As duas mortes de Moishe Friedman

No espaço de poucas semanas, meu amigo Moishe Friedman morreu duas vezes.  Até que, para minha alegria, o reencontrei recentemente numa festa.

Quem lê habitualmente o obituário nos jornais, como é o usual com todos em minha geração, encontra algumas surpresas, e o nome dele preencheu a coluna nessas duas vezes.  Além do mais, caminhando pelo calçadão, encontrei um ex-companheiro de trabalho:

– Novidades?  Tem muita gente nossa morrendo.  O Fulano, o Sicrano – e aqui, enfatizou –, o Moisés, que você conhecia bem.

Ficou a dúvida.  Moisés não é tão idoso, teve cargos importantes,  e os anúncios eram parcimoniosos, só família, esposa, filhos, eventualmente um neto.

E aí deu-se o reencontro.  Ele já andara meio desconfiado, pois havia recebido vários telefonemas e até uma cautelosa troca de e-mails com um preocupado colega de faculdade:

–   Ei, como é que você  está?
– Tudo bem.
– Tudo bem mesmo?
– Por quê?  Era para ser diferente?
– Onde é que você está agora?

Nesse momento, bateu a verve judaica da ironia, e o Moishe se deu conta.  Respondeu pelo computador:

–  Estou no céu.  Acabei de chegar.  Parece meio chato, mas, pelo menos, as comunicações com a terra funcionam bem.

E, para mim, sorridente, acrescentou, a título de explicação:

– Olha, na minha família mantemos a tradição de homenagear o avô dando o seu nome ao neto; por isso,  trago o nome do pai do meu pai, Moisés.  E como somos Friedman – gente de paz e, por sorte, somos muitos – , tenho uma infinidade de homônimos, uns vivos, outros tantos já  defuntos ou em vias de se tornarem.  O nome do meio diferencia: o meu é Carlos.  Então, quando você vir no obituário que Moisés Carlos Friedman fez a passagem, pode estar certo de que esse aí sou eu.  Mas tem que conferir!

Ah, bom!

Boletim nº 139 – novembro/dezembro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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