O lóbi de Israel e o voto judaico

Em 2007, o livro The Israel lobby and US foreign policy, de John Mearsheimer e Stephen Walt – ambos professores de relações internacionais de importantes universidades americanas -, traçou um cenário bastante crítico a respeito do chamado lóbi de Israel. Centrando sua análise em organizações e personalidades de destaque na vida judaica norte-americana, o livro sugeria que  tal lóbi, por sua força e capacidade de persuasão, poderia colocar em risco os interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio e, por conseguinte, a própria segurança do país. O livro causou enorme polêmica e recebeu inúmeras críticas, tanto nos meios acadêmicos como na comunidade judaica norte-americana.

Nos Estados Unidos, lóbis são institucionalizados e sujeitos a regulamentação e fiscalização. De modo geral, buscam convencer legisladores e outros agentes públicos, assim como a opinião pública, de que os interesses particulares que defendem são convergentes com os interesses do país. Para tal, acionam instrumentos vários de persuasão, assessoria jurídica, financiamento de campanhas políticas, publicidade etc. É isso que fazem tanto lóbis empresariais, como os da indústria farmacêutica, como o de Israel. O The American Israel Public Affairs Committee (AIPAC), a mais importante instituição deste, afirma que Israel e Estados Unidos compartilham valores democráticos, buscam a paz e combatem o terrorismo, sugerindo que a aliança entre os dois países decorre de interesses compartilhados (http://www.aipac.org/).

Mesmo que se discorde das conclusões do livro de Mearsheimer e Walt, é   inegável que o lóbi de Israel é um dos mais poderosos dos Estados Unidos. Seria incorreto, no entanto, atribuir tal poder unicamente à força da comunidade judaica norte-americana. Pelo contrário, tal comunidade vem ganhando novos contornos e agendas e a cada dia parece se distanciar mais das posições do lóbi.

Erosão
Nos anos 1960 e 1970, principalmente em função das guerras dos Seis Dias e do Iom Kipur, forjou-se um grande consenso no judaísmo norte-americano em torno da segurança e do futuro de Israel. Muito embora os judeus nunca tenham chegado a constituir sequer 4% do eleitorado norte-americano, o sistema eleitoral majoritário adotado nos Estados Unidos atribui a eleitores que vivem em estados populosos, como eles, peso relativo maior do que seria de se esperar se o sistema eleitoral fosse proporcional. Portanto, o medo de perder o chamado voto judaico produziu seguidas administrações, tanto republicanas quanto democratas, comprometidas com assistência militar, econômica e política a Israel, como defendia o lóbi.

No entanto, o peso eleitoral dos judeus norte-americanos e o consenso em torno de Israel têm sofrido forte erosão nos últimos anos.

A comunidade judaica norte-americana está ficando cada vez menor, tanto em termos relativos quanto absolutos. As estatísticas não são consensuais, mas uma pesquisa do National Jewish Population Survey, de 2001, concluiu que na década precedente a população judaica havia caído 5%, de 5 milhões e 500 mil para 5 milhões e 200 mil, ao passo que pesquisa do The American Jewish Identity Survey apontava um declínio de 3%. De um pico de 3,7% da população norte-americana na década de 1940, os judeus eram cerca de 2% em 2000. Por outro lado, no pós-Segunda Guerra a população judaica espalhou-se por todo o território norte-americano, e, com isto, sua força eleitoral foi redimensionada. Se eles ainda são relevantes em Nova York (onde constituem 8,4% do eleitorado) e se tornaram relevantes a partir dos anos 1950 na Flórida (3,4%) e na Califórnia (3,3%),   perderam importância em estados como Illinois, ainda que na área de Chicago vivam cerca de 300 mil judeus (2,3% do eleitorado). No Texas – com seus 140 mil judeus, 0,6% do eleitorado ‒ e em outros estados com comunidades judaicas recentes, que reúnem cerca de 35% dos judeus norte-americanos, o voto judaico é irrelevante em eleições nacionais.

Já a erosão do consenso da comunidade judaica norte-americana em torno de Israel pode ser descortinada em pesquisas de opinião realizadas pelo American Jewish Committee – AJC,  uma das mais importantes instituições judaicas dos Estados Unidos e, ela própria, supostamente membro do lóbi de Israel.

A pesquisa realizada em 2012, confirmando pesquisas anteriores, evidenciou que os judeus norte-americanos, na hora do voto, priorizam temas da agenda política doméstica, em detrimento das relações entre Israel e os Estados Unidos:

Gráfico I – Preocupações mais importantes dos judeus norte-americanos na hora de decidir o voto em 2012, em %
 

Por outro lado, tais judeus apoiavam a agenda liberal (nos Estados Unidos, liberais são aqueles que defendem políticas públicas tidas como progressistas, assim como a regulação do Estado sobre a economia e redes de proteção social), numa proporção de 46% a 19% que se identificaram como conservadores. Por conseguinte, como vêm fazendo desde os tempos do New Deal de Franklin D. Roosevelt, continuavam leais ao Partido Democrata:

Gráfico II – Identidade partidária dos judeus norte-americanos,  2012, em %
 

Essas preferências partidárias expressaram-se nas seguintes opiniões em relação à capacidade dos dois principais partidos em encaminhar temas da agenda política:

Gráfico III – Eleições presidenciais de 2012
Qual dos partidos provavelmente tomará as decisões corretas nos seguintes assuntos?
 

