.

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