Destruindo Amaleque

Segundo o livro do Êxodo, Amaleque é a nação que atacou os israelitas quando eles fugiram do Egito. Pior ainda, atacaram os mais fracos entre os que escaparam do Faraó. Pura maldade e covardia.

Essa transgressão não era para ficar impune. E a Torá tem uma receita dura para Amaleque: aniquilação. “Será que quando Hashem, teu Deus, te dá descanso de todos os teus inimigos em redor, na terra que Deus, teu Deus, te deu por herança para possuí-la, apagarás a memória de Amaleque de debaixo dos céus. Não te esquecerás disso!” (Deuteronômio 25: 19; ver também Êxodo 17:14 e Números 24:20).
A Morte de Agag - Gustave Doré
Apagar a memória de Amaleque não era mera atividade psicológica. Os judeus egressos do Egito deviam matar todos os amalequitas – homem, mulher e criança. Mas isto foi apenas um imperativo teórico ou foi concebido para ser realizado?

O Livro de Samuel implica que exigia cumprimento real: “Agora vá e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que têm, e não dispensá-los, mas matar homem e mulher, criança e lactente, boi, e camelos, ovelhas e jumentos” (Samuel I, 15:3). O Rei Saul feriu os amalequitas como lhe foi ordenado, mas ele então teve pena do Rei Agag e sobre alguns dos amalequitas. Deus e o profeta Samuel duramente criticaram Saul por não cumprir a palavra de Deus.

A questão, claro, é que lembrar Amaleque é um negócio muito sério. Não faz muito tempo, o rabino norte-americano Reimer fez uma associação islamo-fascista com Amaleque. Ele estava se referindo a instintos genocidas da tradição judaica. Lembrou que autoridades rabínicas têm lutado com este mandamento, durante séculos, mas a questão é, talvez, ainda mais urgente agora.

Nos últimos 2 mil anos, o povo judeu não tinha soberania política. Com o retorno à terra de Israel, no entanto, este não é mais o caso. Invocar Amaleque durante os séculos de impotência militar era uma coisa. Hoje, quando há um Estado israelense com um exército e cidadãos armados, é outra completamente diferente.

Uma história complicada
A Bíblia ordena a destruição de Amaleque. Já o Talmud afirma que o ataque dos exilados da Babilônia contra os assírios,“misturado(s) às nações” há mais de 2.500 anos (Berachot 28a) deixou de existir, não é apropriado rotular qualquer povo contemporâneo como descendente de Amaleque.

No entanto, o Sefer HaHinuch, uma obra do século 13 espanhol, afirma que o mandamento ainda existe, exigindo de cada judeu matar um amalequita, mulher e criança (mitsvá 604). Maimônides argumenta que a ordem não se aplica a cada indivíduo, mas à nação judaica como um todo (Hilchot Melachim 6).

No entanto, Maimônides também afirmou que a nação judaica deve aceitar convertidos a partir de qualquer nação do mundo, incluindo Amaleque (Hilchot Issurei Bia 12:17).

Mais ainda, Maimônides afirma que a nação judaica não pode nunca lançar uma guerra contra uma nação (incluindo Amaleque e as sete nações cananeias) sem primeiro oferecer “um chamado à paz” (kriá leshalom). No presente convite à paz, as sete leis de Noé são aceitas, a paz é feita, e a guerra deixa de ser necessária (Hilchot Melachim 6:1).

No Guia dos Perplexos, Maimônides explica ainda que a ordem para acabar com Amaleque não se baseia no ódio, mas na remoção de Amaleque (3:41). Para Maimônides, então, o mandamento não é necessariamente cumprido através de assassinato, mas pela influência moral e educação.

O Deuteronômio faz a distinção entre a guerra de conquista contra as sete nações de Canaã e outras guerras. No entanto, de acordo com Maimônides e Naḥmanides, a obrigação de oferecer um apelo à paz é aplicada a ambos. Nahmanides, ao citar um Midrash, também afirma que há uma obrigação de um exército judeu, no cerco a uma cidade, proporcionar uma saída para os inimigos que não querem lutar (Sefer Hamitsvot 5).

No século 19, o rabino Avraham Sachatchover argumentou: “Se eles se arrependem dos seus caminhos e aceitam os mandamentos de Noé, se não mais continuam no caminho de seus antepassados, não são mais responsáveis pelos pecados de seus antepassados .” (Avnei Neizer Orat Hayiim 2:508)

O Sachatchover Rebe, como Maimônides, sugere que Amaleque é um modo de ser, não um traço genético. Portanto, para nós, não cabe rotular inimigos contemporâneos como amalequitas.

Os pensadores místicos da tradição judaica também deram reinterpretações úteis. O professor Avi Sagi demonstrou a reivindicação de muitas fontes hassídicas de que a batalha contra Amaleque foi apenas a intenção de ser uma guerra espiritual.

Na comunidade judaica
Hoje, a maioria das pessoas não invocaria a ordem para destruir Amaleque, mas certamente há aqueles que se aventurariam a fazê-lo. E não faltam invocações violentas em referência aos palestinos.

Por exemplo, Benzi Lieberman, o presidente do Conselho de Assentamentos do governo Bibi, disse, em termos inequívocos: “Os palestinos são Amaleque. Vamos destruí-los. Nós não vamos matar todos eles, mas vamos destruir a sua capacidade de pensar como uma nação!… Vamos destruir o nacionalismo palestino.”

O consenso geral na comunidade judaica de hoje parece ser que as nossas energias podem e devem ser usadas para impedir a atividade genocida que acontece em todo o mundo, para que nos tornemos agentes de paz e eliminemos qualquer comparação contemporânea com o paradigma bíblico. Mas há, evidentemente, textos difíceis na Torá, no Midrash, no Talmud e, claro, nos editoriais e colunas de uma imprensa judaica muito a fim de botar fogo no circo.

Boletim nº 140 – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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