Aqui estamos, para o que der e vier

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Judeus, Suas Extraordinárias Histórias e Contribuições para o Progresso da Humanidade

Marcelo Szpilman

 

Rio de Janeiro,Editora Mauad X, 2012

 

496 págs.

 

Quantos livros já foram publicados sobre a História dos judeus? Inúmeros, e em quase todos os idiomas vivos e também já desaparecidos…  Muitos, se não a grande maioria, foram e são assinados por historiadores, acadêmicos especializados em História judaica, rabinos, religiosos e tantos outros estudiosos igualmente dedicados à pesquisa sobre o tema. Este livro, no entanto, é diferente. Justamente por seu autor  não ser historiador nem especialista acadêmico ou religioso, mas biólogo marinho com publicações na sua área, é que chamou minha atenção. Antes de virar sua capa, de um azul profundo, de onde sobressaem, em amarelo, seu título e uma breve sugestão – “Conheça as relações entre a História dos judeus e a História da Humanidade e entenda as questões ligadas ao Oriente Médio, suas origens e seus atores” – , pensei que fosse mais um livro de amadores.

Engano meu. De amador, este livro não tem absolutamente nada. Ao folheá-lo, logo me surpreendi: uma meticulosa divisão cronológica, com cada data explicada por sua relevância, seja a respeito de um aspecto da História judaica seja da História universal (destacados por seus efeitos na vida dos judeus), e de forma direta, sucinta e altamente informativa. Os textos são quase isentos de citações, ou de notas de rodapé, ou de qualquer outra interferência que possa distrair a atenção dos leitores. Mergulhando um pouco mais na leitura, fiz  outra verificação importante: o texto ignora argumentos a favor ou contra este ou aquele ponto, evita discussões entre este e aquele autor, completando-se por descrições de fatos e circunstâncias e por registros de datas.  Há total ausência de qualquer desvio (seja por indicar outras leituras ou por tentar influenciar pensamentos) na fluidez da História, pois ela é narrada de modo inequívoco, cultivado e acessível.

Dona GraciaDona Gracia

Não se trata de uma História dos judeus, mas sim de suas “extraordinárias histórias”, como inseridas na História universal.  Uma obra de imenso fôlego e extensão cronológica, é o bastante sumarizada para uma apresentação coerente com o passar do tempo. As circunstâncias vão se encaixando  pelos séculos afora, desde a Idade Bíblica (1100 antes da Era Comum) até o momento atual.

 A leitura pode ser iniciada por qualquer uma das quatro partes: 1- Os judeus ao longo da História; 2- Os 12 judeus mais importantes para a Humanidade; 3- Judeus importantes no Mundo; 4- Judeus importantes no Brasil. Além desta divisão, há dois apêndices: “História e  árvore genealógica da família Szpilman” e  “Contribuições”, que são artigos e ensaios publicados por jornalistas, historiadores, estudiosos em geral, de várias nacionalidades, sobre temas relacionados a judeus.

Para dar uma ideia da variedade de informações inseridas na primeira parte deste livro, indico, como exemplo, abrindo o volume ao léu: “1536 – A história de Dona Gracia –  Por sua extraordinária tenacidade e por sua vida permeada por importantes momentos da História, é interessante relatar um resumo da vida de Dona Gracia, ‘La Señora’, que salvou a vida de milhares de judeus da Inquisição”. O texto que se segue  expõe os fatos principais ocorridos na vida dessa mulher sefaradita, de origem espanhola-portuguesa. Desafiando o próprio Rei Carlos V e toda a muralha de raivosos, obsecados e perniciosos antijudeus da Inquisição, foi feliz no seu breve casamento com um dos homens mais ricos do reino português, Francisco Mendes,  que fundou a Casa dos Mendes. Viúva, arquimilionária até para os cálculos atuais, Dona Gracia gerenciou sua fortuna com argúcia e conhecimento, dispondo de grande parte dela para auxiliar os perseguidos cristãos-novos ibéricos. Sem medir esforços, com o brio de quem sabia que estava salvando vidas, subornou toda a hierarquia católica do seu tempo. Ajudava os judeus a escapar da perseguição, deslocava-os de um país para outro, de um esconderijo para outro. O mesmo ela fez ao conseguir fugir da sanha do rei Carlos V, que quase obrigou sua única filha a se casar com um nobre espanhol, sem nenhum vínculo com o judaísmo.


