Rosângela

Com a palma da mão Rosângela podia bem sentir o abaulamento do baixo ventre, quando tirava a roupa antes do banho e procedia a este exame, todo dia, com delicadeza, quase carinho. Era bem discreto o abaulamento, tanto que não se percebia pelo ver corrente, não se distinguia nenhuma linha de ressalto adicional  à curva ampla e natural do ventre, não propriamente adiposo, mas alargado pela gravidez que lhe trouxera a filha Ana, de dois anos. O corpo, no geral, mantinha a esbeltez da juventude, mas ficara ali a marca da maternidade, ali na cintura como nos seios, que, cheios e sugados, haviam perdido a rijeza macia de antes.

ReproduçãoVinte e dois anos, e aquele caráter benigno de aceitação das circunstâncias da vida, que a fazia gostar ainda da sua própria figura, e desprezar o desgaste da maturidade prematura e da responsabilidade com os cuidados da filha. Mantinha as alegrias essenciais da vida, as duas graças dela: a juventude e a menina, o acordar e sentir o regozijo da manhã, o existir, e a menininha Ana, fruto dela, não do amor, mas do assédio e da conformidade. As coisas.

Tinha feito direitinho os oito anos escolares do primeiro grau e trabalhava desde os dezessete, naquela disciplinazinha ditada pelo pai, um rodoviário honesto, motorista, comunista e conservador. Agora, depois de uma parada de um ano, quando nasceu a filha, ela estava de atendente num supermercado em Campo Grande e morava com a família num enorme ajuntamento de casas de moradia popular chamado Cesarão, uma cidade homogênea que ficava perto de Santa Cruz, cheia de gente de vida difícil. Ela ficava com a filha no quarto do corredor que ia para a cozinha e o banheiro, e os pais, no quarto que dava para a sala, com mesa, cadeiras, duas poltronas e o móvel da televisão, tudo apertadinho. O dos meninos ficava em cima, fechado sobre um canto da laje para onde se subia por uma escadinha externa. O resto da laje era do varal, da caixa dágua e de uma varanda aberta, que tinha perdido outro pedacinho para se fazer um novo quarto para Dorotéia, a irmã que ficava com ela no quarto de baixo antes de Ana nascer.

Dorotéia

ReproduçãoDorotéia era a irmã logo abaixo dela, que também trabalhava, mas que era muito bonita, de pele branquinha da cor da do pai, e cabelos castanhos claros, bem sedosos, olhos iluminados e um corpo formoso e curvoso, que se mostrava através das roupas justas e decotadas que ela usava. Havia atritos com o pai por causa disso, atritos graves, ele imprecava contra a justeza das calças ou a curteza das saias, e uma vez rasgou de raiva uma blusa indecente que arrancou à força do corpo dela. Ele intuía, ele era homem e sabia, e a mãe intervinha e punha panos quentes, ela sabia também, não era nenhuma boba, mas sentia um certo aprazimento de realização através da filha bonita que vivia experiências de outra graduação. Todos sabiam que Dorotéia trabalhava, também tinha feito o colégio, trabalhava de secretária no escritório de um advogado no centro da cidade e ralava o sacrifício da viagem diária e cansativa. E que algumas vezes se atrasava muito por causa do tráfico e chegava até depois de meia-noite. Ganhava bem, por isso, claro, como se via na televisão, todos viam, todos sabiam, até os dois meninos mais novos que ainda estudavam, e o maior já trabalhava.

Na primeira noite que não veio dormir em casa enfrentou a cara séria do pai no dia seguinte de manhã, a cara séria e a fala séria, de que seria melhor que ela não morasse mais com eles, já que escapava aos padrões morais da família e podia contaminar os outros. Dorotéia chorou, sinceramente chorou, e a mãe chorou com ela, e Rosângela também. O pai então calou, seco e amargo. Era a família. Eram os tempos. Difícil manter a família naqueles tempos. Mas era a família. Calou.

Calou para sempre, e até voltou a sorrir de vez em quando. Tomava a cerveja no bar do Caçula com os amigos de sempre, e foi descontraindo a vergonha da filha.

E um dia Dorotéia falou com Rosângela, as irmãs se amavam e se falavam tudo entre si. Falou séria porque o assunto era sério; falou porque achou que devia falar, era a irmã, Dorotéia adorava a sobrinha, e sofria com a dureza da vida de Rosângela. Falou porque Doutor Célio tinha falado. Rosângela tinha ido à cidade levar a Ana para fazer um exame por causa de uma anemia e dias depois foi apanhar o resultado que não deu nada de grave. Estava feliz e passou no consultório do Doutor Célio para voltar com Dorotéia. Nunca tinha ido lá e foi apresentada ao Doutor Célio. No dia seguinte Doutor Célio falou e Dorotéia pensou, pensou, e achou que devia falar com Rosângela.

Doutor Célio

Doutor Célio era um homem sério de cinquenta e poucos anos, não era um vigarista, um enganador, não vivia rindo e soltando piadas, era um homem maduro e falava sério, ia direto ao assunto, honesto. Tinha dois amigos, advogados também, mais ou menos da idade dele, sérios como ele, um deles pouquinho mais moço e meio alegrinho, mas boa gente. Eram todos casados, mas tinham precisão de mulher jovem e bonita, sabe como é homem. Tinham alugado um apartamento no centro da cidade, na Avenida Beira-Mar, onde se encontravam com algumas moças direitas, como ela, Dorotéia, não queriam saber de prostitutas. E o Doutor Célio vivia insistindo para que ela, Dorotéia, fosse morar lá e cuidasse do apartamento. Ela resistia por causa da mãe, e também por causa da irmã, Rosângela. Mas estava quase decidida. E o Doutor Célio tinha gostado da Rosângela, tinha achado ela bonita e com jeito muito carinhoso, ele conhecia bem as mulheres, e tinha perguntado se ela não queria fazer parte do grupo de moças que frequentavam o apartamento. Era tudo muito sério, muito discreto e muito honesto, e as moças ganhavam bem, toda vez que passavam lá. Só a primeira vez era difícil. Rosângela podia continuar trabalhando no supermercado e ir lá de vez em quando, uma vez por semana, assim, podia dormir lá com ela, Dorotéia, podia dizer em casa que estava com saudade e ia dormir com a irmã. Claro que os pais iam desconfiar e saber, mas era uma coisa tão discreta que eles não iam brigar muito, a mãe ia aprovar, o pai já estava se acostumando ao mundo.

Rosângela ouviu tudo sem dizer palavra, sem mais que um rubor muito leve no rosto, de excitação ou de timidez, mas imperceptível. Não esperava por aquela fala e não tinha uma resposta preparada, tinha que elaborar, era uma revolução na vida, e um mundo desconhecido, não era um salto no escuro porque tinha o amparo da irmã, mas era outro mundo, adulto e grave, não era mais a meninice irresponsável do Bebeto que era o pai da Ana mas não era, que só queria brincar de sexo e já não tinha nenhuma graça.

Tinha de pensar, era menina ainda, mesmo mãe, sendo chamada a ser mulher, a doçura não perdia, que era dela, mas perdia a inocência, tinha de pensar, olhando a vida com olhar mais medido e meditado O futuro. Pensava.

Boletim nº 139 – novembro/dezembro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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