A morte de Meilech

Mataram o Meilech! A cidade estremeceu.

Lembramo-nos de quando ele esteve em nossa cidade. Lembramo-nos de sua viagem para Bucareste. Todo o tempo soubemos de sua atividade no movimento: a ele havia sido confiada a tarefa de enviar as mensagens dos responsáveis do Partido. Certa vez, ele precisou mandar materiais de Bucareste para outra cidade. Arrumou uma mala, um chapéu e viajou como caixeiro viajante de primeira classe de uma sólida firma. Ele não suportava chapéus. Havia anos que  usava um simples boné com aba de tecido grosso. Mas um boné poderia chamar a atenção de alguém porque bonés daqueles eram usados somente por gente das cidades da Bessarábia de quem se suspeitava serem comunistas. E boné em uma cidade grande poderia atrair um  espião ou um agente da Segurança. Comigo mesmo havia acontecido assim.

Logo que cheguei a Bucareste para estudar música, encontrei na rua um conterrâneo, um velho conhecido que já morava em Bucareste havia alguns anos. Ficamos muito contentes, como se alegram dois conterrâneos que se encontram longe de casa. Eu quis continuar passeando para poder conversar mais um pouco, mas percebi que ele se esquivava. Me explicou: “Motl, joga fora este boné. Aqui ninguém gosta disto. Quem usa é logo reconhecido como alguém de uma cidade pequena e atrasada ou  como um bolchevique.” Só então ficou claro por que certa vez, quando ia à casa de meu professor de música, atrás de mim andou o tempo todo um sujeito de terno preto. Antes de eu entrar no edifício onde morava o grande compositor romeno, o conhecido Michail Zchora, meu acompanhante me segurou pelo braço, mostrou-me a carteira de policial e me perguntou aonde ia, o que estava carregando. Eu carregava cadernos de música e expliquei tudo. Ele me olhou da cabeça aos pés, fitando especialmente o meu boné, e depois gentilmente se despediu.

A mala e a carta
No trem, Meilech colocou sua mala na platibanda e ocupou um lugar perto de duas senhoras idosas bem defronte de um sujeito gordo, romeno, de bigode preto e torcido. Meilech não gostou dele. Parecia já tê-lo visto na estação, passeando e espreitando alguém. Muitos pensamentos lhe vieram à cabeça. Já havia preparado um plano para agir em caso de perigo. O tempo todo o sujeito permaneceu sentado no mesmo lugar, como se estivesse pregado. Pareceu-lhe que ele seguia todos os seus movimentos. Meilech resolveu fazer uma experiência. Quando o trem começou a se aproximar da estação, ele se preparou para sair. Retirou a mala da prateleira, aproximou-se da saída, com a estação ainda distante e o trem em alta velocidade. O sujeito de bigodes pretos também se levantou e foi se aproximando. Meilech não tinha mais dúvidas de que estava sendo espionado. Os dois ficaram parados perto da porta. Uma ideia ocorreu a Meilech. Ele não devia nem podia perder aquela batalha. Mas com certeza o policial também pensava assim. Quando se aproximou a estação, o sopro da locomotiva, o ruído das rodas e as batidas dos vagões despertaram Meilech. Ele viu que não tinha muito tempo para pensar. O sujeito se aproximou e, pensando que Meilech se preparava para pular do trem em movimento, agarrou-o firmemente pelo braço: “De mim você não escapa!” Meilech não se perdeu. Agarrou com toda a força a mala e jogou-a para fora, olhando como ela rodopiava e caía mais adiante. Seu coração ficou mais aliviado. Mas não de todo, pois ainda tinha no bolso uma carta cheia de endereços. O agente não largava a sua mão e o puxava para dentro do vagão. Nesse ínterim, Meilech conseguiu tirar a carta do bolso, botá-la na boca e engoli-la. Então ficou totalmente aliviado. Pelo resto, não tinha medo nenhum.

