Com Arão de Oknitza

Gala Galaction

Gala Galaction

Frequentemente, vinha à casa de Ita, Arão Roitman. Mais tarde, em seus trabalhos literários, usou o pseudônimo Arão de Oknitza. Ele ia a pé de sua casa em Oknitza, uma estação ferroviária a sete quilômetros de Securon. Nenhuma temperatura, verão ou inverno, o impedia de fazer esse passeio. Arão tinha estatura média, construção sólida, um rosto meio cor de rosa, olhos azuis e ampla calva. Dele brotavam alegria, uma vida divertida, uma inteligência aguçada. Falava em ídish bessarábio, um saboroso ídish popular. Detestava as palavras engomadas e passadas, como dizia, frases elevadas. Achava que uma palavra simples é a verdade da palavra. A esse princípio ele era leal tanto na vida como em sua criação literária. Gostava de contar anedotas, cantar canções populares misturadas com um palavrão. Ria largamente, um riso sonoro e sadio. Alguns o tinham como um desmedido palhaço em coisas vulgares. Mas ninguém o suspeitava cínico. Sua falta de freios era mais a expressão de um protesto interior contra o imobilismo da burguesia. Era contra todo boneco inteligente, o ambiente de falsa delicadeza e bonitas palavras. Desmascarava com jeito os oradores reacionários e, com réplicas aguçadas, transformava suas conclusões em nada. Era apaixonado por literatura desde jovem. Conhecia muitas obras do mundo clássico. Gostava especialmente das literaturas judaica e russa. De natureza inquieta e perscrutadora, não parava em um lugar. Tinha estado na Itália, no Brasil e outros países. Na Itália, trabalhara na construção civil. Dava-se muito bem com os trabalhadores e com eles aprendeu a língua italiana. Conheceu mais de perto a literatura e a arte italianas. Ficou entusiasmado com a genial escultura de Michelangelo, as telas de Leonardo da Vinci. Admirava-as horas a fio. Mas acima de tudo o que o interessava mais era gente. Ele observava a vida das massas e por toda parte via a mesma coisa: necessidades, opressão e tirania, a dominação brutal do capital e o resultado de negócios torpes. Isto seria eterno?  Ao voltar para casa, depois de sua vida errante, fez amizade com a juventude combatente. Sua permanente vinda para Securon era para ele uma festa.  Mais de uma vez, Gavrilu o prevenira, indagando para quê vinha ele de tão longe, de Oknitza, e até o  convidou a comparecer à delegacia, onde o presenteou com alguns tapas e exigiu que nunca mais aparecesse por lá.

Para chegar à casa de Ita era preciso entrar em uma ruela estreita e comprida,  evitando olhares estranhos. A casa, que parecia isolada do mundo, constava de um quarto e uma cozinha. Todos os que lá iam tratavam a mãe de Ita, Hone, de você, com mais razão ainda o Arão, que era o mais velho de todos. Arão seduzia a todos com suas interessantes histórias sobre as viagens. Falava muito sobre literatura. Às vezes, inesperadamente, começava a declamar de cor trechos da Divina Comédia, de Dante, em italiano, e, em seguida, o mesmo em ídish com tradução sua, em um trabalho que lhe tomara muitos anos. Certa vez, apresentou citações e cenas do Inferno e depois pediu a Ita que contasse um pouco do inferno que ela passara na Segurança e na cadeia. Mas ela se esquivou: “Minhas histórias não são tão importantes; todos já conhecem. É melhor Arão ler alguma coisa de seu evangelho.”

Motivos evangélicos

Naquela época, Arão trabalhava em seu livro Motivos evangélicos. Impressionado com a heroica luta dos jovens revolucionários, achava que, graças a esses queridos rapazes e moças, o mundo se tornaria um novo mundo. Aquele livro  havia sido imaginado à base de temas comunistas. Quando foi lançado em Bucareste, impressionou tanto que Arão foi logo incluído no grupo dos escritores judeus por sua diversidade temática e estilo. O sentido das ideias desse livro foi logo compreendido. No conteúdo histórico via-se claramente a analogia com a fermentação contemporânea. Viam-se as manobras do nosso tempo entre dois mundos, entre duas filosofias e ideologias. O nascimento de uma escola nova e o aparecimento de novas forças sociais. A forma poética, a linguagem cristalina, o afetuoso lirismo provocavam espanto nos círculos de trabalhadores. Via-se que nessa obra estavam os acontecimentos do nosso tempo.

Arão tomou parte dos chás clandestinos que o Socorro Vermelho organizava semanalmente. Lá ele lia suas obras e era recebido calorosamente. Mas nos círculos burgueses não toleravam a sua franqueza e a sua incontida revolta. Ele havia tido a ousadia de criticar certos literatos que tinham em suas mãos o monopólio da palavra escrita e de quem dependia a sorte dos escritores e suas obras.

Em seu livro, Arão avaliava bem o governo romeno, o qual instaurou um processo contra ele na Justiça Militar de Bucareste. Arão foi preso. Acusaram-no de blasfemar contra a religião cristã e de fazer propaganda comunista. As testemunhas de defesa foram dois escritores romenos e o grande escritor e humanista, conhecido acadêmico e teólogo Gala Galaction. Seu discurso de duas horas teve grande significado político e literário. Apresentou exemplos e comparações com as obras de Anatole France e outros clássicos. Demonstrou o valor artístico da obra de Arão e a dimensão mundial do autor. O processo foi único no gênero na história das literaturas judaica e romena. Era tão grande a sua importância política e social que ele mereceria ser divulgado na imprensa e ressoar tanto no público do país como no exterior.  Mas isto não aconteceu.

Os literatos judeus burgueses, que tinham raiva de Arão, silenciaram sobre este processo, teimando tendenciosamente como se o caso fosse apenas de Arão e não um caso literário e social. Mas o tempo fez o seu trabalho. Muitos anos depois, já na Romênia socialista, com a vida partindo em novas bases, os Motivos evangélicos de Arão não foram esquecidos. Novamente apareceram em uma segunda edição da antologia literária judaica Ressurreição. Vale a pena reproduzir alguns trechos dos Motivos evangélicos que tratam do heroísmo dos que lutam por novos tempos:

“Doentes e amarelecidos, torturados, contam as barbaridades dos juízes romanos e dos delatores judeus. Em fossas tenebrosas, em unidas passagens subterrâneas, torturam os profetas da boa nova. Heroicas mulheres e crianças entusiasmadas que trazem ao povo a palavra sagrada sofrem torturas hediondas. Os gritos dos torturados são insuportáveis. As vítimas são conduzidas em grupo para a forca. Meus filhos amados, é verdade que vocês estão sendo desumanamente torturados. Desde que o mundo é mundo, nunca foram usadas tantas barbaridades e crueldades para com bem-aventurados. Mas fiquem sabendo que vocês fazem o trabalho mais sagrado. Muitas gerações sonharam com vocês. Santos profetas carregaram vocês em suas visões vermelhas.”

Muitas vezes, Arão me enviava cartas por intermédio de um cocheiro conhecido. Começavam sempre assim: “Meu caro Motl de Kucuruzevke”. Pensava, naturalmente, em Ita Kucuruza. Nem eu nem ele víamos nisto uma brincadeira. Para nós era algo compreensível, pois acreditávamos que em breve chegaria a grande hora há tanto desejada, o tempo de salvação, alegria e festa, de grandes mudanças. O nome de nossa Securon também deveria mudar. E o nome de Securon seria o nome de um de nossos heroicos jovens.

Tradução de Isaac Acselrad.

Boletim nº 139 – novembro/dezembro de 2012 – Ano 23

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