Tais lealdades e compromissos políticos podem ser mais bem entendidos quando a comunidade judaica norte-americana é decomposta em suas diferentes confissões. O cruzamento das pesquisas do AJC de 1995, que aferiu o sentimento de proximidade dos judeus norte-americanos em relação a Israel, e de 2012, que mensurou o tamanho das diferentes confissões judaicas nos Estados Unidos, mostra que o compromisso com Israel só é majoritário entre os judeus ortodoxos, que constituem menos de 10% da comunidade:

Gráfico IV – Sentimento de proximidade com Israel (1995) e denominação (2012), em %
 

Portanto, não causa espanto que, ainda que as relações de Obama com o lóbi não tenham sido sempre harmoniosas, 69% dos judeus norte-americanos votaram nele em 2012, de acordo com pesquisas de boca de urna realizadas pela CNN no dia da eleição.  Ao candidato republicano, Mitt Romney, de nada valeu realizar um discurso mais abertamente pró-Israel, afirmando, por exemplo, que mudaria a embaixada norte-americana de Tel Aviv para Jerusalém.

Na verdade, nas eleições de 2012 ocorreu uma aproximação entre o voto judaico norte-americano e a opinião pública árabe-israelense e uma dissociação entre o primeiro e a opinião pública judaico-israelense, como mostra o cruzamento das pesquisas de boca de urna da CNN e pesquisas de opinião do Israel Democracy Institute e da Universidade de Tel Aviv. Veja aqui.

Gráfico V – Voto judaico nas eleições presidenciais norte-americanas
Preferências de judeus israelenses e árabes israelenses nas eleições norte-americanas, 2012
 

Em suma, se existe um voto judaico norte-americano, ele é,  fundamentalmente,  liberal e democrata.

Evidentemente, não se deve subestimar os recursos políticos, simbólicos e financeiros de diversas lideranças judaicas ligadas ao lóbi e de organizações como o AIPAC (que, com frequência, tentam fragilizar instituições como o J Street, que buscam resgatar a importância do judaísmo liberal norte-americano na configuração do lóbi). Tampouco se deve subestimar a força dos judeus ortodoxos que, por vezes, ao se radicalizarem, acabam por identificar-se com o campo nacional religioso de Israel (não confundi-los com os ultraortodoxos de diversas seitas hassídicas, com a de Satmar, ou organizações como Neturei Karta, profundamente antissionistas).

Mais à direita
Se o poder do lóbi não advém da força da comunidade judaica – ou ao menos não exclusivamente, seria importante identificar que segmentos da sociedade norte-americana lhe proporcionam prestígio e recursos.

Um destes segmentos  é formado pelos evangélicos do chamado sionismo cristão. Geralmente ligados a igrejas e lideranças ultraconservadoras do bible belt sulista, tais cristãos percebem o Estado de Israel como parte do processo de redenção messiânica (nesse sentido, compartilham aspectos da teologia do campo nacional religioso israelense) e são intransigentes defensores da colonização da Cisjordânia e do apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel.

Correntes políticas neoconservadoras constituem, também, um importante segmento do lóbi. Ao contrário de conservadores tradicionais, que pensam os interesses norte-americanos no Oriente Médio através do prisma da estabilidade e do equilíbrio de poder, os neoconservadores julgam que Estados Unidos e Israel compartilham uma missão civilizatória para aquela parte do mundo. Intervenções militares e a exportação de valores como economia de mercado e democracia representativa fazem parte de seu receituário. Interesses mais mundanos, como os do complexo industrial-militar, também aliam-se ao lóbi, particularmente na geração de medos coletivos e em momentos de tensão, quando vendas de armas e tecnologia estão envolvidos.

A consolidar-se o cenário de erosão do poder moderador do voto judaico liberal e de fortalecimento dos cristãos sionistas e dos neoconservadores e de diferentes interesses econômicos, é possível que nos próximos anos se assista a um alinhamento ainda maior do lóbi judaico aos setores mais à direita do espectro político norte-americano e aos partidos da direita israelense, com evidentes prejuízos para aqueles que, tanto nos Estados Unidos quanto em Israel, buscam construir um futuro de vida e esperança para israelenses e palestinos.

Boletim nº 140 – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Flávio Limoncic

É professor da Escola de História da Universidade Federal do Estado do RJ-UNIRIO.

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