Na estação, foi preso. A mala com manifestos e outros materiais subversivos foi logo encontrada e ali mesmo, na divisão policial, começou um pesado interrogatório. Meilech dizia que não sabia de nada, que a mala não era sua, que se tratava de uma calúnia e que estava vendo o homem de bigode preto pela primeira vez. Não adiantaram as torturas. Não conseguiram nenhuma confissão. Levaram-no para Bucareste, onde ficou muito tempo sem que parassem de torturá-lo para que confessasse alguma coisa. Mas, como sempre, continuou negando. Em protesto por manterem-no preso, Meilech declarou greve de fome por duas vezes. As duas greves duraram 42 dias. Quando já se encontrava atormentado e quase morrendo, mandaram-no para casa em companhia de um policial. Quando sua mãe o viu, desmaiou. Depois, chorava e soluçava: “Meu Deus, quando é que verei assim os inimigos de meu filho?” O pai, alucinado, caiu em prantos: “Bandidos! O que vocês fizeram do meu filho?” Os pais tudo fizeram para salvá-lo.  Nos primeiros tempos, Meilech precisava ter muito cuidado com o que comia, com a dieta. Mais tarde, aumentaram um pouco sua porção. A mãe ficava horas a fio ao fogão, molhando a comida com suas lágrimas. “Quem sabe, quem sabe se ele ainda ficará em pé”, dizia para si mesma. Mas quando estava perto da cama dele, animava-o: “Você vai ficar bom, meu filho!”

Corpo na carroça
Aos poucos, Meilech voltou a si. Quando saiu à rua pela primeira vez, parecia inchado e amarelo. Os médicos diziam que havia perdido todos os glóbulos vermelhos do sangue. De todos os lados, receberam-no com grandes abraços, com sholem aleichems e “Deus ressuscita os mortos”. Alegre e animadamente diziam: “Bravo! Aguentou bem! Quarenta e dois dias! Mais do que nosso mestre Moisés! Em seus curtos passeios, parecia uma criança que começava a andar. Com o tempo a saúde melhorou um pouco. Mas seu coração estava fraco. Parecia ser o princípio de uma séria doença cardíaca. Os pais estavam muito preocupados, mas ele gracejava, dizendo: “Acreditem em mim. Tudo isto é porque estou desocupado. Logo que retomar o trabalho, volto a ser eu outra vez.” Mas de trabalho nem se podia falar. Ele mesmo sabia que a cada passo seu  coração parecia querer saltar fora. Como ele se portou daí para a frente, o que lhe aconteceu, ninguém soube. Mas o fim …

Um dia, a cidade estremeceu. Fuzilaram o Meilech. Trouxeram o seu corpo de Ozcheve. Por que Meilech fora a Ozcheve? Em que condições foi fuzilado? Só se sabia que ele fora para descansar. Ele sempre sonhara com essa aldeia, onde passara a infância e onde tinha muitos conhecidos. Provavelmente dali ele tentara passar a fronteira para a União Soviética…

A carroça com o corpo de Meilech parou perto do casarão do fazendeiro. Para lá acorreu toda a cidade. Era um outono tardio. Chovia e nevava. A umidade penetrava em tudo ao redor. Não se podia ver a cúpula da igreja, coberta por uma densa neblina. As copas das árvores do  jardim do casarão estavam também invisíveis. O muro de pedras do casarão estava mergulhado em gelada umidade. De seu interior soprava tristeza e medo. Os gendarmes tomavam conta da carroça. Gavrilu também estava lá comandando. Não deixava ninguém se aproximar. Depois deram ordens para que os familiares viessem retirar o corpo. Os pais de Meilech correram  para a carroça em prantos. Junto deles, mais alguns familiares e o irmão de Meilech, de catorze anos, que chorava em voz alta: “Meu querido irmão! Meu Meilech!” O povo da cidade, distante, afogava-se em lágrimas.

Uma cidadezinha pequena em um enorme mundo.

Tradução de Isaac Acselrad.

Boletim nº 140 – janeiro/fevereiro de 2013 – Ano 24

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