Sinagoga incendiada na Noite dos CristaisNo Brasil e no mundo

A sequência cronológica das anotações pode levar os leitores a refletir tanto nos acontecimentos de maior ou de menor importância na vida judaica universal quanto nos grandes movimentos de deslocamento e instalação dos judeus no mundo. Assim é que as últimas décadas do século 19 registram a primeira grande aliá (1881, o primeiro movimento imigratório para Israel, de parte dos judeus russos, com ajuda do filantropo judeu Barão de Rothschild). Outras anotações perfilam-se, com diversas informações, tais como:  a invenção da Coca-Cola (1886), a Lei Áurea (1888), a Proclamação da República no Brasil (1889) e o início da comunidade judaica na Aracy e Guimarães RosaAmazônia (1890). O final do século também testemunhou o Caso Dreyfus (1894), descrito num dos mais longos verbetes do livro, como também o início do Sionismo (1895). Entrando pelo século 20, as anotações incluem “A forte comunidade judaica norte-americana” (1925)  e dois verbetes para o ano 1926: “Os judeus e a indústria de entretenimento americana” e “Os judeus e a indústria cinematográfica americana”.  Em excelente relacionamento com equidade, Szpilman também revela, em outro verbete do mesmo ano, “A participação dos judeus americanos no crime”. Para o verbete de 1930, o texto  é “Os judeus e o way of life americano”. No “intervalo” entre 1926 e 1930, mais precisamente em 1927,  registram-se anotações sobre o crescimento do nazismo, a que se seguem outras tantas, igualmente contundentes, como a Noite das facas longas (1934), ou a perseguição aos judeus na Alemanha (1935), A noite dos vidros quebrados (1938), e  todos os esforços nazistas para acabar com os judeus. Terminou com milhões de vidas, é certo, mas não conseguiu quebrar o seu espírito. Daquele período de terror, o autor ressalta as atividades de não judeus que salvaram vidas judaicas, caso do Justo Salão de cabeleireiro no bairro judeu de Lublin, 1938(qualitativo empregado a todos os que ajudaram a salvar vidas judaicas durante o Holocausto) português Aristides de Souza Mendes (verbete de 1944), embaixador de Portugal, então cônsul-geral na França. Outros Justos em verbetes encabeçados pela data 1944 são: Irene Sendler, da Polônia; os brasileiros  Luiz Martins de Souza Dantas, Guimarães Rosa e sua
esposa Aracy; Wilhelm Hosenfeld, alemão, que  “abrigou e alimentou o pianista polonês Wladyslaw Szpilman – fato documentado no filme O pianista, de Roman Polanski”.

Mais adiante, as anotações sobre a criação do Estado judeu (1947), e tudo o mais que se desenrolou a partir do renascimento de Israel, em 1948. O autor coloca, em sequência, verbetes encabeçados por “Enquanto isso…”, onde se expõe uma série de atividades paralelas que vão de “2009 – O banditismo dos terroristas do Hamas”, passando pela criação de um robô por dois cientistas israelenses, “para ajudar no combate ao câncer”, até  a inusitada nota de que, também em 2009, outros cientistas israelenses anunciaram que um “dispositivo, colocado no caule das árvores … poderá enviar uma mensagem  de texto ou um e-mail para o agricultor”, anunciando que o nível de água está baixo…


Imigrantes da Primeira AliáA piada dos cinco

Na Parte 2 do livro, o autor enumera os 12 judeus mais importantes para a Humanidade.  Começa citando cinco, dentro da piada intitulada: “Os cinco judeus que mais mudaram a forma de ver o mundo foram Moisés,
quando disse: A Lei é tudo; Jesus, quando disse: O Amor é tudo; Marx, quando disse: O Capital é tudo; Freud, quando disse: O Sexo é tudo; e, finalmente, Einstein, quando disse: Tudo é relativo…” Cada um deles tem seu verbete, seguido por outros, como Gustav Mahler, no setor de Música, Richard Feynman, em Física, Jonas Salk e Albert Sabin, na Medicina. Uma longa listagem de outros igualmente famosos nos leva ao final do livro. É nesta parte que  O Estado de Israel foi fundado em 1948Szpilman  “escorrega” um pouco – pois relaciona, por exemplo, Guido Mantega, ministro da Fazenda do Brasil a partir de 2006, como judeu (sua esposa é judia); também indica que Katharine Graham, que retirou o jornal The Washington Post de sua mediocridade para um reconhecimento universal (principalmente depois de dois de seus jornalistas terem revelado o caso  Watergate), era filha do seu fundador, o judeu Eugene Meyer – na verdade, ela era sua esposa e dirigiu o jornal após o suicídio do marido.

Estes pequenos deslizes, no entanto, não retiram, em absoluto, a grandiosidade desta obra. É uma enciclopédia inédita em língua portuguesa, por abranger a História mundial e a História dos judeus sem perder de vista os principais acontecimentos mundiais, muitos deles extremamente adversos à evolução ou mesmo à continuidade do povo judeu na face da Terra.

O ministro Guido Mantega não é judeuFinalmente, a história e a árvore genealógica da família Szpilman, incluídas no volume, são das mais interessantes. Isto  não só porque o autor vem a ser parente do infeliz pianista que foi salvo por saber tocar piano durante o terrorismo genocida dos nazistas, mas também e principalmente porque narra a trajetória de vários
membros dessa família, desde os músicos da cidade de Ostrowiec, na Polônia, até os irmãos Moysés e Samuel, que trabalharam também como músicos na nossa mui brasileira e carioca Confeitaria Colombo.

Esta obra fazia falta nas nossas estantes brasileiras. É para ser consultada sempre, como todas as grandes enciclopédias mundiais, com a vantagem de contar a História do judaísmo e a História da Humanidade, num mesmo volume.

Boletim nº 139 – novembro/dezembro de 2012 – Ano 23

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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