Quem tem medo dos contemporâneos?

2012 registrou os 90 anos de Gilberto Mendes.  Farejamos uma inequívoca expressão de “e daí?”.  Pois bem: um minuto para tentar a lembrança ou a identificação de quem é (ou foi) Gilberto Mendes: (a) ministro do Supremo; (b) colecionador de livros; (c) prefeito de São Paulo;  (d) comentarista esportivo; (e) NDRA. Resposta certa: (e).

Há uns 65  anos  era-nos dado assistir um concerto semanal da Orquestra Sinfônica Brasileira, que tocava o repertório tradicional dos barrocos (Bach), clássicos (Haydn, Mozart), românticos (Beethoven, Schubert, Brahms) e impressionistas (Debussy, Ravel). Num certo domingo lá, no intervalo, o regente Eleazar de Carvalho saiu do palco acompanhado por metade da orquestra. Para surpresa geral o maestro volta ao palco sobraçando… uma bola de futebol. Os músicos depositam seus instrumentos no colo, Eleazar sobe ao pódio e começa a atirar a bola  a um e outro músico qualquer, que a devolve, e de novo várias vezes, tudo em silêncio e na, aparentemente, mais absoluta seriedade. A plateia  reprimia gargalhadas e, dada a obra por terminada, ouvimos hesitantes aplausos. Realmente, consultando o programa impresso, constava lá, além das habituais sinfonias: “Santos Futebol Música”, de Gilberto Mendes, hoje professor de composição, guru de gerações e autor executado mundo afora.

Compositor Gilberto Mendes. ReproduçãoNeste ínterim, bem longe dali (USA) outro músico, John Cage, inventou outra coisa no gênero, também para ser “tocada” em concerto e que intitulou “4’33’’” (“Quatro minutos e trinta e três segundos”): o palco exibe apenas um piano; o público aguarda o início do concerto por alguns instantes até que surge uma pessoa tendo nas mãos uma provável partitura, acompanhada por outra pessoa (supostamente aquele virador de páginas para os pianistas). O artista coloca a partitura no piano, senta-se no banquinho… e, durante os próximos 4’33’’, com as mãos repousadas nos joelhos, permanece absolutamente imóvel e silencioso enquanto fita a partitura. Fecha a “música”, levantam-se e se retiram aparentando a maior naturalidade. O episódio ficou batizado de performance. Graças ao YouTube podemos ver várias  reincidências da obra com plateias que, geralmente, aplaudem aparentando  também a maior naturalidade. Pausa para um pouco de judaísmo: numa dessas execuções, a câmera mostra o palco e percorre depois a plateia, em cuja primeira fila está sentada uma inequívoca ídene (trata-se do feminino da palavra id = judeu, mas que ganhou, com a criatividade do uso popular, algumas conotações adicionais – a ídene  é uma judia idosa, volumosa, falastrona e de uma franqueza geralmente contundente). Lá pelos dois minutos de performance ela começa a se mexer na cadeira, olha em volta em busca de aliados na sua visível indignação e termina por gritar: “Ô!!…psiu!! Toca alguma coisa aí, caramba!”

Pia entupida

Compositor John Cage. ReproduçãoNão cabe em algumas linhas analisar o lugar de Cage nas artes:  passou da simples composição musical moderna para um caráter mais de pensador da cultura do seu tempo, nem sempre compreensível e frequentemente destroçado pela crítica (Pierre Boulez, hoje a figura mais importante da música clássica, chegou a chamá-lo “um macaco performático”).  Se criar situações provocadoras como os tais 4 minutos, ou escrever um concerto para piano de brinquedo, devessem ser olhados como uma revolução na música dos anos 1950, como  classificar o que fizeram Schoenberg e Stravinski 50 anos antes?  Schoenberg e seguidores detonaram com a tonalidade, arcabouço de toda a música inventada nos 500 anos anteriores. Continuaram usando instrumentos – violinos e cellos, pianos, flautas e trompetes –, mas inventaram outra lógica, outra sintaxe, outra organização geral do mesmo material sonoro de 500 anos antes.  A música que resultou deve ter provocado, em 1900, a mesma reação que em qualquer ídene na plateia de 50 anos depois.   Considerados como nossos contemporâneos os compositores  que foram surgindo ao longo do século 20, constitui até certa obrigação ouvi-los pelo menos para saber com quem convivemos, a quem delegamos o direito de fazer arte.  Talvez pela falta de perspectiva histórica ainda seja difícil o entendimento, a análise e a crítica; assim, o absurdo assume  lugar preponderante nas nossas hipóteses. A eletricidade, esta aparente trivialidade, invadiu a área de prestígio da vela de cera, do bonde de burro, do tanque de lavar roupa… e finalmente a da música clássica.  A gravação em fita e depois a digital caíram nas mãos  dos compositores, o que nos oferece agora  derivações da música eletrônica dos anos 60 do século passado, agora intituladas, por exemplo, música espectral; mas a mais surpreendente é a chamada eletroacústica. Graças a grandes avanços tecnológicos no ramo, você pode ouvir ruídos ou vozes sucessivos ou simultâneos que vão desde uma pia entupida a peixinhos borbulhando num aquário, passando por uma implosão de viaduto em que se infiltram vozes gritando palavras distorcidas até se tornarem incompreensíveis.  Esta descrição corresponde, mais ou menos, à obra de um compositor brasileiro que tivemos a oportunidade de ouvir; levava o título de “Homenagem a Trotsky”.

Boletim nº 139 – novembro/dezembro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Colunista do Boletim ASA, é músico.

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