O segundo mandato de Obama

As prioridades do segundo mandato do governo Obama se concentram nos planos econômico e interno. Além da necessidade imediata de chegar a um acordo com o Partido Republicano para que não se dispare o mecanismo aprovado pelo Congresso no ano passado, de recortes automáticos no orçamento que levariam o país a uma recessão, a agenda de Obama deverá se concentrar em diminuir o desemprego e desenvolver políticas que reforcem a capacidade competitiva dos Estados Unidos.

No plano internacional, nada indica que Obama dará prioridade ao conflito palestino-israelense. Em primeiro lugar porque as prioridades estratégicas imediatas dos Estados Unidos são pilotar a saída do Afeganistão e do Iraque, assegurar que as tensões no Mar da China não fiquem fora de controle e não permitir que o Irã adquira um arsenal atômico.

Em segundo lugar, a experiência do primeiro mandato de Obama de fazer  avançar a paz no Oriente Médio foi frustrante. Seu enviado especial para a região, George Mitchell, teve que abandonar os esforços de intermediação quando Israel se recusou a prorrogar o congelamento na construção de assentamentos, condição estabelecida pela Autoridade Palestina para negociar.  Isto aconteceu em 2010, antes da Primavera Árabe, que limitou a influência dos Estados Unidos pelo fortalecimento de governos ligados a tendências islâmicas, que dependem do voto popular numa população que tende a apoiar posturas mais extremistas em relação a Israel.

Irã
O novo governo de Israel, a  ser eleito no próximo dia 22 de janeiro, possivelmente constituído  em  torno da aliança entre Netaniahu e Liberman,  deverá manter  a postura de sabotar o processo de paz, continuando com a  política de construção nos territórios ocupados, desmoralizando a Autoridade Palestina na Cisjordânia e  isolando o Hamas.  Nestas condições, o processo de paz só seria possível se o governo dos Estados Unidos se dispusesse a pressionar o governo de Israel, algo que dificilmente acontecerá.  O governo Obama não  arriscará a perda de apoios  no Congresso, onde é minoritário, para avançar um tema no qual as chances de fracasso são altas. Como diz o comentarista Peter Beinart, o presidente Obama não colocará em risco sua carreira política se Israel insistir em se dirigir ao abismo de um Estado binacional.

O tema do Irã ocupará um lugar central na agenda do presidente Obama em 2013.  Certamente ele tentará esgotar as possibilidades de uma negociação diplomática, procurando acalmar o governo de Israel.  De todas as formas, tanto os Estados Unidos quanto Israel concordam em não permitir que o Irã obtenha armas atômicas, e dificilmente Israel poderá alcançar seu objetivo de atingir militarmente  o programa nuclear iraniano  sem apoio direto ou indireto dos Estados Unidos.

Como indicamos anteriormente, a Primavera Árabe aumentou a complexidade da dinâmica e a instabilidade política da região. No momento, na Jordânia, as manifestações de rua, inicialmente contra o aumento do custo de vida, passaram a questionar o poder do rei. Mas é sobretudo  na Síria que se joga o futuro do tabuleiro político da região. A queda do governo de Bashar al-Assad  mexe com os interesses de todos os países: para o Irã, é a perda do apoio  importante  de   seu principal aliado nas proximidades de Israel, o Hesbolá; para o Líbano, é a possibilidade de sair da tutela da Síria, mas também o renascimento de guerras fratricidas, inclusive um enfrentamento direto de uma aliança cristã e setores drusos e muçulmanos contra o Hesbolá; para a Turquia, é o fantasma do  fortalecimento do movimento autonomista  curdo, que receberia  reforço da minoria que mora na Síria. Finalmente, para Israel, o novo governo que poderá surgir na Síria deverá aumentar o grau de incerteza e o sentimento de isolamento na região.
Em suma, muitos motivos de preocupação e poucos para sermos otimistas.

Boletim nº 140 – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

É professor titular de Sociologia - UFRJ.

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